Conselhos para jornalistas que vão cobrir histórias de agressão sexual

porSam Berkhead
Jan 17, 2016 em Temas especializados

A cobertura de notícias de violência sexual chegou a um ponto alto nos últimos anos: da reportagem sobre os abusos sexuais dentro da Igreja Católica no Boston Globe em 2002 às acusações contra o comediante Bill Cosby. 

"Nunca na história do jornalismo houve esse tipo de reportagem sustentada, sistêmica, eticamente excelente e de alto impacto sobre falhas institucionais em torno de assaltos sexuais", disse Bruce Shapiro, diretor executivo do Centro Dart para o Jornalismo e Trauma na Faculdade de Jornalismo da Universidade Columbia, em um evento recente organizado pelo National Press Club sobre os desafios da cobertura de agressões sexuais.

O número de vítimas que se manifestam só vai continuar a crescer à medida que mais histórias são contadas, disse Jennifer Marsh, vice-presidente de serviços às vítimas da RAINN [organização dos Estados Unidos que apoia sobreviventes de estupro, incesto e abuso)A cada ano, a hotline nacional de agressão sexual da RAINN vê o aumento do número de pessoas que buscam ajuda, muitas vezes resultado de verem uma notícia de agressão sexual na mídia, disse ela.

No entanto, poucos tópicos são tão difíceis para os jornalistas como agressão sexual. Entrevistar sobreviventes vem com seu próprio conjunto de desafios e armadilhas que podem não só comprometer uma matéria, mas causar dano psicológico tremendo para o sobrevivente.

A IJNet participou do evento e reuniu estes três pontos focais de conselhos para jornalistas que embarcam nesse tema desafiador:

Virando ao avesso modelos tradicionais de reportagem 

Antes de reportar uma história como essa, é vital para os jornalistas repensarem sua ideia tradicional de reportagem, explicou Kristen Lombardirepórter investigativa na Centro para a Integridade Pública. Isso inclui abrir controle mão sobre a história, algo que pode parecer uma anátema para muitos jornalistas.

"Você não vai obter esses tipos de entrevistas apenas através de sua persistência", disse Lombardi. "A melhor maneira de se aproximar de uma vítima, eu aprendi, é através de um intermediário confiável, e, por isso, eu sempre desenvolvo fontes ao redor da vítima."

Este método de encontrar fontes por meio de intermediários de confiança é essencial quando muitos sobreviventes de assalto sexual são céticos e desconfiados da mídia.

"Estas são as pessoas [que] estão abatidas pelo sistema, incrédulas e muitas vezes silenciadas", disse ela. "Muitas pessoas me disseram que a resposta institucional foi mais traumática do que a própria agressão. O nível de desconfiança é muito alto e, como repórter, é a primeira coisa que você vai enfrentar."

Apoio, empatia e verdade 

Os médicos que ajudam as pessoas com danos emocionais graves, muitas vezes discutem a necessidade do modelo "Support, Empathy, Truth" (SET) [Apoio, Empatia, Verdade] que inclui um sistema de três níveis em que o jornalista fornece apoio, empatia e verdade para o sobrevivente, Shapiro explicou.

Apoio equivale a expressar que você apoia a vítima; que você quer contar a sua história. A empatia é a compreensão expressa do jornalista dos desafios que a vítima enfrenta para contar sua história.

É o elemento de verdade do modelo que representa o maior desafio para os jornalistas, disse Shapiro. Pode ser fácil para o jornalista passar batido pelos detalhes do que eles terão de fazer para terminar a matéria - mas esses detalhes são essenciais para comunicar a fim de estabelecer o consentimento informado.

"Eu sempre senti que é realmente melhor ser direto em explicar seus objetivos para a sua matéria ou sua série", disse Lombardi. "Prepare as vítimas para o que vem pela frente. 'Este é o meu processo de elaboração de reportagem, isto é o que vai levar, eu vou ter que falar com XYZ e pode e irá incluir o presumível agressor'. Certificar-se de que estão plenamente conscientes do que vai acontecer desde o início é muito útil."

Preparando para a reação negativa

Muitos sobreviventes de violência sexual escolhem falar com a imprensa como uma forma de autofortalecimento, disse Liz Seccuro, autora e ativista que veio a público com sua própria história em 1985. E embora contar ao público possa realmente ser uma experiência de fortalecimento, o aumento das mídias sociais torna mais fácil do que nunca para as vítimas de agressão sexual serem alvos de ataques intensos.

"O que eu não esperava era a reação", disse ela. "Independentemente de quanto apoio, empatia e verdade foram dados e as melhores práticas foram realizadas, a retórica de ódio total e absoluto que assola a vítima, independentemente de quão bem você contou a história, vai acontecer."

Por essa razão, os repórteres devem sempre antecipar reação negativa a qualquer história de violência sexual - e falar para as vítimas anteciparem o mesmo.

Na RAINN, Marsh disse que as vítimas são aconselhados a ficarem longes de mídias sociais -- e as seções de comentários em sites de notícias -- depois de compartilharem sua história com os jornalistas. Assim, qualquer jornalista que espera cobrir uma história de agressão sexual deve sempre comunicar estas coisas para os entrevistados.

"Felizmente, a seção de comentários em um monte de sites de notícias está desaparecendo rapidamente, talvez por isso os trolls vão ter que encontrar outro hobby", disse Shapiro.

Mais leitura

Ainda tem dúvidas sobre como reportar ataques sexuais? O Centro Dart reuniu uma coleção com 85 recursos, incluindo páginas com dicas, multimídia e muito mais, para ajudar os jornalistas a cobrirem esse tópico.

Foto [da esquerda à direita]: Jennifer Marsh, Liz Seccuro, Bruce Shapiro e Kristen Lombardi

Imagem principal por Sam Berkhead