Lições da cobertura eleitoral na República Dominicana e Haiti

porIndhira Suero Acosta
Oct 19, 2020 em Temas especializados
Centro de votação na República Dominicana

Enquanto jornalistas de todo o mundo cobrem as últimas semanas antecedendo as eleições presidenciais nos Estados Unidos durante a pandemia de COVID-19, eles podem aprender algumas lições com seus colegas na República Dominicana e Haiti.

Após o adiamento em maio devido à COVID-19, a República Dominicana realizou uma eleição presidencial no início de julho: um dia após atingir um novo recorde de casos confirmados de COVID-19 no país.

Para a mídia dominicana e haitiana na ilha de Hispaniola, as eleições apresentaram desafios e oportunidades significativas para os repórteres e suas redações. Eles se esforçaram para melhorar as medidas de segurança e proteger os jornalistas que reportavam na rua, enquanto ajustavam suas abordagens de reportagem, lidando com as finanças de suas redações e colaborando.

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Medidas de segurança

Para sua cobertura eleitoral, o jornal dominicano Listín Diario dividiu sua equipe em dois grupos de jornalistas: os que trabalhariam de casa e os que trabalhariam na redação.

Além do distanciamento social da equipe, a redação aprimorou as medidas sanitárias. Isso incluía fumigar regularmente o espaço do escritório, desinfetar completamente todo o prédio uma vez por semana e comprar máscaras e roupas de proteção.

O Listín Diario ampliou seu apoio aos funcionários por meio da realização de entrevistas virtuais e reuniões editoriais, esclarecendo aos repórteres quando a reportagem presencial era necessária e ouvindo a equipe para entender melhor suas necessidades. A redação também aumentou a conscientização sobre a COVID-19 entre os funcionários. “Tivemos que ser muito enfáticos ao recomendar que eles não se exponham demais”, disse o editor-chefe Juan Eduardo Thomas.

Voter in the Dominican Republic. Photo courtesy of Listín Diario.
Votação na República Dominicana. Foto cortesia do Listín Diario.

 

Evitar a exposição desnecessária à COVID-19 foi muito importante para Mayelin Acosta, repórter do jornal Hoy. Embora o jornal fornecesse a seus funcionários materiais de proteção e limpeza, na realidade, cabia aos repórteres garantir que seguissem os protocolos de segurança e monitorassem seu próprio bem-estar.

Isso se estendeu além da eleição também. “Depois de cobrir as eleições, fiquei atenta para ver se havia algum sintoma e evitei ir ao jornal todos os dias”, disse Acosta. 

Planejamento editorial

Outro jornal dominicano, o Acento, começou a planejar sua cobertura eleitoral em janeiro. A equipe teve que lidar  não apenas com o estado de emergência devido ao coronavírus, mas também com um mês de adiamento das eleições municipais em fevereiro, supostamente devido a uma falha eletrônica.

“Reorganizamos a equipe, repensamos nossos horários de trabalho e depois fizemos um plano no qual tínhamos que provar que a agilidade do digital estava acima de qualquer obstáculo”, disse o diretor Fausto Rosario.

O Acento criou plataformas de comunicação para atribuição de tarefas e atualização de notícias. Cada repórter tinha responsabilidades e havia uma equipe de coordenação composta pelo editor-adjunto, o editor-chefe e o coordenador noturno da redação. Como outras mídias, eles pararam de cobrir atividades de menor escala sobre as quais costumavam focar anteriormente

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Sustentabilidade

As finanças abaladas da redação durante a pandemia complicaram ainda mais as reportagens sobre a eleição. Em março, por exemplo, pelo menos sete clientes decidiram rescindir seus contratos de publicidade com o Acento.

Felizmente, o Acento já estava trabalhando em novas opções de monetização. Entre elas estava a criação de uma opção de crowdfunding para leitores chamada Colabora con Acento, que solicitava doações por meio do PayPal. “A COVID-19 nos forçou a tentar essa opção. E nos ensinou uma realidade: o público valoriza nosso trabalho, a ponto de colaborar com nossa sustentabilidade”, disse Rosario.

Graças às contribuições, o Acento pôde distribuir um bônus especial aos repórteres após seu trabalho nas eleições.

Jornalismo cidadão e reportagem em pessoa

Como a única correspondente do programa Al Rojo Vivo, Laura de la Nuez trabalha com temas que tendem a sair do comum. Ela frequentemente colabora com jornalistas em outras redes e depende de vídeos enviados às redes sociais para apoiar suas reportagens.

“As pessoas comuns recebem as notícias frescas em uma determinada cidade, especialmente em lugares onde os jornalistas não chegam rapidamente”, disse de la Nuez. “Os vídeos enviados por não jornalistas foram os que me ajudaram a cobrir as eleições.”

Polling location in the Dominican Republic. Photo courtesy of Listín Diario.
Local de votação na República Dominicana. Foto cortesia de Listín Diario.

 

Ao reportar pessoalmente no dia da eleição, ela aconselhou que os jornalistas devem estar preparados para lidar com grandes grupos de eleitores, incluindo aqueles que podem não estar praticando o distanciamento social.

Na República Dominicana, o Conselho Eleitoral Central do país não comunicou informações claras aos cidadãos sobre a melhor forma de manter a distância ao votar nos centros de votação, disse de la Nuez. Os jornalistas tiveram que realizar seu trabalho em circunstâncias menos do que ideais, garantindo que sua própria segurança não fosse comprometida.

Colaboração

No Haiti, um grupo de jornalistas decidiu lançar o Desisyon RD 2020, um programa no idioma crioulo haitiano, para divulgar os desdobramentos das eleições dominicanas. Isso permitiu que eles identificassem oportunidades de colaboração, segundo a jornalista Ives Marie Chanel

“Nos ajudou a descobrir o potencial que existe para a cobertura de notícias e questões binacionais. Estamos falando sobre a cobertura de mais de 30 estações de rádio e canais de televisão”, disse Chanel. “O evento também despertou muito mais interesse entre os haitianos pelas notícias dominicanas.”

A iniciativa reuniu veículos e jornalistas do Haiti e República Dominicana pela primeira vez. Também participaram especialistas em temas eleitorais, analisando os resultados eleitorais e seu impacto no nível binacional.

Para Chanel, a colaboração é essencial — especialmente porque a pandemia impôs limitações às práticas comuns de reportagem. A mídia em outros países pode aprender com a experiência do Desisyon RD 2020 e colaborar para coletar e disseminar informações nos níveis local e regional durante a cobertura de futuras eleições.

“Facilita o alcance de nossos objetivos e, às vezes, abre novos horizontes”, disse Chanel.


Indhira Suero Acosta é jornalista cultural e embaixadora da SembraMedia na República Dominicana. Ela é uma ex-bolsista da Fulbright e criadora do Negrita Come Coco, promovendo a cultura popular e os afrodescendentes. Siga-a no Twitter em @SueroIndhira.

Imagem principal cortesia do Listín Diario