Novas leis exigem que Big Techs paguem por conteúdo. A mídia local será prejudicada?

por Amy Binns
Mar 9, 2021 em Notícias locais
Uma pilha desordenada de jornais

Que a internet praticamente destruiu o modelo de negócios que sempre apoiou o jornalismo não é novidade. Mas o que virou notícia em todo o mundo recentemente é que o governo australiano tentou fazer algo a respeito.

Esse país aprovou uma nova lei que obriga organizações como o Facebook e o Google, que ganham muito dinheiro entregando conteúdo de notícias em suas plataformas, a compartilhar sua receita de publicidade com organizações de mídia.

O Facebook causou uma reação mundial ao bloquear temporariamente todos os sites de notícias para usuários na Austrália. Enquanto isso, o Google tomou a direção oposta ao assinar acordos antecipados com as principais mídias do país. O Facebook agora também se comprometeu a fechar acordos com as principais empresas de notícias da Austrália em troca de permitir que seus usuários postem seu conteúdo em suas páginas.

Mas se o objetivo da nova lei é servir à democracia apoiando o jornalismo de interesse público, como isso funcionará?

O movimento das receitas de veículos de comunicação que empregam jornalistas profissionais para produzir conteúdo para plataformas que não produzem matérias originais é um grande problema internacional. A mídia social não apenas reduz o financiamento para o jornalismo profissional, mas também permite a divulgação de notícias falsas que preenchem rapidamente a lacuna deixada para trás. É um problema que foi obscurecido por muitos outros problemas da mídia social: bullying, uso de grupos criminosos e conteúdo perturbador, explorador, violento e pornográfico. Mas, na verdade, a forma como a receita de publicidade se divide tem implicações muito mais profundas.

[Leia mais: 4 alternativas para financiar um jornalismo em crise]

 

Os gastos com publicidade digital estão aumentando continuamente, mas cerca de 40% vai para o Google, com o Facebook em segundo lugar, com cerca de 22%. Enquanto isso, os jornais locais observaram que seus anúncios imobiliários desapareceram para a Rightmove e seus anúncios classificados para o Ebay e o Facebook. Quanto aos anúncios de emprego, que eram bons geradores de dinheiro para jornais locais e nacionais, eles migraram principalmente para sites de currículos, como o LinkedIn.

Para manter a visibilidade no novo mundo digital, as organizações de notícias precisam estar presentes nas plataformas de mídia social – o que significa simplesmente mais olhos para os "likes" no Facebook e Twitter. Privadas de receitas de publicidade, as organizações de notícias tradicionais estão em declínio aparentemente irreparável – não apenas no Reino Unido, mas em todo o mundo. No Reino Unido, 265 publicações foram fechadas desde 2005 – com a COVID-19 sendo o último prego no caixão para alguns.

A iniciativa australiana tenta evitar que as gigantes da tecnologia roubem todas as receitas digitais – mas uma crítica importante e válida é que o acordo parece ser distorcido em favor de grandes organizações de mídia. Os fundos também precisam ser disponibilizados para apoiar organizações de notícias locais independentes. O desequilíbrio já é visível.

O Google evitou a nova lei ao chegar a acordos para pagar sete organizações de mídia australianas, incluindo o considerável império de jornais e TV de Rupert Murdoch. Mas existe a preocupação de que as mídias locais que fornecem a maioria das notícias de serviço público provavelmente não se beneficiarão sem a influência massiva das nacionais.

O Google também concordou em pagar pelo uso de trechos de notícias nos resultados de busca do Google News de algumas editoras na França – mas até agora apenas para algumas grandes organizações nacionais, bem como para a agência internacional de notícias Reuters. Mais uma vez, o acordo parece destinado a beneficiar as organizações maiores, já que um dos critérios é o tráfego mensal. A rival francesa da Reuters, a AFP, já reclamou.

Blecaute nas notícias locais

Por que isso importa? Uma pesquisa mostrou ligações claras entre a perda de jornalismo –particularmente a nível local– e uma perda de participação pública e confiança na democracia. O papel de fiscalizador da imprensa local eleva os padrões de muitas outras maneiras inesperadas.

Nos Estados Unidos, os congressistas em áreas não cobertas por um jornal local fazem menos para representar suas comunidades na ausência de vigilantes locais –eles são mais propensos a seguir seu partido do que se rebelar e fazem menos trabalho constituinte, enquanto suas áreas recebem menos financiamento federal. Onde as redações locais tiveram cortes severos de pessoal, também há menos competição nas eleições para prefeito.

[Leia mais: O papel fundamental dos jornalistas locais durante a pandemia]

 

Há evidências na Noruega e Japão de que os conselhos em áreas com alta circulação local de jornal são mais eficientes. O declínio dos jornais locais e a redução da cobertura da política local foram até mesmo responsabilizados pela polarização política, principalmente nas áreas mais pobres.

E não se trata apenas de política. O Index on Censorship informou sobre os problemas de redações locais reduzidas tentando reportar com precisão enquanto os órgãos públicos, incluindo fundos de saúde e educação, empregam equipes de marketing bem pagas para proteger sua imagem; e grupos locais de mídia social compartilham informações que muitas vezes acabam sendo falsas.

A newsagent surrounded by magazines and local papers.
As notícias locais são a força vital de sua comunidade. Anton Havelaar via Shutterstock.

 

Menos jornalistas locais significa menos cobertura de processos judiciais e inquéritos. Em minha própria pesquisa sobre a cobertura dos tribunais de legistas, encontramos evidências de "desertos de notícias": áreas onde inquéritos nunca foram reportados devido a cortes de pessoal e informações fragmentadas dos tribunais. Os editores me disseram que era cada vez mais difícil entrar em contato direto com a polícia, pois os contatos eram canalizados por meio de “redações” da polícia –anteriormente assessorias de imprensa– que agora têm como objetivo priorizar as boas notícias sobre os sucessos policiais.

Isso tem consequências graves. A importância de informar sobre inquéritos públicos foi destacada pelo trabalho de George Julian, que tuíta ao vivo inquéritos de pessoas com dificuldades de aprendizagem e autismo. Elas normalmente morrem duas décadas mais cedo do que as pessoas sem essas necessidades especiais, muitas vezes por causa de cuidados mal administrados, que só são destacados durante o processo de inquérito. Mas se não houver ninguém para cobrir o inquérito, haverá pouca pressão pública para mudanças.

O jornalismo local também custa dinheiro

As medidas do governo australiano são um passo na direção certa, mas há o risco de que o sistema de negociação permita que as organizações grandes obtenham a receita recém-liberada, deixando o jornalismo local profissional de alta qualidade novamente sem opções.

De fato, isso não é do interesse de ninguém. As organizações de notícias nacionais há muito confiam na imprensa local para agir como um exército de repórteres de base. Muitas histórias nacionais começaram na primeira página de um jornal local, e muitos grandes repórteres começaram na imprensa local. O interesse próprio, na verdade, deveria ditar que eles usassem seu poder para ajudar seus colegas menores, mas parece provável que, sem uma supervisão cuidadosa do corpo revisor daqui a um ano, o curto prazo garantirá que eles continuem a conquistar a maior fatia da torta.


Amy Binns é professora de jornalismo e comunicação digital na Universidade de Central Lancashire.

Imagem principal sob licença CC no Unsplash via Wherda Arsianto

Este artigo foi republicado do The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original (em inglês).