Dicas para combater assédio e discriminação sexual na redação

porSherry Ricchiardi
Jul 15, 2017 em Diversidade

Durante uma reunião de mulheres profissionais de mídia em Adis Abeba, capital da Etiópia, uma âncora de TV com cerca de 25 anos pediu para conversar em particular. Entre goles do café grosso local, ela explicou seu dilema.

Ela era atraente e isso funcionava a seu favor. E depois de alguns anos? As mulheres na frente da câmera tendem a ser deixadas de lado no primeiro sinal de rugas, ela disse.

"Como posso me preparar para quando não me querem mais? Existem outros trabalhos de mídia que eu posso fazer?", perguntou ela.

Ao longo dos anos, conheci mulheres jornalistas em mais de 35 países. Comemorei seus sucessos e reclamei com elas pelas desigualdades de gênero, várias formas de intimidação e barreiras culturais que ameaçam frustrar seu progresso.

Os desafios para as profissionais da mídia são conhecidos por muitas de nós em todo o mundo.

Em maio, resolvi abordar esse tema com 24 mulheres etíopes, veteranas e novatas, reunidas para uma discussão sobre o papel das mulheres na mídia. Após as observações introdutórias, elas se separaram em quatro grupos para refletir sobre a questão: quais são os maiores desafios/obstáculos que enfrentam como jornalistas em seu país?

As listas que produziram foram longas e continham muitos tópicos comuns. Entre eles:

  • "O mundo é do homem -- não há apoio familiar ou conjugal". As mulheres apresentaram falta de ajuda com cuidados infantis, compras, cozinha, lavanderia e outras tarefas domésticas. Uma repórter observou: "Eu sou a primeira a levantar, já às 5 da manhã, e a última a dormir, às vezes depois da meia-noite".
  • Assédio sexual de gerentes de notícias, colegas e fontes. Repórteres descreveram as fontes masculinas flertando   descaradamente, um sinal de desrespeito a seus olhos. Uma repórter de assuntos externos falou de ficar sem um aumento por três anos depois de recusar propostas sexuais de seu chefe. Por que ela não saiu? "Há tão poucos empregos. Para onde eu irei?" 

  • Os editores subestimam a capacidade das mulheres e atribuem a elas "matérias leves" em vez das editorias principais, como segurança nacional e política.

  • Complexo de inferioridade em relação aos chefes e colegas masculinos. Baixa autoestima e autoconfiança. Nenhum modelo para a equipe feminina.

  • Pagamento desigual e falta de promoções estavam entre as queixas.

Infelizmente, já tinha ouvido tudo isso antes. Durante uma discussão em Islamabad, uma repórter paquistanesa descreveu um encontro de redação:

"Durante meses, esse cara fez observações toda vez que eu passava. Às vezes, sobre meus peitos, quadris ou minhas roupas. Ele disse alto o suficiente para que outros ouvissem. Finalmente, eu o confrontei.

"Eu perguntei: 'Você falaria com sua mãe ou irmã do jeito que falou comigo? Você poderia tratá-las da maneira que está me tratando?' A resposta dele foi: 'Não, eu não falaria. São mulheres apropriadas. Você é jornalista'."

Depois disso, "eu fiquei tão longe dele quanto podia", disse ela.

No Sudão do Sul, as mulheres compartilharam casos de intimidação -- e em um caso de agressão -- por colegas do sexo masculino que as tratavam como objetos sexuais. Elas atribuíram isso aos costumes culturais que promovem a desigualdade de gênero.

Em Adis Abeba naquela manhã, o grupo adotou uma abordagem positiva, procurando maneiras de gerar mudanças. Emrakeb Assefa, fundadora da Associação da Mulher de Mídia Etíope (EMWA, em inglês), fez um discurso emocionante para se juntarem aos esforços de organização.

Ela acha que a EMWA poderia ser a força motriz por trás da mudança, mas a organização está parada e o site mostra pouca atividade. Há força em lutarem juntas, Assefa disse às mulheres naquele dia. Quando a reunião terminou, várias jornalistas fizeram fila para adicionar seus nomes à lista.

As mulheres discutiram a criação de sessões de orientação, a busca de oportunidades para o desenvolvimento profissional e a criação de redes para manter o diálogo vivo. Se esses objetivos vão se tornar realidade, esperamos para ver.

Aqui vão dicas sobre como lidar com o comportamento sexual abusivo contra mulheres jornalistas na Etiópia e outros países. Não há uma solução mágica. Na melhor das hipóteses, isto é apenas um começo:

  • Lembre ao ofensor que você é uma profissional e exige o mesmo respeito que os homens na redação recebem. Faça isso de uma maneira calma e resoluta que sinaliza que você está no controle de suas emoções.

  • Deixe claro que comentários sugestivos não são aceitáveis. Tente a técnica que a repórter em Islamabad usou: "Você falaria com sua irmã assim?" "Sua mãe ficaria orgulhosa se ela ouvisse seus comentários?"

  • Se as propostas sexuais dos chefes ou colegas de trabalho se tornarem problemáticas, mantenha um diário. Anote o que foi dito ou feito, incluindo data, hora e local. Se houve testemunhas, liste seus nomes. Esta documentação ajudará a enfrentar o infrator ou agir legalmente.

  • Verifique as diretrizes de assédio sexual. A sua empresa possui uma política escrita? Em caso afirmativo, copie e circule para funcionárias do sexo feminino. Alguns países e estados têm leis de assédio sexual. Vale a pena conferir. Além disso, quem apoia os direitos das mulheres em seu país? Procure advogados, especialistas e assessores jurídicos.

  • Se a sua empresa não possui um sistema para denunciar discriminação ou assédio sexual, peça aos gerentes para criar um. Ofereça-se para dirigir um comitê na redação para estudar códigos de conduta para empregadores. O Departamento de Estado dos EUA define assédio sexual e lista os direitos dos empregados sob sua política. A Comissão Australiana de Direitos Humanos também oferece um modelo de código de conduta

Tenha em mente que isso é um assunto sério. Um estudo, “Violence and harassment against women in the news media: A global picture” [Violência e assédio contra as mulheres na mídia de notícias: uma imagem global], documenta o impacto emocional do gênero que a desigualdade, a discriminação no trabalho e outras formas de intimidação podem ter sobre as mulheres. O estudo foi conduzido pelo International News Safety Institute e a International Women's Media Foundation.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Thomas Hawk