Lições para equipes de jornalismo de dados na América Latina

porMariano Blejman
Oct 5, 2015 em Jornalismo de dados

Fazer jornalismo de dados na América Latina é um grande desafio. As redações nesta parte do mundo têm levado mais tempo do que se imaginava para implementar equipes interativas por uma série de razões, incluindo hábitos culturais, recursos técnicos limitados, falta de visão e ecossistemas inadequados. Os executivos de mídia estão só agora começando a entender os novos papéis que aparecem nas redações.

Dois anos atrás, eu fundei o Hackslabs, o primeiro acelerador de jornalismo de dados na América Latina. A ideia original era ajudar as equipes de empreendedores de jornalismo interativo e de dados a expandir seus produtos, conectar com os veículos de comunicação e avançar suas inovações. Depois que uma primeira rodada de 10 projetos foi lançada em 2014, com financiamento grande do Banco Mundial e apoio adicional da Fundação Knight, o HacksLabs anunciou em 2015 que iria trabalhar com oito novos projetos em vários países latino-americanos. O plano era dar US$10.000 de subsídios, bem como orientação para ajudar a avançar os projetos.

Com esta segunda fase, focamos em equipes mais desenvolvidas que buscam melhorar produtos que podem ser usados ​​nas redações. Atualmente, existem quatro projetos sendo desenvolvidos com o apoio da Fundação Avina Hivos, que serão lançados em poucos meses.

A nossa abordagem é o oposto dos grandes meios de comunicação internacionais que trabalham com equipes de jornalistas de dados: Marc Lavalle, editor de notícias interativo no New York Times, disse que seus desenvolvedores têm cerca de 50 projetos, que são difíceis de implementar fora do jornal, porque a ideia por trás desses projetos é agregar valor às matérias que estão sendo publicados no Times.

Na América Latina, as oportunidades são diferentes e as chances de trabalhar em projetos interativos de impacto social na mídia são muito escassas. Por isso, decidimos financiar projetos que poderiam ser reproduzidos e com o potencial para gerar comunidades pan-regionais em busca de inovação, mesmo aquelas fora da mídia.

É por isso que nós decidimos sobre esses projetos:

  • Yo Quiero Saber, um jogo interativo que permite ao eleitor descobrir quais candidatos compartilham seus pontos de vista
  • Cuidados Intensivos, uma plataforma que ajuda o cidadão peruano a relatar problemas de saúde
  • Cargografías, um site interativo que apresenta toda a história política de candidatos eleitorais
  • Yo Intervengo, uma ferramenta móvel que capacita o cidadão a acompanhar projetos de obras públicas na Colômbia
  • El Chequeador, uma plataforma de checagem de fatos com colaboração do público
  • Podero Editor, uma ferramenta personalizada da Poderopedia para mapear as relações entre elites em um país ou região
  • Salud Migrante, que analisa dados de saúde dos migrantes nos Estados Unidos
  • La Borra, um projeto do visionário Andy Tow: um agregador que analisa e prevê resultados eleitorais. Foi construído para a Argentina, mas tem um grande potencial de escalabilidade.

Recebemos um grande número de inscrições sobre questões como desvio de fundos públicos, conflitos de interesse entre empresas, lavagem de dinheiro, roubo e evasão fiscal.

Há muito a ser feito. Nos próximos meses, esperamos renovar e fortalecer os nossos compromissos anteriores e anunciar apoio a projetos adicionais que estão atualmente em curso. Mas, primeiro, vamos fazer uma pausa para refletir sobre as lições que aprendemos no processo de montagem de equipes de dados em mídias digitais e tradicionais no ano passado.

Dicas para ter em mente ao construir equipes de dados 

  • Mudar o fluxo de trabalho em um ambiente jornalístico é um processo lento; envolve a modificação de hábitos e costumes.
  • É necessário pensar em novos empregos ou posições que redações geralmente não levam em conta, tais como: 
    • Quem vai ser o diretor técnico ou gerente de tecnologia. Se não é definido claramente quem é a pessoa que vai liderar o projeto do ponto de vista tecnológico, é altamente provável que o projeto irá falhar.
    • Se não estiver planejando incorporar alguém com conhecimento da experiência do usuário (UX/UI), é muito provável que ninguém vá ser capaz de usar o que os jornalistas e programadores construirem; no mundo interativo, os leitores são usuários.
  • Sustentabilidade: O que acontece quando o desenvolvimento é concluído? Quem vai manter o código? Quem irá documentá-lo? Onde ele será salvo?
  • Construir em etapas: Não pense em construir antes de planejar como você vai fazer o primeiro andar e montar a porta.

Dicas para melhorar a qualidade dos investimentos e apoios para acelerar o impacto

Além dos projetos que financiamos e continuaremos a financiar, encontramos alguns pontos fracos no ecossistema de inovação.

  • Financiamento não é suficiente: a transferência de conhecimentos, habilidades de mentoria e apoio prático melhoram as chances de um projeto ser desenvolvido e seguir em frente.
  • Mentoria não é suficiente: mentoria é um bom começo para saber onde buscar soluções, mas, a fim de se concentrarem, equipes interativas muitas vezes precisam de apoio específico na implementação e solução de problemas de novas tecnologias.
  • Ter uma equipe não é suficiente. Precisamos de parceiros bons, estratégicos ou líderes ambiciosos ansiosos em gerar impacto. E também precisam ser flexíveis.
  • Inovação é um conceito mental: pense fora da "caixa". Se isso não está na gênese ou DNA da equipe, vai ser difícil de trazê-la.
  • Inovação em jornalismo precisa de suporte sistêmico e pontes de aceleração mais rápidas para implementá-la.

No final, as pessoas dedicadas sempre triunfam. Se há alguém na equipe disposta a passar noites sem dormir terminando a raspagem de dados, é provável que o projeto seja concluído, mas, é claro, esses tipos de personalidades são difíceis de moldar.

Imagem principal sob licença CC via Ramiro Charles