A imprensa tem de ‘se preparar para se desligar das máquinas rotativas’, diz assessor de jornal

porvgimenez
Aug 24, 2011 em Diversos

Em tempos que debatemos sobre o futuro do jornalismo e as implicações do desenvolvimento da Internet nos meios de comunicação impressos, as empresas de jornal devem estar prontas para mudanças.

Para saber mais sobre como "preparar" os jornais, IJNet entrevistou Toni Piqué, consultor em organização e integração de dezenas de veículos da Europa e América Latina e um dos criadores do blog Paper Papers.

Esta é a primeira parte da entrevista.

IJNet: Nos últimos tempos, o debate tem girado em torno de visões mais ou menos apocalípticas sobre o futuro do jornalismo. Como você vê esse fenômeno?

Toni Piqué: É de (Antonio) Gramsci: há muitos fenômenos instáveis no meio da crise em que o velho não morreu e o novo não acabou de nascer. Agora aparecem os oportunistas que não conseguiram se juntar a profissão e se vingam.

IJNet: É o fim do jornalismo no papel?

TP: Sim, o papel morreu. Mas tem a ver com questões filosóficas. Ele morreu por uma simples questão econômica. É caro de se fazer, imprimir e distribuir. E tem muitas desvantagens em relação ao outro sistema de distribuição chamado de Internet, que dá uma enorme variedade de formatos e a possibilidade de personalizar.

O fato de que muito mais gente graças à tecnologia da Internet e seus desdobramentos pode participar do processo de reportagem, fornecendo informações ou pontos de vista não significa que o jornalismo está morto. Ao contrário. Isso significa que o jornalismo foi ampliado.

IJNet: Portanto, este debate sobre a existência do jornalismo é o resultado do processo de transição?

TP: Claro. Nós não estamos falando sobre a ciência de construção de pontes, onde alguém tem que verificar se os construtores são gente forte, seguras e com conhecimento, porque se não há consequências. Jornalismo é um direito humano que não é propriedade de um grupo profissional ou corporação. É como a saúde, é do povo. Quando você fica doente, vai ao médico. Apesar de algumas doenças sabemos cuidar. Eu tenho uma dor de cabeça, tomo uma aspirina e pronto. Mas isso não faz de mim um médico.

É muito fácil falar, por exemplo, do jornalismo cidadão, mas ninguém gostaria de ser curado por um médico cidadão, ou dirigir em estradas feitas por um engenheiro cidadão. Isso não funciona bem no jornalismo também.

IJNet: O que implica ser um assessor de um jornal nestes tempos de crise no jornalismo?

TP: Trata-se de dizer às pessoas uma coisa: devem se preparar para se desconectar da imprensa. E devem se preparar agora: que dia da semana será o primeiro a deixar de publicar a edição impressa, que dia será o segundo, o que dia será o terceiro.

Ser um assessor também significa repensar a estratégia do conteúdo. Você tem que pensar em um ambiente de empresa que é mais transmissão e menos impressão. São diferentes. A reportagem é a mesma. O que o jornalista faz na rua é o mesmo e também a parte mais importante da edição. Veja aqui, não vá ali. Isso permanece o mesmo.

Nós também temos que tirar dos editores de jornais a mentalidade tão insular de que o papel é a essência do jornalismo e o resto nem tanto. Eliminar o pensamento de que a Web é barulhenta e é imprecisa. Ou contra Twitter. Aqueles que dizem: “Em 140 caracteres o que você pode dizer?"

A abordagem tem que ser muito mais positiva. Eu tenho todas esses veículos que me permitem ser um jornalista, não algumas horas por dia, se não mais. Hoje eu posso publicar muito mais durante mais tempo.

Eu não me tornei um jornalista para fazer um jornal. Tornei-me um jornalista para informar.