Jornalista do mês: Edgard Matsuki

porRenata Johnson
Jun 13, 2017 em Jornalista do mês
Edgard Matsuki

Com 12 anos, o brasileiro Edgard Matsuki já sonhava em ser jornalista. Mas como sua família não podia pagar por uma faculdade, Edgard, que é descendente de japoneses, foi trabalhar como operário no Japão.

Depois de três anos, Edgard havia esquecido um pouco do desejo de se tornar jornalista até que teve uma crise de ansiedade. Ele voltou ao Brasil, estudou e conseguiu entrar em uma universidade pública. “A partir daí, nunca mais saí do jornalismo e nunca mais tive crise de ansiedade”, disse ele.

Desde então, Edgard participou do Curso Abril de Jornalismo, fez frila e trabalhou na editoria de tecnologia do UOL. Em 2012, ele percebeu a crescente onda de informações falsas e decidiu criar o site Boatos.org para desmentir boatos.

“Tenho ficado muito feliz com a atenção que o tema ‘pós-verdade’ tem recebido entre os jornalistas. Estou com o radar ligado para tudo que sai sobre o assunto na IJNet para cada vez mais realizar um bom serviço no Boatos.org”, afirmou Edgard, que é leitor da IJNet desde quando era estudante de jornalismo.

Hoje, além do Boatos.org, Edgard é repórter/editor da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) e ainda cursa uma segunda graduação, em Letras-Japonês. Ele contou para a IJNet um pouco sobre sua experiência com o Boatos.org e como faz para verificar notícias às vezes até de madrugada.

IJNet: Como foi criar o Boatos.org?

Edgard Matsuki: Como eu trabalhava com pautas relacionadas ao comportamento das pessoas em redes sociais, comecei a me deparar com muitas informações falsas. Isso era 2012, quando as notícias falsas não eram encaradas de forma tão séria como hoje. Foi juntando o desejo de ter um projeto próprio e a necessidade de desmentir boatos na internet que o Boatos.org nasceu em 2013. A nossa página foi a primeira de fact-checking feita por jornalistas no Brasil. Eu já sabia que os boatos eram um problema, mas foi só com o passar do tempo que comecei a ter dimensão do estrago que uma notícia falsa pode causar.

Como tem sido a repercussão do site?

Eu não imaginava que o Boatos.org teria o alcance que tem hoje. Contando os últimos 12 meses, temos uma média de 1,5 milhão de visualizações de páginas por mês. Temos cerca de 105 mil seguidores no Facebook, 3 mil no Twitter e 13 mil pessoas que recebem atualizações via WhatsApp. Além dos números, recebemos dezenas de mensagens nos agradecendo por ter desmentido uma história. É aí que vemos que todo o boato, por mais prosaico que possa parecer, sempre atinge alguém.

Você trabalha para promover o site? 

A nossa principal estratégia envolve o conteúdo que construímos e ferramentas que gerem engajamento na página. Quando produzimos um artigo, o nosso objetivo inicial é que seja facilmente encontrado em uma busca no Google. Nosso objetivo é fazer com que os desmentidos se destaquem nos buscadores mais do que o boato. Por isso, trabalhamos muito com técnicas de SEO. A partir daí, deixamos visíveis ferramentas para que as pessoas nos sigam sem precisar sair da página. Com o tempo, temos dependido cada vez menos do conteúdo que vem de buscadores porque conseguimos criar uma comunidade.

Tem uma área de negócios/marketing?

O Boatos.org é formado, atualmente, por três pessoas. As duas colaboradoras, Hellen Bizerra e Carol Lira, trabalham na produção de conteúdo. Eu acabo cuidando de “todo o resto” (inclusive produção de conteúdo), incluindo publicidade. No momento, trabalhamos com Adsense e com algumas agências que incluem automaticamente a publicidade na página. Isso tem uma consequência boa e uma ruim: a boa é que nunca temos contato direto com a empresa que coloca um banner na nossa página e nunca sofremos qualquer cobrança com conteúdos nossos. A ruim é que parte dos ganhos gerados com a página fica com esses intermediários.

Como faz para verificar um boato?

A rede que construímos com nossos leitores nos ajuda muito. Recebemos diariamente cerca de 500 mensagens no WhatsApp e cerca de 20 histórias para desmentir.

A primeira coisa que faço é verificar a circulação do conteúdo. Cruzo os seguintes dados: quantas pessoas nos enviaram mensagem, quantas pessoas estão buscando pelo assunto no site (usando Google Analytics) e como o assunto está sendo falado em redes sociais. A partir desta triagem, escolhemos o que vai ser analisado.

Depois disso, destrinchamos o conteúdo em si. Eu leio no mínimo três vezes e faço anotações que serão usadas no desmentido. Algumas características são típicas em textos falsos: erros de ortografia, falta de fontes ou fontes que não podem ser checadas (ex: um amigo do meu primo que é policial), caráter alarmista e pedido de compartilhamento. Nesta primeira leitura, tentamos retirar os “5WH” do conteúdo e buscamos pela fonte do conteúdo no Google. Ainda é possível fazer uma busca por meio das imagens.

Caso a história não tenha se desmentido com essas técnicas e não haja indícios de que é verdadeira, ainda buscamos uma técnica chamada redução ao absurdo ou buscamos por informações complementares que derrubam a tese do boato. Caso ainda haja dúvidas, buscamos contato por personagens citados. Se, depois de tudo isso, não tivermos certeza de que a história é falsa, não fazemos a publicação em nosso site. Só desmentimos o que temos certeza ser boato.

Qual foi seu trabalho mais desafiador? E como conseguiu superar este desafio?

A histeria coletiva gerada no Brasil por causa do jogo Baleia Azul em março nos deu muito trabalho. No meio das informações sobre o jogo (que, por sinal, se popularizou graças a um fake news), muitas histórias falsas se espalharam online. Normalmente, produzimos dois a três textos por dia. Teve dia que desmenti seis virais falsos relacionados ao jogo.

Diante de tantas notícias falsas, abri uma enquete na página do Facebook do Boatos.org para saber quais eram as dúvidas sobre o jogo e produzi um texto com 15 perguntas e respostas. Isso era algo que a mídia (que na maioria dos casos abordou o tema com viés sensacionalista) deveria fazer.

Que conselho daria a colegas jornalistas?

Alguns dos boatos que mais viralizam na internet são “patrocinados” por checagens incompletas e reprodução indiscriminada de conteúdo. Compartilhar um boato e atribuir a informação a outra fonte também é trabalhar em prol da desinformação.

Esta entrevista foi resumida e editada.

Imagem por Gustavo Minas cortesia de Edgard Matsuki.