Jornalista do mês: Stefania D'Ignoti

porJuliana Ferre
Jul 29, 2019 em Jornalista do mês
Stefania D'Ignoti

Para Stefania D'ignoti, uma jornalista freelance da Itália, é muito importante inspirar o público a ter empatia pelas pessoas em suas matérias. Ela busca descobrir histórias de interesse humano escondidas por trás de reportagens tradicionais de conflito.

D'ignoti divide seu tempo entre a Sicília e o Oriente Médio e trabalha como jornalista freelance há alguns anos. Ela fala seis idiomas, mas ainda acha difícil achar seu lugar na indústria.

"É mais difícil para jornalistas como eu, cuja primeira língua não é o inglês, penetrar no mercado de jornalismo de língua inglesa", disse ela. "Muitas vezes eu me senti presa nesta área cinzenta onde eu não sou 'ocidental' o suficiente para obter trabalhos de jornais americanos ou britânicos, nem local o suficiente para ser uma assistente de notícias de língua nativa no Oriente Médio."

No entanto, ela forjou seu lugar como freelancer, e seu trabalho foi publicado em meios como PRI, Al Jazeera English, Middle East Eye, BBC e outros.

O trabalho de D'Ignoti é focado em migrações, conflitos e histórias de refugiados no Mediterrâneo, com foco em mulheres e crianças. Ela foi recentemente premiada com o Migration Media Award, financiado pela União Europeia, e atualmente está trabalhando em uma história sobre a migração na Sicília.

D'Ignoti formou-se pela Sciences Po Paris em estudos do Oriente Médio e fez pós-graduação na Faculdade de Jornalismo da Universidade Columbia. Ela originalmente queria se tornar uma correspondente de guerra focada nas forças armadas. No entanto, "percebi que o que realmente precisamos é de uma narrativa e cobertura mais equilibrada dessas comunidades", explicou ela. "Precisamos mostrar esse outro 'rosto' que a guerra deixa para trás, que é principalmente de mulheres e crianças."

Uma leitora da IJNet de longa data, D'Ignoti encontrou uma bolsa do Jerusalem Press Club através do site, e foi selecionada em 2018.

“Ajudou a impulsionar minha carreira de reportagem no Oriente Médio, com foco em minorias religiosas e conflitos”, disse ela. “Foi uma oportunidade única para aprender mais sobre o conflito israelita-árabe e adquirir mais experiência prática em zonas de guerra.”

A IJNet conversou com D'Ignoti sobre seu trabalho, sua experiência em reportagem no Oriente Médio e seus conselhos para outros jornalistas.

Stefania D'Ignoti
D'Ignoti em uma pequena conferência de imprensa sobre a fronteira entre Israel e Gaza em julho de 2018.

IJNet: Você se concentra nas vítimas de conflitos, especificamente mulheres e crianças. Qual foi a história mais memorável sobre esse assunto?

D'Ignoti: Há uma história em que trabalhei enquanto estava em Gaziantep, que é uma cidade na fronteira com a Síria, na Turquia. É sobre uma mulher que propôs a sua própria solução para o acolhimento de crianças refugiadas na Turquia, porque os jardins de infância [são menos acessíveis] para os sírios do que para os cidadãos turcos. Ela queria ajudar outras mulheres sírias refugiadas, então ela criou seu próprio jardim de infância, tornando-se tanto a provedora de sua casa como a ajudadora de outras mulheres sírias.

O objetivo desta história foi mostrar como as mulheres refugiadas sírias não são apenas vítimas (que é o que a mídia internacional tende a retratar), mas resilientes. Elas sabem como resolver seus próprios problemas sem esperar pela ajuda da comunidade internacional e, ao mesmo tempo, conseguem criar espaços seguros para si e para refugiados em sua própria comunidade. Isso foi muito inspirador de se reportar, e é nisso que eu tento me concentrar, escrevendo sobre histórias esperançosas que podem inspirar outras pessoas a fazerem coisas melhores.

Reportar sobre diferentes culturas pode ser uma tarefa desafiadora. Como o seu conhecimento de idiomas ajudou você a se associar melhor a uma cultura específica?

Eu vi muitos jornalistas em campo que simplesmente ficavam uma semana em um país estrangeiro, mas não se integravam à cultura. Se você se especializar em um país específico e em uma região específica, você [deve] aprender o idioma e a cultura local. Isso ajuda você a ter empatia pelas fontes que você está entrevistando, suas histórias e seu histórico.

Quando entrevistei algumas mulheres refugiadas que falavam muito pouco inglês, foi bom usar o meu árabe. Elas realmente apreciaram o fato de que eu fiz um esforço para falar com elas em sua língua nativa. Isso mostrou a elas que eu tinha interesse em sua cultura e, por essa razão, elas se abririam muito mais comigo. Se você fala a língua e conhece a cultura, às vezes as fontes lhe dirão coisas que não diriam a outros jornalistas que não estão familiarizados com a história delas.

Stefania D'Ignoti
D'Ignoti sendo entrevistada na TV nacional pelo seu trabalho sobre a migração no Mediterrâneo e no Oriente Médio, depois de receber o Prêmio Maria Grazia Cutuli.

O que você faz diferente quando cobre conflitos para evitar cometer os mesmos erros que a mídia convencional?

Eu trabalho como jornalista freelance, então eu não tenho tarefas de antemão. Eu tento encontrar personagens interessantes e escolho seus micro exemplos e sua história para contar uma imagem maior. Por exemplo, a história que estou escrevendo para o Migration Media Award é a história de três mulheres migrantes que abrem um clube de contação de histórias. Com sua história de nível micro, estou contando uma história maior sobre o acolhimento de migrantes na Sicília.

Se você der uma face humana a uma história específica, então os leitores podem ter mais empatia e entender mais o impacto que a guerra e o conflito têm nas pessoas e no nível micro.

Que conselho você daria aos aspirantes a jornalistas?

A maioria dos jovens repórteres fica aterrorizada com a ideia de fazer freelance em período integral. Mas dá a você a chance de trabalhar nas histórias que são importantes para você e que acha que devem importar para seus leitores. Encorajo os jovens jornalistas a encontrarem a sua própria maneira pessoal e criativa de trabalhar e a não desistir da história que consideram relevante.

Apesar dos tempos difíceis na indústria de jornalismo, há uma necessidade crescente de grandes escritores. Em tempos de crise, a necessidade de uma boa narrativa e o poder de cura das palavras estão se tornando um trunfo para os repórteres aspirantes. Trabalhar em suas habilidades de escrita, e [aprender] como transmitir empatia e humanidade através de palavras é o que ajuda você a se destacar da multidão. Este não é apenas um conselho que dou aos jornalistas de meios impressos, mas também aos produtores de áudio e vídeo.


Imagens cortesia de Stefania D'Ignoti