Como um veículo criado por estudantes transformou o jornalismo na Nigéria

Jan 28, 2022 em Jornalismo básico
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O jornalista freelancer nigeriano Francis Salako não está cursando uma especialização universitária ligada ao jornalismo. Em vez disso, ele está começando na área como um membro do Union of Campus Journalists da Universidade de Ilorin (UCJ UNILORIN), um veículo jornalístico comandado por estudantes. Junto com outros 400 alunos, ele está aprendendo habilidades fundamentais de reportagem na prática, o que tem o ajudado a conseguir matérias assinadas em veículos para além das fronteiras da Nigéria.

Criado em 1996 por um grupo de estudantes que compartilhavam o entusiasmo pelo jornalismo, o UCJ UNILORIN é o veículo universitário mais antigo da Nigéria. Desde o começo, ele tem servido como uma voz para os estudantes, ao mesmo tempo em que contribui para estabelecer o profissionalismo no jornalismo do país. Ele oferece a alunos apaixonados com pouca ou nenhuma experiência em jornalismo uma oportunidade para desenvolver seus talentos.

Salako começou a trabalhar no UCJ UNILORIN no seu segundo ano na universidade. "O UCJ é um lugar onde você tem pessoas fazendo coisas excelentes", diz. "As oficinas, eventos e congressos são como os músculos que se acumularam para se transformar no tipo de jornalismo que faço atualmente."  

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Da cobertura de eventos no campus à prestação de contas de lideranças universitárias, o veículo permite que jornalistas universitários entendam bem o que a profissão exige e como se desenvolver na área. "O UCJ UNILORIN me deu uma comunidade de pessoas que fazem parte da minha vida e que contribuíram bastante para minhas habilidades", diz Salako.

Em março de 2021, o The Cable organizou uma oficina para os jornalistas do campus se capacitarem nos fundamentos de reportagem. Essas oficinas, como esta oferecida pelo Premium Times Centre for Investigative Journalism, ajudam os estudantes a aproveitarem seu potencial.

O repórter nigeriano Adejumo Kabir começou sua carreira como um repórter universitário. Sua paixão por direitos humanos o levou ao jornalismo universitário, inicialmente escrevendo sobre protestos no campus. "Se não fosse pelo jornalismo universitário, eu teria sido um jornalista alimentado por 'envelopes marrons'", afirma Kabir, se referindo aos subornos dados a jornalistas por políticos em coletivas de imprensa.

Infelizmente, os 'envelopes marrons' são muito comuns na Nigéria. Eles são frequentemente usados para silenciar jornalistas, desestimulando-os a cobrir pautas que não favorecem funcionários do governo. Como muitos jornalistas não ganham muito, eles podem se sentir tentados a aceitar os subornos. Para combater isso, o UCJ trabalha para incutir nos seus membros a objetividade e a ética como valores centrais.

Começando suas carreiras como repórteres universitários, muitos dos melhores jornalistas da Nigéria tiveram um entendimento nítido da profissão e das habilidades para construir uma carreira. Ao escrever para redações de todo o país ainda estudante, Adejumo ganhou as habilidades que necessitava para se desenvolver como repórter.

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O UCJ UNILORIN também realiza cursos para equipar os jornalistas com conhecimentos sobre ética jornalística e noções básicas de fotojornalismo, verificação de fatos, jornalismo investigativo e jornalismo de soluções.

O veículo tem enfrentado reveses de outros estudantes da universidade devido à sua cobertura, conta o antigo editor-chefe Ridwan Adetutu. Ele conta que uma vez foi pego em uma emboscada enquanto trabalhava em uma pauta investigativa que envolvia o então presidente do conselho do senado estudantil, que tinha sido acusado de suposta corrupção. No caminho para casa, ele foi abordado por uma pessoa que ameaçou expulsá-lo. Ele abandonou a pauta, com medo de perder sua bolsa de estudos.

O atual presidente do UCJ,  Adedeji Quayyim, disse que tem tomado medidas para diminuir os esforços de coibir o trabalho do veículo por meio de uma rede de organizações da sociedade civil e veículos de imprensa de fora do campus para proteger seus membros.

O lema do UCJ — "liberdade defendida pela caneta" — tem motivado um compromisso forte para sustentar valores fundamentais de integridade, disciplina e equidade. No lugar de permitir que a repressão com que se depararam ao longo dos anos silenciasse suas vozes, os estudantes repórteres canalizaram sua energia para melhorar a qualidade de seu trabalho. 


Foto por LinkedIn Sales Solutions no Unsplash.