Jornalista do mês: Alvin Ntibinyane

porSam Berkhead
Nov 24, 2015 em Jornalista do mês

Este mês, nós apresentamos Alvin Ntibinyane, um repórter investigativo em Botsuana.

Ntibinyane desempenhou um papel central no projeto "Fatal Extraction" (Extração Fatal) do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, em inglês), que descobriu abusos e injustiças de mineradoras australianas em todo o continente africano.

Mineradoras australianas possuem alguns dos empreendimentos mais rentáveis ​​em toda a África. As mais de 150 empresas de mineração australianas na África possuem uma capitalização de mercado de US$133 bilhões. No entanto, essas empresas de mineração guardaram por muito tempo segredos de mortes, exploração salarial, conflitos comunitários e outros abusos -- abusos que provavelmente passariam despercebidos se não fosse pelo "Extraction Fatal" e as pessoas que trabalharam nele.

O projeto envolveu uma equipe de 30 repórteres, editores, pesquisadores e designers. Ao combinar a pesquisa de dados com centenas de entrevistas com executivos de mineração, políticos, civis, mineiros, membros da sociedade civil, reis, rainhas, líderes tribais e advogados, os repórteres do ICIJ foram capazes de descobrir os efeitos prejudiciais que a mineração australiana teve em toda a África. O resultado? Uma experiência multimídia imersiva que dá vida a essas questões.

Nós conversamos com Ntibinyane, editor do jornal Mmegi de Botsuana e cofundador do Ink Centre for Investigative Journalism, sobre como o grupo do ICIJ trabalhou para trazer uma injustiça internacional à luz:

IJNet: O que o levou ao ICIJ? Como se envolveu no projeto "Fatal Extraction"?

Alvin Ntibinyane: Bem, meu envolvimento foi por acidente. Eu fui a Washington e foi lá que eu conheci o pessoal do ICIJ e eles me convidaram para o projeto. Acho que comecei com eles em abril, e, em seguida, nós escrevemos as nossas primeiras matérias. De lá, eu me tornei mais envolvido nos projetos do ICIJ.

Qual é o seu papel no grupo?

Eu estava liderando uma equipe de cerca de três pessoas em Botsuana. Nós investigamos o envolvimento das empresas mineradoras australianas em Botsuana. Como repórter principal para o país, o meu trabalho envolveu planejamento, coleta de dados, passar um tempo nas comunidades mineiras de Botsuana, fazer um pouco de edição e também a compilação das matérias. Eu também era responsável por fazer os contatos com o ICIJ e outros repórteres da África do Sul e outras regiões. Nós trabalhamos mais como uma equipe. Havia três de nós de Botsuana, mas nós também trabalhamos com jornalistas na África do Sul. Nós ajudamos uns aos outros, olhamos para as matérias uns dos outros e tivemos ideias e maneiras de contar nossas histórias.

Antes de trabalhar no projeto, foram alguma vez pessoalmente afetados por mineração australiana na África? Será que esta história tem algum significado para você?

Botsuana é um país de mineração. Meu pai era mineiro; ele ainda é. Portanto, há muitas empresas de mineração em Botsuana. Eu acho que a mineração é um tema da atualidade. Quando recebi o convite do ICIJ, eu sabia muito bem que era algo que teria repercussão em Botsuana e África, especialmente nos países de mineração. É por isso que eu me envolvi. Eu nunca fui pessoalmente afetado, mas fui afetado indiretamente por causa de outras pessoas ao meu redor.

Houve alguma desafios que você e seu grupo enfrentaram?

Sim, nós enfrentamos muitos desafios. Primeiro de tudo é o acesso à informação -- foi muito difícil acessar informações do governo. Infelizmente, o nosso país não tem leis de acesso a informação, por isso é muito difícil obter comentários do governo. Eles só podem ajudá-lo se quiserem. Se não o fizerem, é difícil obter qualquer comentário. Por isso, tivemos algumas matérias sem qualquer comentário por parte do governo, somente da comunidade e das empresas. Esse foi o maior desafio e eu acho que vale o mesmo para todos os repórteres sobre o projeto. Apesar desses desafios, eu não diria que o ambiente é perigoso. Nós somos um país relativamente pacífico.

Como a IJNet ajudou você?

Eu usei a IJNet muitas vezes. No ano passado, me deparei com a oportunidade de participar de uma conferência de jornalismo investigativo em Winnipeg, Canadá. Eu concorri -- e eu acho que cerca de 400 jornalistas africanos se candidataram -- e fui selecionado para participar. Eu tenho concorrido a outras oportunidades, também, mas esta conferência foi uma grande experiência para a minha carreira.

Nós também criamos um centro de jornalismo investigativo em Botsuana; eu acho que é o primeiro de seu tipo. Quando conceituamos a coisa toda, a IJNet foi uma das plataformas que usamos para pesquisar todo o conceito. Nós conhecemos muitas pessoas através de seu site, por isso foi bastante útil.

Que conselho você daria a aspirantes a jornalistas investigativos?

Eu acho que a principal coisa é ser paciente e também ficar focado e sabe o que quer. É duro. Leva tempo. Você vai trabalhar em uma matéria por três meses ou ainda mais, por isso, se não tiver paciência e foco, vai acabar abandonando a coisa toda. Eu acho que com o ICIJ, eles têm me ajudado muito com isso. Eu comecei uma das minhas matérias para este projeto em abril, mas não foi publicada até julho. Além disso, preste atenção aos pequenos detalhes e evite atrair litígios.

Desde que o projeto foi publicado online, você notou algum progresso ou mudança ocorrendo como resultado?

Continuamos a receber feedback do público. Também percebemos que faltam algumas coisas e pretendemos trabalhar em mais histórias para adicionar para a reportagem inicial. Então, acho que nos próximos meses, nós estaremos adicionando mais matérias. Eu acho que o impacto na comunidade é tão grande porque o governo está entrando nessa. Eles estão começando a comentar, depois de inicialmente recusarem-se a fazê-lo, porque querem dar o seu lado da história. Foi um enorme impacto aqui em Botsuana.

Imagem cortesia de Alvin Ntibinyane