Lançado guia de reportagem de conflito para jovens jornalistas

porDena Levitz
Aug 22, 2016 em Segurança do jornalista

Tradicionalmente, jornalistas aprendem como reportar de uma zona de conflito quando estão à beira de fazê-lo. Isso normalmente acontece depois de anos de carreira jornalística, após ter adquirido experiência e clipes.

Mas uma universidade influente e uma fundação querem mudar isso. A Escola Medill de Jornalismo da Universidade Northwestern e a Fundação James W. Foley Legacy acabaram de lançar um guia com o objetivo de ensinar os fundamentos da reportagem de conflito para um grupo muito mais jovem do jornalismo: estudantes universitários.

O guia de segurança foi produzido com a ajuda do Repórteres Sem Fronteiras e A Culture of Safety Alliance. Ellen Shearer, codiretora da Iniciativa Nacional de Segurança de Jornalismo da Escola Medill e chefe de redação do Medill News Service, disse que não houve um único momento que impulsionou o projeto. Mas dados os desafios atuais enfrentados por jornalistas que cobrem guerras, houve um aumento da conversa entre esses grupos da indústria sobre a necessidade de melhorar o conhecimento dos repórteres que entram em zonas de perigo.

"Porque eu estou na [escola] Medill, a ideia de chegar aos estudantes de jornalismo me tocou de imediato", disse Ellen à IJNet. "Pensamos até que talvez devêssemos tentar realmente alcançar as pessoas mais cedo em suas carreiras com esta informação realmente vital sobre a avaliação de risco. Fornecer este conhecimento mais cedo seria um serviço de fato."

O tempo entre a ideia e a execução foi curto. Uma reunião inicial em setembro passado levou a uma segunda reunião no inverno [americano], e havia imediatamente uma sensação de "vamos entrar em ação", disse ela. O Repórteres Sem Fronteiras armou-se com recursos e vários alunos de pós-graduação da Medill ajudaram a compilar materiais de leitura e localizar jornalistas dispostos a fazer entrevistas gravadas que poderiam se tornar parte do currículo.

O guia, que foi concluído no início de agosto de 2016, consiste em três aulas distintas. A primeira é baseada em assistir a "Jim: The James Foley Story”,  um documentário do HBO baseado nas experiências de Foley, um correspondente de guerra freelance que foi decapitado em agosto de 2014 e é considerado o primeiro cidadão americano morto pelo ISIS. Juntamente com o filme, o guia fornece materiais de fundo sobre o caso de Foley, destinado a estimular a discussão entre os alunos sobre os perigos de reportagem de conflitos.

A segunda lição é focada em avaliação de risco. Ellen disse que esta seção inclui entrevistas com dois jornalistas veteranos e um jornalista relativamente novo, "oferecendo conselhos sobre como se preparam antes de ir para o campo e como pensam sobre risco".

Em seguida, há estudos de caso sobre as situações enfrentadas pelos jornalistas veteranos Amanda Mustard, uma freelancer conhecida, e David Rohde, anteriormente do New York Times e agora na Reuters.

"Os cenários são dados e, em seguida, os alunos são convidados a reagir. Como iriam lidar com a situação? Em seguida, os repórteres dizem o que fizeram", explicou Ellen. "Isso dá aos alunos uma maneira de interpretar e pensar como agiriam se fossem eles."

De acordo com Ellen, qualquer educador de jornalismo que ensina a nível universitário é o público-alvo para a utilização desses recursos em sua sala de aula. Os alunos não precisam ter qualquer experiência de reportagem para colher valor.

"Eu acho que mesmo se não é a sua intenção se tornar um repórter de conflitos, esse [guia] será útil para você", Ellen afirmou. "Se você se tornar um editor, é bom para saber o que seus repórteres precisam saber antes de ir para a rua. Se você se tornar um tipo diferente de repórter, é útil pensar sobre o que seus colegas devem estar pensando."

Ellen enfatizou que treinar estudantes de jornalismo em reportagem de guerra é essencial, especialmente agora que em muitos conflitos recentes, tornou-se mais difícil saber quem está de que lado.

"No Iraque e no Afeganistão, houve uma presença militar norte-americana. Você poderia ficar 'embed' [junto a tropas]. Você podia encontrar o seu caminho para a segurança. Mesmo se não ficasse 'embed', você sabia quais eram os lados", explicou ela. "Na Líbia, você tinha um levante populista e os combatentes eram cidadãos comuns que se juntaram e também nem sempre usavam uniformes. ... Para mim, a Líbia é o lugar onde se tornou exponencialmente mais perigoso."

O próprio Foley falou sobre esta questão depois de seu primeiro sequestro como jornalista.

"Na maioria dos conflitos anteriores, havia uma sensação de que, se você estava claramente identificado como jornalista, ambos os lados iriam tratá-lo como um não-combatente", acrescentou Ellen. "O que estamos vendo agora é jornalistas sendo deliberadamente alvos, seja por sua capacidade de gerar dinheiro do resgate ou pela capacidade de seu sequestro gerar manchetes."

Tendo em conta estes riscos, o guia tem como objetivo fornecer protocolos e sistemas reais para os jornalistas seguirem durante a reportagem para que suas probabilidades de segurança sejam aumentadas. O guia pode ser encontrado em https://www.jamesfoleyfoundation.org/overview-of-curriculum/ e www.nationalsecurityzone.org.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Global Panorama