Editora-executiva do site Animal Político compartilha esperança para jornalismo mexicano em 2016

porSam Berkhead
Jan 6, 2016 em Segurança do jornalista

Em 2015, a violência contra os jornalistas persistiu por todo o México, uma continuação do declínio de cinco anos na liberdade de imprensa do país.

Durante a última década, mais de 80 jornalistas mexicanos foram mortos e 17 estão desaparecidos. Em quase todos os casos, a impunidade prevalece, ou seja, a justiça é raramente alcançada para os jornalistas que perdem suas vidas no trabalho.

Além disso, a intimidação e ameaças de cartéis de drogas do país -- e até mesmo do próprio governo -- muitas vezes silenciam jornalistas que buscam cobrir o crime organizado e a corrupção.

A IJNet falou com Dulce Ramos, editora-executiva do Animal Político, sobre o estado atual da liberdade de imprensa no México e como ela espera que as coisas vão melhorar em 2016:

IJNet: Em que áreas você vê as condições melhorando para jornalistas mexicanos? Estão surgindo veículos de mídias independentes?

Dulce Ramos: O boom da mídia digital no México foi há cinco anos. Apesar disso, algumas plataformas surgiram no ano passado ou há uma ano e meio, mas não são necessariamente projetos de jornalismo, mas projetos de conteúdo. Dê uma olhada em Pictoline. É um site que explica notícias com gifs e ilustrações, mas não faz qualquer pesquisa ou reportagem.

As áreas que estão melhorando, eu acho, são as seguintes:

Atualmente, dois meios de comunicação tradicionais têm um laboratório ou unidade de jornalismo de dados. Acho que Animal Político foi um pioneiro nesse tipo de jornalismo no México, mas não temos uma unidade especial. Essa situação tem prós e contras. Um contra é que temos de lidar com a cobertura diária e projetos especiais ao mesmo tempo. Um pró é que toda a equipe, e não apenas alguns jornalistas, é encorajada a pensar sobre jornalismo de dados, storytelling digital e assim por diante. Dito isto, sim. Estou otimista sobre a ascensão dessas unidades.

A verificação de fatos também é um fator a ser otimista. Animal Político começou a primeira seção de verificação de fato em uma agência mexicana; meses depois, Milenio digital iniciou a sua própria. Nós gostaríamos muito de ver esse tipo de jornalismo ser uma tendência no México. Para 2016, estamos planejando repetir "El Sabueso En Vivo" (O Rastreador ao Vivo), que foi a verificação ao vivo do discurso à União do presidente Enrique Peña Nieto, conduzido pelo Animal Político e leitores que se ofereceram como voluntários e trouxeram seu conhecimento. Além disso, no próximo ano queremos verificar os fatos do orçamento público.

Alianças, comunidades, etc, são uma grande ajuda para jornalistas mexicanos. Grupos como Chicas Poderosas ou Datos y Mezcales, liderado pelo bolsista do ICFJ Juan Manuel Casanueva, permitem que os jornalistas construam redes em toda a América Latina, compartilhem experiências e difundam o conhecimento -- três oportunidades que são de valor inestimável atualmente para o jornalismo.

Por último, o financiamento, bolsas, dinheiro! Apesar do fato de que o México é visto como um país de rendimento médio e grande parte do financiamento é direcionado para a América Central, eu acho que os doadores têm visto que, independentemente da renda, apoiar jornalismo independente e rigoroso é uma prioridade para o fortalecimento da democracia mexicana. Com NarcoData, financiado pelo Hackslabs, Hivos, Avina e ICFJ, e Vivir con el Narco, financiado pela Fundação Open Society, acho que nós temos um par de exemplos de primeira classe de jornalismo de vanguarda. Acho que os jornalistas mexicanos podem aspirar a mais e maiores subsídios para o futuro.

Os legisladores estão fazendo alguma coisa para proteger a imprensa?

Eu realmente acredito que há legisladores que estão bastante preocupados com a situação da liberdade de expressão mexicana, mas o Congresso como um todo não está necessariamente agindo em conformidade. Uma nova lei sobre o direito de resposta foi passada e a Comissão Nacional de Direitos Humanos apelou para o Supremo Tribunal por considerar a lei inconstitucional. A lei estipula que, para o exercício desse direito, você tem que ter um advogado e iniciar um processo judicial. Isso beneficia as grandes corporações de mídia que têm fortes laços com o poder.

O Animal Politico faz alguma coisa para proteger seus repórteres ou para melhorar as condições de trabalho para os jornalistas em geral?

O Animal Político sempre cobre crimes ou agressões relacionadas com a liberdade de expressão. Isso é mais do que poderia ser dito sobre alguns veículos de mídia tradicionais que não consideram o assassinato de um jornalista uma história de primeira página. Temos protocolos fortes para assistir a nossos jornalistas implantados em zonas de alto risco. Atualmente, todos os nossos repórteres têm todos os direitos trabalhistas cobertos (por exemplo, segurança social). Isso é incomum em outros estabelecimentos.

O que você espera que aconteça com o jornalismo no México em 2016 e mais além?

Mais projetos de ponta, concessões para grandes investigações e plataformas e, esperamos, uma classe política que possa ser examinada e se desenvolva acostumada a ser transparente. Eu também vejo mais alianças regionais para tornar melhor o jornalismo em toda a América Latina.

Esta entrevista foi editada e condensada.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Daniel Gasienica