Coronavírus atinge o papel: Jornais e revistas param de imprimir na América Latina

porConsuelo Ferrer
May 23, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Jornais

A última vez em que o jornal La Discusión parou de circular em Chillán, cidade no centro-sul do Chile, foi em 1939, depois que um terremoto de magnitude 8,3 matou quase 30.000 pessoas no país e destruiu a redação. Foi a primeira e única interrupção do segundo jornal mais antigo do país desde a sua fundação em 1870. Isso foi até o surgimento da COVID-19.

Em 24 de março, a primeira página do jornal dizia "o papel em pausa". "A pandemia global de coronavírus e seu forte impacto em nossa cidade nos leva a tomar uma das decisões mais difíceis de uma mídia jornalística impressa: suspender a circulação de sua edição em papel. Uma medida extraordinária para uma situação extraordinária", dizia.

Desde o início da pandemia, Chillán se tornou uma das primeiras cidades sob quarentena total. "Isso foi significativo, porque não havia circulação e a mobilidade era limitada", explica o diretor do La Discusión, Francisco Martinic. "Também tivemos o objetivo de cuidar da saúde de todos os nossos colaboradores. Agora estamos avaliando quando será retomado, mas não temos uma data certa", afirma.

O que aconteceu com o La Discusión não é uma exceção. No Chile, o jornal gratuito Publimetro parou de imprimir em meados de maio e foi anunciado o encerramento da edição em papel de duas revistas do Grupo DF: Capital, uma publicação comercial, e ED, uma sobre decoração. O Grupo Copesa considerou a possibilidade de reduzir as edições do jornal La Tercera no final de semana e terminar com a edição impressa do La Cuarta, um jornal popular de grande número de leitores. Finalmente, a empresa recuou.

"Parece que a COVID-19 acelerou o fim dos jornais impressos, mas essa é uma tendência atual", diz Pedro Aguiar, professor de jornalismo da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. "O formato do jornal impresso está em crise há duas décadas, mas aumentou nos últimos anos, mesmo antes da pandemia explodir. Vimos um número amplo de fechamentos, passagens para o 'apenas digital' e diminuição da periodicidade, especialmente do diário ao semanal", afirma.

Mesmo antes do vírus, muitas publicações históricas na América Latina haviam desaparecido. Segundo Aguiar, no Brasil, nos últimos dois anos, foi registrado o fechamento de mais de 20 jornais locais, enquanto outros 14 pararam de imprimir para operar apenas digitalmente. Com a chegada do coronavírus, a situação piorou.

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Na Bolívia, tanto o Los Tiempos de Cochabamba quanto a Página Siete de La Paz e El Deber de Santa Cruz de La Sierra tiveram suas edições em papel afetadas. "Na primeira etapa, paramos de imprimir completamente, mas voltamos com uma edição semanal reforçada e na quarta-feira publicamos a sexta", diz a editora-chefe do jornal de Santa Cruz, Mónica Salvatierra.

"A quarentena total estava praticamente em vigor e já havia restrições de movimento que tornavam a gestão de recursos humanos muito mais complicada", explica. "Foi um golpe duro, porque a publicidade impressa é a maior fonte de renda. Depois de suspendê-la por quatro semanas, estamos praticamente sem renda. Estamos agora em uma fase de promoção, esperando que em breve possamos republicar diariamente."

No Uruguai, o El Observador reduziu sua frequência do jornal para uma edição ampliada de fim de semana. "Os tempos extremos que vivemos nos chamam para antecipar essa transformação que imaginávamos para o final deste ano, de maneira mais progressiva", explicou o diretor Ricardo Peirano em um editorial.

Enquanto isso, no Brasil, o impresso do popular jornal Aqui, em Recife, foi suspenso e a editora Globo parou de imprimir seis revistas mensais. Na Colômbia, o Publimetro também parou de circular e, no México, La Crónica de Hoy parou três edições locais na Cidade do México, Guadalajara e Pachuca de Soto.

Segundo Aguiar, isso é especialmente difícil para os jornais populares e de livre circulação, que geralmente não oferecem assinatura e dependem da venda em quiosques, distribuição de ruas ou transporte público. "Em uma situação de pandemia e isolamento social, não é difícil imaginar que seja quase impossível fazê-lo. Os anunciantes sabem disso, e eles também estão sem vender, então a receita publicitária despencou", diz ele.

"Nos esportes, é ainda mais complicado, pois os eventos que compõem sua programação diária foram completamente interrompidos. É como fazer um jornal de praia na era do gelo. Um exemplo é o jornal Lance!, que tem edições para o Rio e São Paulo e suspendeu o impresso desde março", acrescenta. No México, o encerramento da edição em papel do jornal esportivo Récord foi anunciado pelo diretor da TVyNovelas, Gilberto Barrera, dizendo que "um novo ciclo começará".

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Enquanto algumas publicações, como o Récord e El Observador, aceleraram seus processos de transformação e assumiram uma mudança permanente, muitas outras asseguram que as suspensões são temporárias. "Duvido", diz Aguiar. "Acho que quase nenhum jornal que deixe de sair na pandemia voltará mais tarde."

Nas redações, o que circula é a sensação de que não "retornarão" à mesma de antes, principalmente porque houve um aumento drástico no tráfego online. No caso do La Discusión de Chillán, eles passaram de um total de 300.000 visitantes únicos por mês para mais de 750.000. "Estávamos em um processo de digitalização e isso acelerou", diz Martinic.

"As visitas aumentaram mais de 50%", disse Salvatierra, do El Deber. "Certamente vão ter que repensar o conteúdo, porque se agora tivermos praticamente todas as forças focadas na web, teremos de manter esse nível de demanda. Isso significará uma reorganização da redação para continuar fortalecendo a web sem negligenciar o outro", ele disse. "Quando voltarmos, acho que tudo será novo."


Imagem sob licença Creative Commons no Unsplash, via Daniel von Appen