Conteúdo distribuído apresenta novos desafios para editores

porJames Breiner
Aug 17, 2016 em Empreendedorismo de mídia

Entre os desenvolvimentos mais importantes no jornalismo digital em 2015 foi a prática emergente da criação, distribuição e monetização de notícias conhecido como "conteúdo distribuído".

O que significa: organizações de mídia de notícias entregam seu conteúdo para plataformas como o Facebook sem linkar de volta aos seus próprios sites para que os usuários de smartphones possam ter acesso quase instantâneo ao conteúdo sem ter que esperar 5 a 10 segundos para exibi-lo: uma eternidade para consumidores móveis impacientes.

O Snapchat foi a primeira plataforma a reivindicar este novo território, quando lançou seu canal Discover em janeiro de 2015. O Facebook seguiu em junho, com os seus artigos "instantâneos", e Google, Instagram e Apple rapidamente entraram na onda.

Estas plataformas sociais e tecnológicas tiveram pelo menos três motivações, segundo Josh Constine do TechCrunch. Queriam evitar que usuários abandonassem um link de notícia por causa de um download lento; queriam manter os usuários em seus próprios locais fechados para impedi-los de ir para outras plataformas; e, finalmente, queriam aproveitar a atenção do público para enviar anúncios adaptados às suas preferências pessoais e hábitos de compra.

A corrida para plataformas sociais móveis

O crescimento do conteúdo distribuído é um sintoma da migração de usuários da internet para dispositivos móveis. Em apenas dois anos, essa migração mudou o equilíbrio de poder entre as organizações de notícias e as plataformas que distribuem seu conteúdo.

A perda constante de audiência e receitas para o Facebook e Google começou a acelerar a um ritmo vertiginoso. O Digital News Report 2016 do Instituto Reuters pesquisou em 26 países e descobriu que 46 por cento dos entrevistados receberam suas notícias através da mídia social, em comparação com 24 por cento da imprensa.

A estreia do Discover do Snapchat e artigos instantâneos do Facebook desencadeou uma corrida por outras plataformas para desenvolver os seus próprios canais de conteúdo distribuído com objetivos semelhantes: utilizar o conteúdo de organizações de notícias para atrair mais usuários, ganhar sua lealdade e rentabilizar essa atenção.

Se você não pode vencê-los...

Organizações de notícias de mídia, já enfraquecidas pela perda de audiência e receitas, reconheceram que uma porcentagem crescente do seu tráfego estava vindo de plataformas digitais, como Facebook, Google, Snapchat, Instagram, Apple News e outros intermediários. Farhad Manjoo do New York Times descreveu a situação bem, como fez Adam Fraser do Echo Junction.

Muitos editores conseguiram aceitar a noção de que precisam fazer uma barganha faustiana: desistir de parte do controle de seu conteúdo em troca de uma maior distribuição e alguma receita a partir dessas plataformas. Se você não pode vencê-los, junte-se a eles, pareciam dizer. A tendência para o conteúdo distribuído e a influência crescente de plataformas digitais sobre a distribuição de notícias desencadeou um intenso debate entre as pessoas de dentro e fora da indústria.

Mathew Ingram da revista Fortune escreveu que está preocupado que as grandes marcas de mídia perderiam sua identidade e importância ao entregar seu conteúdo para o Facebook. Emily Bell da Universidade de Columbia talvez expressou melhor o receio sobre a perda de infuência das organizações de notícias em sociedades democráticas. Críticos advertiram que, ao adotar essas novas estratégias, a mídia de notícias estava se transformando em mera fornecedora de conteúdo para plataformas gigantes.

Monopólio de publicidade

Em um comentário sobre a migração do público para smartphones e aplicativos, Nilay Patel, editor-chefe do The Verge, descreveu como Google, Facebook e Apple tinham se posicionado para monopolizar a publicidade digital. Em sua opinião, estas três empresas, em particular, dominaram esmagadoramente a publicidade segmentada digital ao ponto que os pequenos editores independentes não têm a possibilidade de competir e alcançar sustentabilidade.

Patel apontou para os fechamentos do GigaOm e The Dissolve, bem como as dificuldades do The Awl, como prova de que a internet do futuro será dominada por essas plataformas e haverá menos espaço para publicações digitais independentes.

Como ficará o papel de 'watchdog' da mídia?

Pode ser que esta migração para o conteúdo distribuído represente o passo final na evolução da mídia de notícias de líderes do discurso público a um papel de meros fornecedores de conteúdo para plataformas gigante da internet.

Com a mídia tradicional enfraquecida, que instituições vão funcionar como um contrapeso aos interesses políticos e empresariais existentes? Que mídia vai agir como "watchdog" (defensores) do interesse público?

As grandes plataformas de internet parecem relutantes em aceitar a realidade que são agora publishers de notícias, com toda a responsabilidade do serviço público que faz parte desse papel, e que vai muito além de satisfazer apenas os interesses de seus acionistas. Como Bell nos lembra, está na hora de assumirem essa responsabilidade.

Este post originalmente no blog News Entrepreneurs de James Breiner e aparece na IJNet com permissão. 

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Silke Remmery