Jornalista do mês: Naseh Shaker

porTaylor Mulcahey
Dec 5, 2019 em Jornalista do mês
magem de Shaker perto do hospital rural Ketaf na província de Saada, Iêmen

Naseh Shaker se formou pela Universidade de Amran, no Iêmen, em 2015, no mesmo ano em que uma coalizão de estados do Golfo, liderada pela Arábia Saudita, iniciou uma campanha contra os rebeldes houthis que tentavam derrubar o governo iemenita.

A guerra civil, com as forças rebeldes houthis de um lado e a coalizão liderada pela saudita do outro, continua hoje e definiu a jovem carreira de Shaker como repórter.

Shaker esperava encontrar um emprego como repórter depois de estudar inglês na faculdade, mas não conseguiu encontrar uma posição. Em 2015, os canais de notícias de longa data no Iêmen estavam com dificuldades.

"O jornalismo impresso pereceu no Iêmen", disse Shaker, acrescentando que muitos meios de comunicação sofrem com a perda de fundos publicitários.

Shaker conseguiu um serviço de entrega como motoboy. Ele disse que tinha "vergonha" disso, pois ele se formou entre os melhores de sua classe. No entanto, ele continuou procurando oportunidades e logo encontrou um curso da plataforma Coursera sobre "inglês para jornalistas".

Durante o curso, Shaker descobriu a IJNet e outras plataformas que o ajudaram a aprimorar suas habilidades na redação, geração de reportagem e, principalmente, como freelancer. Foi o primeiro de muitos cursos que ele fez na plataforma, todos com o apoio de ajuda financeira.

Mais tarde, ele sugeriu o tema jornalismo freelance como um tópico para um bate-papo da #IJNetLive. "A IJNet, agradeço muito, trouxe freelancers de sucesso para liderar esse bate-papo", disse Shaker. "Esse bate-papo foi a pedra fundamental para eu iniciar no trabalho freelance e chegar a vários meios de comunicação internacionais."

Shaker começou a propor matérias para meios internacionais em inglês. Em pouco tempo, ele obteve sucesso. Nos últimos dois anos, ele publicou uma variedade de histórias para a Al Jazeera English, Middle East Eye, Al-Monitor, Voice of America e outras.

Em um país devastado pela guerra, um tema importante é recorrente em suas matérias: o custo humano do conflito. Desde um ataque mortal a um ônibus escolar de meninos e as formas como os iemenitas se preparam para um festival muçulmano, a epidemia de cólera no país e os desafios da imprensa iemenita. O trabalho de Shaker examina todos os ângulos da guerra civil em andamento.

Seu trabalho deixa claro: ser jornalista no Iêmen não é fácil. No dia a dia, Shaker precisa lidar com violência e trauma, além de desinformações sobre sua profissão. Como muitos meios de comunicação no Iêmen são tendenciosos, ele disse, os leitores podem ser céticos em relação a freelancers, que não têm um lado aparente no conflito.

“As pessoas costumam perguntar: ‘Para qual empresa você trabalha?', então eu digo: "Estou trabalhando como freelancer. Como freelancer, tenho que manter minha reportagem objetiva e transparente'', disse Shaker.

Embora ele seja formado em jornalismo, Shaker geralmente se sente despreparado para o trabalho que está fazendo — especialmente porque como freelancer, ele não tem uma equipe editorial por atrás dele.

"O Iêmen vive agora a pior crise humanitária do mundo, e os jornalistas merecem algum tipo de apoio e ajuda", disse ele. "É difícil para jornalistas locais viajar para o exterior devido a restrições e para jornalistas estrangeiros visitar o Iêmen."

Conversamos com Shaker sobre seu trabalho, os desafios que ele enfrenta e seus conselhos para jovens jornalistas — especialmente aqueles que trabalham em zonas de conflito.

 

Naseh Shaker after interview a father who lost his two sons
Shaker depois de entrevistar um pai que perdeu seus dois filhos em um ataque a um ônibus escolar de meninos.

IJNet: Você mencionou alguns casos em que não teve acesso a recursos (físicos e mentais) para se preparar para o trabalho que está realizando. Quais recursos você deseja que sejam fornecidos pelas organizações internacionais para as quais trabalha?

Shaker: Eu gostaria que essas organizações conscientizassem seus freelancers sobre segurança — algo que eu só encontrei na IJNet — e sobre outras coisas como "seguro de vida" quando se trata de cobertura em frentes militares. Quando viajei para áreas limítrofes da Arábia Saudita para o Middle East Eye (MEE) e Al Jazeera English (AJE), além do Al-Monitor, nenhuma desses meios me forneceu instruções sobre como me proteger.

O MEE e AJE puderam cobrir minhas despesas de viagem de Sanaa para Saada — cerca de 250 km —, mas o Al Monitor não. O fato é que nenhuma dessas organizações me forneceu um colete à prova de balas ou me ofereceu instruções sobre como me proteger, mesmo que minhas imagens mostraram que eu não estava usando essas coisas. Eu não consegui encontrar um jornalista para me emprestar, pois dezenas de jornalistas trabalhavam sem eles.

Como você lida com seu próprio trauma ao sobreviver e documentar uma zona de guerra? 

O trauma é realmente um obstáculo para mim e para todos os jornalistas aqui em Sanaa. Porque não há organização a quem recorrer quando alguns jornalistas são atacados ou assediados. Não tenho identificação ou licença de imprensa como jornalista.

Eu moro em Sanaa há quase quatro anos e testemunhei várias atrocidades. Posso dizer que não houve um único mês em que não tenha sofrido assédio e trauma durante uma reportagem.

O trauma e o assédio que tenho enfrentado — enquanto trabalhava com agências locais, e mais no ano desde que comecei a trabalhar com grandes agências de notícias internacionais — não pode ser descrito. Enfrento traumas no local do ataque e encontro vítimas e parentes, bem como assédio por parte da polícia e das autoridades e, às vezes, cidadãos.

Shaker near a detention center hit by Saudi-led air strike in Dhamar province
Shaker diante de um centro de detenção atingido por um ataque aéreo liderado pela Arábia Saudita na província de Dhamar, ao sul de Sana'a.

Você pode explicar mais sobre o trauma e o assédio que enfrenta e como trabalhar sem credenciais da imprensa afeta o seu trabalho?

Alguns tipos de assédio decorrem da política de edição do meio para o qual você trabalha como freelancer. Isso acontece quando o meio critica as autoridades sobre as quais você está reportando em uma área sob seu controle. Esse tipo de assédio vem de cidadãos e, às vezes, de altos funcionários quando você os alcança para uma entrevista. Outros tipos de assédio vêm de autoridades encarregadas de lhe dar permissão para visitar uma área específica. Se você tentar condená-lo publicamente ou nas mídias sociais, o funcionário obstruirá seu trabalho e não facilitará suas futuras visitas de campo.

Sofri assédio ao apurar uma matéria encomendada pela Al Jazeera English em maio passado, no final do Ramadã. Ao tirar uma foto da minha fonte e de sua família no mercado de Shoob, no centro de Sana'a, um soldado da polícia próxima veio e disse que eu deveria ir à polícia. Na delegacia, minha câmera foi confiscada, porque sou freelancer trabalhando sem credencial de imprensa e apenas com a permissão das autoridades. Eu disse a eles que tirar minha câmera era contra a lei e tentei ligar para as autoridades, mas nenhum deles respondeu às minhas ligações — exceto alguém que disse que não poderia ajudar. Expliquei à polícia que minha matéria era sobre como os iemenitas se preparam para o festival Eid Al-Fitre quando ele começou a me perguntar se eu trabalho para o que ele chamou de "mídia pró-agressão", algo que eu neguei. Dei a ele todos os meus detalhes de contato e fui libertado.

Isso sempre me fez sentir inseguro ao reportar em campo como jornalista sem um credencial de imprensa. Em junho, solicitei um cartão do Ministério da Informação, mas os funcionários ainda estão demorando em emitir um para mim. Ainda trabalho sem cartão de imprensa e continuo trabalhando em circunstâncias difíceis. Continuarei trabalhando porque um jornalista deve ser determinado e nunca se render a nenhuma ameaça.

Qual é o seu conselho para outros jornalistas que estão começando, especialmente aqueles que trabalham em contextos difíceis?

Meu conselho é que você tenha paciência. Quando a Al Jazeera recusou minhas duas propostas de matéria, eu não desisti. Comecei a trabalhar para outra organização. Apenas mantenha um olho aberto e continue subindo os degraus. Não pare em um ponto. Quando uma porta se fecha, você encontra várias portas abertas. Isto é o que eu tive que fazer. Agora, minhas matérias são publicadas em seis veículos, e ainda estou procurando outro meio de notícias: por exemplo, CNN, New York Times e Washington Post. Até agora, eles não aceitaram minhas tentativas porque recorrem a fixadores e freelancers árabes em Sanaa.


Lindsey Breneman também contribuiu para a reportagem desta história.

Todas as imagens são cortesia de Naseh Shaker.