Jornalista do mês: Victoria Milko

porTaylor Mulcahey
Aug 1, 2018 em Jornalista do mês

A cada mês, a IJNet apresenta um jornalista internacional que exemplifica a profissão e usa o site para promover sua carreira. Se você gostaria de ser apresentado, envie um e-mail com uma biografia curta e um parágrafo sobre como usa os recursos da IJNet, aqui.

Em um país que tem estado em destaque na cobertura de notícias internacionais, a repórter e fotojornalista Victoria Milko é uma das poucas americanas que trabalham em Mianmar em período integral.

Milko é uma nativa de Washington e graduada pela Universidade de Maryland. Sua carreira começou quando um editor do Washington Post Express percebeu que ela podia tirar fotos e escrever artigos. Ela contribuiu regularmente para a publicação, também colaborando com o Washington Post, NPR, Associated Press e mais.

Desde então, ela viajou pelo mundo cobrindo histórias sobre os direitos LGBT na Palestina e em Israel, a saúde das mulheres em Bangladesh, rotas de migração na América do Sul e mais. Atualmente trabalha como editora multimídia na Frontier Myanmar, uma revista semanal independente baseada em Yangon.

“Um dia tiro fotos de crianças refugiadas na fronteira da Tailândia, no dia seguinte faço um vídeo olhando o impacto do ciclone Nargis anos depois no delta do Irrawaddy e outro dia fico sentada uma conferência de imprensa das Nações Unidas”, disse Milko. "Isso realmente varia dia a dia."

Milko ajudou a lançar o primeiro podcast de Mianmar, organizado por duas mulheres locais que discutem direitos humanos em birmanês e outras línguas de minorias étnicas. Ela também reportou sobre o estado de Rakhine, pouco antes da violência na região levar a um êxodo em massa de refugiados Rohingya para Bangladesh, e sobre uma crise alimentar em campos de refugiados na fronteira entre a Tailândia e Mianmar.

Uma ávida leitora da IJNet, Milko credita seu treinamento de ambiente hostil ao boletim semanal da IJNet. Ela participou do curso de reportagem com segurança em zonas de crise do Centro Dart da Universidade Columbia.

“Eu penso nas coisas que aprendi lá todos os dias quando estou em campo, e acho que não teria conhecido esse programa se não tivesse sido divulgado pela [newsletter] da IJNet”, ela disse.

A IJNet falou com Milko sobre seu trabalho, o status dos repórteres em Mianmar, preocupações com segurança e seus conselhos para jornalistas emergentes.

IJNet: Quais são os maiores desafios que você encontra trabalhando e reportando em Mianmar?

Milko: Mianmar tem muitos desafios em se tratando de reportar. Há falta de acesso à informação do governo; você dificilmente pode falar com funcionários do governo [e] a imprensa é frequentemente recusada em coletivas e prefeituras. Você tem que pegar uma cópia do jornal oficial para ver quais são os comunicados do governo.

Além disso, Mianmar tem muitas leis nos livros, sejam elas da era colonial ou estabelecidas sob o mandato de Aung San Suu Kyi, que reprimem severamente a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa. 66D é a mais famosa. É uma lei anti-difamação que foi decididamente mantida nos livros por este governo democraticamente eleito. Se eu simplesmente digo alguma coisa criticando o governo, ou que uma certa empresa fez alguma coisa, eles podem me processar por difamação de caráter. Associação ilegal é outro problema que assola Mianmar. Se eu for pega na mesma sala que alguém considerado ilegal pelo governo --seja um grupo étnico armado ou um “inimigo de Mianmar”--, eu posso ser presa simplesmente por estar na mesma sala.

Há também grandes partes do país onde os estrangeiros não podem ir. Se você está tentando obter informações, tem que confiar apenas no governo ou nas forças armadas, e nenhum bom jornalista deve fazer isso.

Como é ser uma jornalista americana trabalhando em Mianmar?

Eu sempre digo às pessoas que as mulheres estrangeiras em Mianmar têm um papel de gênero realmente especial. Não se espera que tenhamos as mesmas características de uma mulher local, como ser conservadora, estar em casa [ou] não entrar em situações perigosas-- mas também não somos ameaçadoras ou geramos as expectativas que um homem geraria. Em muitos casos, tive acesso a histórias porque sou estrangeira e mulher, enquanto meus colegas locais que são homens não conseguiram ter acesso às mesmas histórias.

Mas também me seguiram e tive minha foto tirada consistentemente por unidades de inteligência do governo. A segurança cibernética está se tornando um problema crescente em Mianmar, pois vemos o governo e os militares utilizando ferramentas cibernéticas contra jornalistas. Não é fácil, mas acho que os estrangeiros têm muito mais facilidade do que os nossos colegas locais.

Você dá crédito à IJNet por ajudá-la a encontrar treinamento ambiental hostil. Quais são algumas lições específicas que você aprendeu?

Eu penso muito sobre segurança cibernética em Mianmar, [e] como mulher trabalhando independentemente em campo, [penso em] segurança física. Nunca vou esquecer quando estava no treinamento e fui presa no chão por um ator que estava nos ensinando como nos defender. [Aprendi] uma maneira especial de poder virar as pernas e os quadris para conseguir mais força para tentar chutar [um agressor] em cima de mim.

[Também encontrei] uma rede de pessoas. Muitos dos instrutores eram mulheres e participantes eram mulheres, então encontrei um grupo de mulheres que, ao invés de me dizer "não vá a este lugar", me ensinaram como estar segura nesses lugares hostis.

Que tipo de conselho você tem para um jornalista iniciante, especialmente um que também gostaria de viajar ou reportar em ambientes desafiadores?

Muitas pessoas me mandam e-mails, especialmente jovens, dizendo que querem ser "fotógrafos de guerra" ou "jornalistas de guerra". Acredito em sempre responder a esses e-mails, mas a primeira coisa que sempre digo às pessoas é que não se trata apenas de você. A questão é o seu fixer, seu motorista e seus pais. O que você quer fazer vai causar um impacto ou há alguém que já fez isso ou o faz de forma mais eficiente? Muitas pessoas arriscam a vida para contar sua histórias ou se encontrar com você e não acho que sua aventura valha a pena. Suas histórias valem o risco? Essa é a parte mais importante.

Certifique-se de que você está fazendo isso pelas razões certas e entenda a responsabilidade não só para si mesmo, mas para os entes queridos e aqueles com quem você trabalha. Se você acredita nisso, então vá em frente.

A primeira imagem mostra Milko entrevistando uma pessoa internamente deslocada de Shan em um dos campos de refugiados de guerra ao longo da fronteira entre a Tailândia e Mianmar. A segunda mostra Milko entrevistando um refugiado de Shan que perdeu as mãos em uma mina terrestre durante o conflito.

Todas as imagens são cortesia de Milko