Jornal faz sucesso com ferramenta 'Dodgy Doctors' no Quênia

porCatherine Gicheru
Mar 23, 2016 em Diversos

Há cinco anos, relatos sobre gente fingindo ser médico eram comuns no Quênia. Tornou-se tão "normal" que tais histórias nunca apareciam na mídia ou se apareciam, eram resumos nos jornais e nem eram divulgados no rádio ou televisão.

Hoje, essa situação mudou dramaticamente. Não é que impostores ou Bandia daktari (Kiswahili para "falso médico") são coisas do passado. Ainda há casos em que pessoas não qualificadas tentam se passar por médicos. Em setembro passado, aconteceu uma história tão horrível que foi amplamente noticiada: um homem fingindo ser um ginecologista foi preso por drogar e abusar sexualmente de suas pacientes.

Mas hoje, é fácil para qualquer um verificar se o "médico" é verdadeiro ou charlatão. Com Dodgy Doctors, qualquer paciente, enquanto espera no consultório do médico, pode verificar se a pessoa que ele ou ela está esperando ver está registrado. Ao custo de uma única mensagem SMS, o usuário pode determinar a autenticidade do médico. Pode enviar outro SMS para confirmar ou não se um hospital ou unidade de saúde é coberto pelo Seguro Nacional de Saúde. Outro SMS irá confirmar se a unidade de saúde é licenciada.

Desde que foi desenvolvido em 2013 por técnicos do Code para Africa em parceria com The Star, o uso da ferramenta Dodgy Doctors cresceu 10 vezes de uma média de 20 pedidos por SMS diários a uma média de 215. Quando notícias aparecem sobre médicos falsos ou conduta questionável por profissões de saúde, o número de pessoas usando a ferramenta alcança números ainda maiores. Por exemplo, poucas horas depois de darem a notícia sobre o ginecologista falso, as pessoas correram para a plataforma para verificar médicos. O número de pedidos de SMS aumentou de 30 a 720 no espaço de dois dias.

"Estamos muito animados que mais e mais pessoas estão usando [Dodgy Doctors]", disse Joseph Kariuki, editor de conteúdo digital no jornal The Star. "Temos visto os números crescerem e alocamos recursos para comercializar a ferramenta em todo o país. Não é algo que só funciona para quem mora nas cidades; é algo que todos podem usar."

O jornal investiu recursos adicionais para uma campanha de conscientização pública que tem gerado interesse crescente nas páginas de saúde do The Star, onde Dodgy Doctors pode ser encontrado. A campanha "ChungaDaktariBandia" (Cuidado com os charlatões) foi divulgada no rádio, televisão, redes sociais e imprensa. Contribuiu para um aumento de 15 a 20 por cento no tráfego das páginas de saúde do jornal. A campanha também levou a um aumento no número de pessoas que utilizam a ferramenta. Em fevereiro, 7.120 usuários enviaram 6.000 pedidos por SMS.

O sucesso do Dodgy Doctors também tem contribuído para uma mudança na política do governo. Em 19 de fevereiro, o governo emitiu um comunicado orientando todas as associações responsáveis ​​pelo registro dos profissionais de saúde para estabelecer seus próprios serviços de SMS para permitir ao público identificar seus membros.

"Para melhorar a proteção dos consumidores, o Conselho de Profissionais Médicos do Quênia e o Conselho de Farmácia e Venenos vão criar um código SMS que irá permitir ao público saber se os seus prestadores de serviços de saúde estão devidamente registrados", segundo o comunicado.

A diretiva faz parte de uma iniciativa de resultados rápidos de 12 pontos que o governo lançou para melhorar a prestação de serviços de saúde em 100 dias. Aplica-se a conselhos e comitês responsáveis ​​pelo registro dos farmacêuticos, tecnólogos de laboratório e funcionários clínicos. Uma semana antes do comunicado ser emitido pela Comissão de Saúde da Assembleia Nacional e do Ministério da Saúde, o Conselho dos Médicos do Quênia tornou obrigatório para todos os médicos usarem um documento de identificação com foto ao receber os pacientes.

A falta aguda de médicos no Quênia cria uma abertura suficiente para charlatões operarem. Com apenas 11.500 médicos para servir uma população de 44 milhões, não é de se admirar que há algumas pessoas que veem isso como uma oportunidade para autoenriquecimento. Muitas instalações de saúde pública são longe de casa, congestionadas, mal equipadas e às vezes faltam medicamentos. Quenianos doentes são forçados a recorrer para a pessoa mais próxima que afirma ser experiente, às vezes com resultados fatais.

A ferramenta Dodgy Doctors pode não resolver todas as questões que envolvem a prestação de cuidados de saúde de qualidade. Mas pelo menos remove da equação o desespero e desamparo que os cidadãos sentem quando se trata de confirmar a autenticidade de seus prestadores de cuidados de saúde. E já que os médicos têm que renovar a sua inscrição a cada ano, se querem continuar a praticar legalmente, a ferramenta tornou imperativo manter o registro atualizado.

Imagem sob licença CC no Flickr via jasleen_kaur