COVID-19 e educação: Qual é o futuro da escola?

porChanté Russell
Sep 8, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Maçã em cima de uma pilha de livros

Em parceria com nossa organização-matriz, o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), a IJNet está conectando jornalistas com especialistas em saúde e líderes de redação por meio de uma série de seminários online sobre a COVID-19. A série faz parte do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde do ICFJ.

Este artigo é parte de nossa cobertura online de reportagem sobre COVID-19. Para ver mais recursos, clique aqui.

A pandemia de COVID-19 teve um grande impacto no ano letivo para muitos estudantes em todo o mundo. Agora, os especialistas estão prevendo como os surtos em andamento afetarão a educação no futuro próximo e distante.

Para discutir como os países ao redor do mundo estão lidando com a educação diante da crise e as considerações importantes ao cobrir a questão, Eric Robelen, vice-diretor da Education Writers Association (EWA), conduziu uma conversa com Emiliana Vegas do Instituto Brookings; Chika Oduah, uma premiada jornalista nigeriana-americana; e Antônio Gois, repórter de educação, consultor e fundador da Associação de Jornalistas de Educação do Brasil.

Os painelistas compartilharam tendências que observaram, percepções sobre como outros países estão abordando a educação e conselhos para jornalistas.

Gois destacou a importância de contextualizar ao comparar cursos de ação de diferentes países, dizendo: “É difícil ter referências internacionais sem considerar o nível de desenvolvimento de cada país.”

 

Como a desigualdade global está exacerbando as desigualdades na educação

Os membros do painel disseram que as desigualdades entre os países, bem como entre os estudantes nesses países, influenciaram os planos nacionais de educação.

Oduah disse que o Quênia estava tentando incorporar o aprendizado digital, mas os pais não conseguiram ajudar as crianças a aproveitar a modalidade virtual ou o ensino de casa. A falta de acesso a computadores também tornou o processo inviável. “Então, eles praticamente disseram que não teria escola. E isso afeta 18 milhões de jovens em todo o Quênia ... Isso também inclui os 150.000 jovens que vivem em campos de refugiados”, disse ela.

A inacessibilidade também é um problema em muitas outras partes do mundo. “Também há muita desigualdade, mesmo entre famílias que têm conectividade, em com que frequência e regularidade os alunos estão se conectando, porque a situação nas famílias é bem diferente. Assim, algumas famílias podem ter um dispositivo por aluno, os pais podem ajudar, [mas] alguns podem ter um dispositivo que compartilham com a família e os pais podem ter que usá-lo para o trabalho”, disse Vegas.

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Métodos inovadores implantados em todo o mundo

Alguns países puderam explorar métodos inovadores de ensino virtuais e não virtuais.

“A aprendizagem virtual na Nigéria, Ruanda e Senegal têm testado muito o uso de robôs ... E os robôs ainda não foram implantados nas salas de aula, mas estão trabalhando para isso”, disse Oduah.

No Japão, ela disse, alguns alunos puderam usar robôs para comparecer virtualmente às cerimônias de formatura deste ano. “Então, acho que veremos muita atividade de robôs nos próximos meses.”

Oduah também disse que a rádio comunitária está sendo usada em toda a África. “Estão tentando empregar programas de rádio comunitária, às vezes três dias por semana, para a educação, juntando os jovens ao redor da fogueira para acompanhar o ensino.”

Vegas disse que na Dinamarca e na Finlândia, as escolas estão experimentando “pods”, um pequeno grupo de alunos e um professor, como forma de reduzir a exposição. Nesse caso, se um deles for infectado, apenas os membros desse grupo terão que ficar em casa, em vez de fechar a escola inteira. “Isso provou ser bastante eficaz durante o período em que eles reabriram na primavera do ano passado. Eles não viram aumento nos casos", disse ela.

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Dicas de reportagem sobre COVID-19 e educação

Gois disse que muitas pesquisas sobre a COVID-19 têm limitações que devemos estar cientes como repórteres e comunicar essas limitações ao nosso público ."Não podemos ficar muito confiantes apenas olhando para a pesquisa porque a pesquisa é totalmente nova.”

Oduah: “Especialmente nos países em desenvolvimento, é muito importante entrar em contato com as comunidades porque as estatísticas em nível federal podem não ser um retrato real do que está acontecendo no terreno.”

Gois: “Algo que sempre me incomodou é que é fácil ir a uma escola e ouvir as vozes dos alunos mais abastados ou menos tímidos, ou dos professores sindicalizados ou dos alunos que têm uma posição forte contra ou a favor de algo. Mas tem muitos alunos tímidos, mais invisíveis, que não gostam de falar com jornalistas, que não têm meios de chegar aos veículos de comunicação.”

E, disse Gois, a cobertura deve se centrar na educação e não nos aspectos da saúde pública da crise. “Não devemos nunca perder o foco das questões pedagógicas, [por exemplo] quais serão as estratégias dos sistemas educacionais para recuperar as perdas de aprendizagem?”, ele disse.


Chanté Russell é recém-formada pela Universidade Howard e estagiária de programas no Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês).

Imagem sob licença CC no Unsplash por Element5 Digital