Jornalista do mês: Ruona Meyer

por Katya Podkovyroff Lewis
Jun 2, 2020 em Jornalista do mês
Ruona Meyer

Ruona Meyer cresceu na Nigéria, em uma família em que o jornalismo ocupava uma parte central. Seu pai, Godwin Agbroko, era um jornalista que abordava questões políticas na Nigéria desde os anos 80 até ser assassinado em 2006 por agressores desconhecidos. Ele foi preso várias vezes por sua franqueza e foi homenageado em 1997 com o Prêmio Pen/Barbara Goldman Freedom to Write.

“Lembro de dizer a meu pai que queria ser jornalista como ele e ele me disse: 'Olha, você quer ficar preso o tempo todo? Você quer ser pobre?' Meu pai tentou me proteger", disse Meyer.

A pedido de seus pais, ela estudou microbiologia na faculdade. Quando ela desistiu da área para ser jornalista, eles a forçaram a voltar a estudar para concluir o curso. Mas ela nunca se tornou médica como eles esperavam.

Quando Meyer terminou a faculdade de microbiologia, ela disse que seu pai estava se desculpando.

“Ele já estava dizendo: 'Eu realmente não posso te ver assim, e sinto muito. Eu gostaria de ter apoiado você desde o início', porque estava claro que eu ia me atrasar nessa profissão", disse ela.

Aos 27 anos, ela voltou à faculdade para se formar em jornalismo e estudos de mídia pela Universidade Wits, na África do Sul, seguindo de um mestrado em jornalismo pela Universidade de Westminster, no Reino Unido.

Hoje, Meyer é estudante de doutorado da Faculdade de Computação, Engenharia e Tecnologia da Universidade De Montfort, no Reino Unido. Sua pesquisa examina a construção do contra-poder nas redes de jornalismo investigativo transfronteiriço.

Ela estava determinada a tirar o melhor proveito da situação, usando sua formação científica para impulsioná-la ainda mais a uma carreira no jornalismo. Meyer trabalhou com a BBC, o Financial Times de Londres, Reuters, BattaboxTVPremium Times e outros.

Ela também foi nomeada Jornalista Investigativa do Ano em 2013, na Nigéria, por seu trabalho sobre como a Nigéria desperdiça milhões em geradores. E em abril de 2018, o documentário de uma hora de Meyer "Sweet Sweet Codeine" (sobre o abuso de xarope para a tosse) levou à primeira indicação do Emmy para o Serviço Mundial da BBC — e para a Nigéria. 

 

 

Conversamos com Meyer sobre como ela incorporou sua formação científica em suas reportagens, seus esforços em se manter atualizada com a tecnologia de jornalismo e seus conselhos para jornalistas emergentes.

IJNet: Você teve um início não convencional no jornalismo. Como usou sua experiência única em ciência para ajudar suas reportagens?

Meyer: Eu abordo tudo como faço com a ciência: mantenho registros, mantenho anotações. Anoto as coisas como se eu estivesse em um laboratório, e credito isso à minha formação científica. Também as matérias científicas não são tão difíceis de entender porque eu me formei em microbiologia. Eu posso explicar a ciência rapidamente, ou saber imediatamente quando uma fonte está tentando me enganar com a ciência.

Em 2018, lancei uma investigação -- eu estava trabalhando para a BBC na Nigéria na época -- sobre o abuso de xarope para tosse. Sou muito curiosa. Eu tenho um irmão que teve um problema com o vício de xarope para a tosse. De onde ele tira o xarope para a tosse? Foi aí que minha experiência em ciência se juntou porque eu consegui entender saber quais perguntas fazer e depois descrever com gráficos para facilitar o entendimento das pessoas.

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Qual foi o maior desafio da sua carreira?

Meu maior desafio foi tentar me manter atualizada. Durante muito tempo, o jornalismo funcionava de uma maneira e, de repente, no final dos anos 2000, tudo começou a mudar e continua a mudar rapidamente. Agora você tem que lidar com notícias falsas, desinformação, e precisa se certificar de que é educado. Você não pode educar seu público se não for educado.

No entanto, eu realmente não gostaria que fosse de nenhuma outra maneira. Durante muito tempo, o jornalismo era uma linha simples, mas agora você vê diferentes tipos de jornalismo. É um momento emocionante. Se houver algo que a COVID fez, foi nos empurrar para continuar a nos unir, colaborar e olhar para a prática jornalística.

Qual o papel a academia tem em sua carreira jornalística?

As pessoas não devem ser tão rígidas com o jornalismo. Houve comentários de meus colegas que pensam que, porque estou recebendo meu Ph.D., não estou fazendo reportagens. Mas isso está absolutamente errado. Na verdade, estou tentando trabalhar em um novo documentário agora. Como pesquisadora, também estou escrevendo ativamente, como uma história que fiz recentemente sobre os centros de testes drive-through.

Também estou trabalhando em um podcast, que lançarei por volta de agosto. Eu só quero que as pessoas saibam que o jornalismo é realmente uma licença para desenvolver diferentes aspectos de suas experiências. Eu acho que sou um exemplo disso, porque neste novo híbrido de jornalismo, onde você pode ser acadêmico e também repórter, as pessoas não devem ter medo disso.

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Como você usou a IJNet?

Eu nem me lembro quando comecei a usar a IJNet -- sempre foi um elemento básico. O que sei é que a IJNet me ajudou no meu papel de ajudar os outros.

A bolsa da Reuters que recebi em 2009 para o meu primeiro treinamento formal em jornalismo foi enviada por um editor que recebeu um e-mail. Eu tive que pagar para usar a internet em um cybercafé, preencher formulários e quase perdi a bolsa que mudou minha carreira porque tive que esperar alguns dias para poder acessar a internet para verificar meu e-mail. Jurei que isso nunca aconteceria com mais ninguém se eu pudesse evitar. Com a IJNet, passar oportunidades para redes com internet limitada ficou mais fácil ao longo dos anos. Compartilhei a IJNet com dois ou três que conseguiram emprego; é assim que eles obtêm bolsas e é assim que continuam a crescer.

Eu me beneficiei em termos de treinamento. Eu me beneficiei em termos de emprego. Vou ao site para ver como está a indústria, para ver quais habilidades eu preciso ou o que outros setores da profissão estão buscando.

Qual é o seu conselho para jornalistas emergentes?

Conhecimento é poder, e esse conhecimento também não acontece só na sala de aula. Sim, idealmente, é bom ter treinamentos formais. Mas se você está começando agora, não deixe que os custos e a rigidez o impeçam de estudar.

Nunca é tarde para começar a treinar. Quando entrei na universidade pela primeira vez para aprender jornalismo, não era uma jornalista ruim -- estava indo bem --, mas queria me sentar formalmente e aprender o que tanto amava. Eu queria melhorar.

Qualquer conhecimento que você obter não será perdido. Quer você o consiga através de um diploma que foi forçado pelos seus pais ou porque todo mundo aprendeu, ou foi alguma coisa que aprendeu no seu primeiro emprego: no jornalismo, nenhum conhecimento é perdido.


Imagens cortesia de Ruona Meyer