Dicas para jornalistas que usam dados de desenvolvimento para reportar sobre progresso

porSam Berkhead
Mar 1, 2016 em Temas especializados

Muito parecido com os jornalistas, especialistas e organizações de desenvolvimento muitas vezes defendem a necessidade de medir e avaliar o impacto do seu trabalho. Mas enquanto os jornalistas normalmente trabalham com analytics e métricas de engajamento, organizações de desenvolvimento avaliam o seu impacto na forma de trabalhos longos e densos de pesquisa e estudo.

Sabendo isso, como jornalistas podem fazer melhor reportagens sobre a avaliação do impacto de organizações de desenvolvimento? E como usar os dados para avaliar melhor o impacto de projetos de desenvolvimento e descobrir se os projetos de desenvolvimento estão realmente funcionando em seus países?

Um webinário recente do impactAFRICA, organizado pelo Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ) e Code for Africa, em parceria com o Fundo de Avaliação de Impacto Estratégico do Banco Mundial (SIEF, em inglês), ofereceu algumas soluções. Essas dicas não são apenas úteis para repórteres de desenvolvimento -- qualquer jornalista que cobre pesquisas e estudos atuais pode aproveitar as lições do webinário.

Aqui estão os pontos principais segundo a IJNet:

Identifique os pontos de problema

Antes de reportar sobre qualquer estudo, os jornalistas devem saber como identificar os pontos de problema que podem distorcer uma história e deturpar a realidade do resultado de um programa, explicou Dave Evans, economista sênior do Escritório do Economista-Chefe para a Região da África do Banco Mundial.

Estudos que não possuem uma comparação entre o impacto do programa e o que teria acontecido sem o programa provavelmente estão confiando em uma comparação antes/depois e, portanto, são menos confiáveis, disse ele. Estudos com amostras de pequenas dimensões também são problemáticos, uma vez que refletem apenas uma pequena parte do esforço de desenvolvimento.

Por exemplo, logo após a Libéria ter sido declarada livre do ebola no ano passado, a Casa Branca divulgou um comunicado de imprensa "alegando uma grande parte do crédito por isso", disse Evans. No entanto, a declaração não conseguiu explicar por que a Casa Branca acreditava que seu programa em particular foi o único a erradicar o ebola.

"Não foi de todo claro qual eram o nexo de causalidade, o seu contrafatual (o que teria acontecido sem o programa) ou por que eles acreditavam que seu programa era o que tinha levado a essa diferença", disse Evans.

Entenda correlação versus causalidade

Os jornalistas devem ser capazes de diferenciar entre correlação e causalidade ao reportar dados de avaliação de impacto.

A correlação é uma indicação simples da relação entre duas variáveis, por exemplo, afirmando que as mulheres ganham salários inferiores aos dos homens. A causalidade indica a causa para a correlação: as mulheres ganham salários mais baixos do que os homens porque são discriminadas no local de trabalho. Embora ambas correlações e causações tenham suas vantagens, Evans destacou a necessidade de ter evidência sólida antes de fazer uma reivindicação causal.

"É importante não fazer uma reivindicação causal, não dizer que 'a razão para esta correlação é uma determinada ação por um indivíduo ou um grupo de indivíduos' a menos que tenhamos provas -- que é onde entram as avaliações de impacto", disse ele.

Conte histórias individuais que refletem uma mudança global

"Muitas das melhores reportagens que li contam as histórias de pessoas que se beneficiam de programas ou não", disse Evans.

Embora possa fazer sentido para o jornalista contar a história mais excepcional de um estudo de avaliação de impacto, isso não vai refletir os resultados do estudo de forma precisa. Por exemplo, uma reportagem sobre um indivíduo que se beneficiou de um programa que teve resultados mais fracos para a maioria dos outros beneficiários da ajuda não representa adequadamente a eficácia do programa.

"Se realmente queremos destacar a história de alguém que se beneficiou, devemos contrabalançar isso com a história de alguém que reflete melhor o efeito médio do programa", disse Evans.

Entre em contato com os autores do estudo

Por último, Evans disse que os jornalistas que cobrem uma avaliação de impacto devem sempre fazer um esforço para entrar em contato com os autores do estudo. Fazer isso pode permitir que os autores esclareçam quaisquer detalhes de sua avaliação de impacto e garantir que você não deturpe os seus resultados. Evans disse que é fácil encontrar informações de contato dos autores, pois muitas vezes são incluídas em seus sites.

"Obviamente, você é um jornalista independente. Você não é obrigado a relatar exatamente o que eles dizem", disse ele. "Mas o input deles pode ser extremamente valioso e certificar que você faça a reportagem sobre a pesquisa corretamente."

Assista ao webinário completo aqui (em inglês):

Imagem sob licença CC no Flickr via USAID U.S. Agency for International Development