Jornalista do mês: Urooba Jamal

porTaylor Mulcahey
Jun 26, 2019 em Jornalista do mês
Urooba Jamal

A jornalista canadense Urooba Jamal não fica em um lugar por muito tempo, o que é exatamente o que ela prefere. A aspirante a correspondente internacional passou dois anos reportando no Equador após a faculdade e, no próximo semestre, vai se mudar para a Dinamarca.

“Eu diria que o benefício [de mudar] é que o trabalho é sempre muito interessante”, diz Jamal.

Ela começou a se interessar por jornalismo quando estava cursando a Universidade de British Columbia e foi cofundadora do The Talon, um site de jornalismo no campus dedicado a contar histórias de comunidades marginalizadas —um tema que continua a aparecer no trabalho de Jamal.

“Antes do jornalismo, eu estava envolvida em muitos movimentos sociais diferentes, então acho que é interessante notar que os antigos valores do jornalismo —objetividade, neutralidade— estão sendo debatidos hoje”, diz Jamal. “E eu acho que estão realmente sendo desafiados, especialmente quando a paisagem da mídia se torna mais diversificada e as pessoas estão falando sobre suas experiências."

Depois de se formar, Jamal foi para o Equador para trabalhar no meio de notícias em inglês da teleSUR. Ela estava trabalhando na TeleSur durante a eleição de 2016 nos Estados Unidos e escreveu muito sobre a política americana, bem como sobre outros assuntos na região.

Agora, de volta a Vancouver por alguns meses, Jamal fez freelance para uma série de veículos respeitados, incluindo Vice, CNN, Washington Post e mais.

No outono, Jamal se mudará para a Dinamarca onde vai cursar o primeiro ano de seu mestrado de dois anos em jornalismo, mídia e globalização por meio do programa de jornalismo Erasmus Mundus. Ela recebeu uma bolsa de estudos integral, uma oportunidade que encontrou através da IJNet.

A IJNet falou com Jamal sobre sua experiência, conselhos e valores no jornalismo.

IJNet: Quais são os benefícios e desafios de explorar todas essas diferentes regiões e tópicos?

Jamal: Antes de me mudar para a América Latina, eu não estava muito bem informada sobre a política latino-americana ou movimentos sociais em particular. Quando cheguei lá, quando estava no terreno, aprendi muito, e superei completamente a minha falta de conhecimento por estar em um novo lugar.

Eu acho que o fato de me mudar me expõe a novas questões. É por isso que estou animada para ir à Europa porque, novamente, não estou bem informada sobre questões de refugiados na Dinamarca, mas estou animada para aprender mais sobre isso assim que chegar ao local.

Quando eu estava na América Latina, eu obviamente fazia parte de uma redação, então estava ligada a muitos jornalistas locais e, a partir daí, conheci muitos jornalistas da América Latina. Da mesma forma, desde que voltei ao Canadá, faço parte de um grupo lançado recentemente, o Canadian Journalists of Color, voltado especialmente para jornalistas de minorias no Canadá, já que a paisagem da mídia no Canadá não é super diversificada. Através dessa rede, eu já me encontrei com muitos jornalistas em Vancouver que estão procurando tornar a mídia mais inclusiva. E tem sido ótimo se conectar com outros jornalistas de minorias aqui.

Há, obviamente, desafios também, e eu acho que falei sobre isso: a falta de conhecimento quando você se muda para um novo lugar. Você não está ciente dos problemas mais relevantes e, claro, está criando sua própria rede de fontes, editores e contatos.

E as habilidades de idiomas? Você já percebeu que são uma barreira para alguma coisa que queria fazer?

Isso é realmente um ponto importante, porque antes de me mudar para a América Latina, eu não sabia nada de espanhol, e foi um desafio no começo. Eu não pude fazer muitas reportagens sobre as quais eu estava realmente animada, então decidi aprender a língua enquanto estava lá. Nos dois anos que passei no Equador, aprendi espanhol. Eu fiquei muito feliz com isso porque houve muitas matérias que eu sei que se eu não tivesse aprendido a língua, eu não teria sido capaz de fazer.

Eu acho que o conselho que eu daria a outros jornalistas é aprender o máximo do idioma possível, especialmente se você estiver interessado em jornalismo internacional. Eu acho que é realmente fundamental. Agora falo três idiomas, por isso é útil poder ter isso.

Se eu resolver cobrir uma região onde não falo a língua, vou confiar em fixers e tradutores, que também são um ótimo recurso para jornalistas. Existem várias redes diferentes para conectar jornalistas. Uma em particular da qual eu gosto muito, que acabei de conhecer recentemente, é o Hostwriter, que na verdade é uma rede de jornalistas baseada na Europa.

Urooba Jamal
Jamal cobrindo a conferência Women Deliver no Canadá.

Como você vê o estado do jornalismo hoje?

O jornalismo começou como uma indústria, como uma linha de trabalho para responsabilizar os governos, responsabilizar as organizações, relatar os fatos e relatar a verdade. O que eu vejo em falta é na verdade mais jornalistas perguntando algumas dessas questões críticas. O que eu vejo acontecer muito é apenas relatar os fatos sem se envolver mais profundamente com as questões que estão sendo discutidas.

O que eu gostaria de ver mais no jornalismo --não apenas no Canadá, mas em todo o mundo-- é os jornalistas fazerem mais perguntas críticas. Posso dar um exemplo: estou nesta conferência esta semana (Women Deliver) e tivemos conferências de imprensa com vários ministros. Tivemos uma entrevista coletiva com o primeiro-ministro do Canadá, e não vi de outros jornalistas e outras mídias perguntas que desafiam o governo:  questões que desafiam suas posições.

Eu acho que o que é realmente legal e empolgante em 2019 e daqui para frente, é que há muitos jornalistas de várias partes do mundo que estão assumindo essas questões por si mesmos, portanto não há obrigatoriamente a necessidade desse tipo de perspectiva de fora. Acho que, com uma maior mudança na paisagem da mídia em termos de diversidade, espero que algumas das questões que abordamos também sejam reflexivas da diversidade que está presente em todo o mundo, especialmente quando abordamos assuntos estrangeiros. Isso está mudando, então estou muito empolgada com isso. Estou animada para ver mais pessoas de minorias e mais mulheres em particular, cobrindo questões para meios de comunicação estrangeiros e como correspondentes estrangeiros.

Que conselho você daria a jovens jornalistas emergentes?

Eu acho que o conselho que eu daria é apenas começar a fazer jornalismo, é tão simples assim.

No ano passado, em particular, desde que voltei para o Canadá, tenho procurado oportunidades em jornalismo e decidi começar a trabalhar como freelancer e cobrir notícias que eu nunca teria pensado que poderia escrever antes. Eu acho [importante] estar confiante em suas habilidades.

Eu também diria que, se você é apaixonado por um determinado tópico, realmente se aperfeiçoar nisso é fundamental. Se você é realmente apaixonado por questões de direitos das mulheres, ou questões de guerra e se manifestar contra isso, por exemplo, é realmente importante dar um jeito de melhorar o trabalho que você faz.


A imagem principal mostra Jamal em seu bairro em Quito, no Equador. Todas as imagens são cortesia de Jamal.

A cada mês, a IJNet apresenta um jornalista internacional que exemplifica a profissão e usou o site para promover sua carreira. Se você gostaria de ser apresentado, clique aqui.