Dicas práticas para construir credibilidade e confiança no jornalismo

porJames Breiner
Oct 30, 2019 em Engajamento da comunidade
Lâmpada

As organizações de notícias estão perdendo credibilidade há anos, e os motivos são muitos. Com frequência, nós jornalistas somos arrogantes e dissemos: "Confie em nós, sabemos o que estamos fazendo". Hoje, porém, o jornalismo está sob ataque e precisamos explicar por que as pessoas devem confiar em nós.

Há muitas coisas que editores podem fazer para melhorar a credibilidade, disse Tina Kaiser, repórter investigativa do Die Welt na Alemanha, durante uma conversa com um grupo de jornalistas e comunicadores do Colégio da Europa.

Em sua palestra, na sede do Die Welt em Berlim, Kaiser descreveu suas políticas da publicação e mencionou como foram aplicadas em matérias específicas, por exemplo, nesta série sobre gangues árabes na Alemanha.

Veja as dicas abaixo:

(1) Correções transparentes 

Admita seus erros de forma rápida e compreensiva e seja transparente sobre como os erros foram cometidos. Se uma organização simplesmente disser "essa informação estava incorreta", o público ficará com dúvidas sobre o motivo pelo qual uma correção foi considerada necessária. Foi um erro honesto, uma violação descuidada dos padrões jornalísticos ou informações imprecisas fornecidas por uma fonte? Sem uma explicação, os leitores podem supor que uma correção foi feita devido a pressão e influência indevidas de alguma parte interessada.

(2) O bastidor de uma reportagem

Para qualquer tipo de reportagem investigativa ou empreendedora de longo prazo, a organização de notícias também deve publicar uma explicação de como as informações foram obtidas, quem eram as fontes, onde os jornalistas viajaram para entrevistar pessoas e fazer as pesquisas, como as informações foram verificadas e outras informações que demonstrem os cuidados e os padrões profissionais utilizados.

(3) O bastidor de uma entrevista

Para entrevistas extensas, especialmente de figuras controversas ou bem conhecidas, uma matéria curta deve incluir informações sobre quando, onde e como a entrevista foi conduzida. Foi pessoalmente, por telefone, uma troca de e-mail, na casa ou no escritório da pessoa, quanto tempo durou, quando ocorreu, quem mais estava presente, se a entrevista foi gravada em vídeo ou áudio e como foi editada. Os leitores ou espectadores devem conhecer o contexto das perguntas e respostas. Foi uma conversa amigável e casual ou uma entrevista tensa e conflituosa? Todos esses detalhes podem ajudar os usuários a julgar a confiabilidade das informações.

(4) Fotografe todas as fontes

Repórteres devem tirar fotos de todas as pessoas que entrevistam, mesmo que não haja planos para publicar a foto. Internamente, editores podem usar fotos para verificar independentemente se as pessoas são quem elas dizem ser e se suas informações podem ser confiáveis.

A publicação de fotos das principais fontes que concordaram em ser identificadas e fotografadas ajuda os leitores a ver os padrões profissionais usados para coletar e verificar as informações.

(5) Fotografe os principais locais e elementos da matéria

Kaiser mencionou que o Der Spiegel poderia ter evitado um enorme escândalo pedindo ao repórter que mostrasse uma foto de uma placa dizendo "Mexicans Keep Out" [Fora Mexicanos], que ele disse estar nos arredores de uma cidade de Minnesota que ele caracterizou como território de Trump.

Acontece que a placa não existia e esse repórter, Claas Relotius, havia inventado sistematicamente muitos detalhes sobre a cidade e seu povo, e ele havia feito isso em muitas outras matérias para o Der Spiegel.

(6) Publique a documentação

Para histórias investigativas e longas, publicar links para os documentos de origem, que agora é possível na internet, permite que os leitores vejam o material original.

(7) Nada de fontes anônimas

Deve haver razões excepcionais como para a proteção da segurança física de uma fonte e de sua família, por exemplo, e o editor-chefe deve explicá-las ao público.

 

Os jornalistas estão agora competindo com inúmeras fontes de informação, muitas delas imprudentemente imprecisas ou intencionalmente enganosas e falsas. Temos que ganhar a confiança do público. Como Kaiser apontou, precisamos ser muito mais transparentes sobre nossos padrões profissionais. Não podemos mais assumir que as pessoas nos consideram uma autoridade.

A transparência é uma maneira de explicar ao público os padrões de jornalismo profissional e distinguir as marcas que merecem nossa confiança daquelas que fazem negócios com notícias e informações sensacionalistas, exageradas e distorcidas.


Este artigo foi publicado originalmente no blog News Entrepreneurs de James Breiner e é reproduzido na IJNet com permissão.

James Breiner é o ex-bolsista ICFJ Knight que lançou e dirigiu o Center for Digital Journalism na Universidade de Guadalajara. Visite seus sites News Entrepreneurs e Periodismo Emprendedor en Iberoamérica.

Imagem sob licença CC no Unsplash via Jon Tyson