Comunidades online estão se esforçando para ser mais inclusivas

por Snigdha Bansal
May 27, 2021 em Segurança do jornalista
Caderno aberto em frente de laptop com um café do lado

Em 2012, o então candidato a presidente dos Estados Unidos Mitt Romney fez uma observação sobre ter “pastas [binders, em inglês] cheias de mulheres” para considerar para seu gabinete em potencial. Além de provocar uma reação intensa, o comentário gerou uma rede de grupos no Facebook que promove conversas abertas, troca de informações e outros meios de “derrubar o patriarcado”. Isso incluiu grupos de jornalistas reunidos por interesse, tipos de escrita e oportunidades profissionais e geografia.

Desde 2014, essas comunidades restritas chamadas #Binders encontraram membros em todo o mundo. Devido à sua origem política, os grupos visam criar espaços seguros, mantendo os homens cisgêneros de fora e recebendo apenas "mulheres, jornalistas de identificação não binária e queer". O impacto que tiveram nas carreiras das jornalistas não tem tamanho.

A jornalista freelance uruguaia-americana Lola Méndez disse que esses grupos do Facebook ajudaram a lançar sua carreira depois que uma editora que ela conheceu durante uma viagem à Tailândia em 2017 os apresentou a ela. “Aprendi como propor pautas de maneira adequada, como negociar minhas taxas, o que é scope creep [aumento do âmbito do trabalho], como recusar contratos e mais... Esses grupos são uma forma de comunidade e 'conheci' virtualmente muitas das minhas amigas jornalistas mais próximas através deles.”

Ao longo dos anos, no entanto, esses grupos também foram criticados por vários motivos, incluindo alegações de racismo. Muitos acreditam que o secretismo e exigir um convite para entrar promovem discriminação e exclusividade, o que afeta de forma desigual aqueles que já estão sub-representados na indústria do jornalismo.

“Há um grande problema de racismo. Estive no meio de muitas disputas relacionadas à raça, vi alguns sub-Binders caírem e outros se dividirem sobre seu próprio racismo, e muitos novos Binders surgiram com um mandato mais claro para não se centrar na fragilidade branca”, disse a jornalista indiana Payal Dhar, que começou a usar os grupos seriamente há quatro anos.

Sarah Alexander, uma expatriada americana, proprietária de uma empresa pequena e jornalista radicada na América do Sul, disse que qualquer grupo de pessoas marginalizadas é inerentemente político. “É infalivelmente o caso de que o racismo e o classismo são permitidos [nesses grupos], mas qualquer reclamação é considerada fora do comportamento aceitável e perturbadora.”

[Leia mais: Violência online contra mulheres jornalistas é intensificada por outras formas de discriminação]

 

Recentemente, um grupo com mais de 30.000 membros implodiu a respeito da ética de aprovar ofertas de emprego para publicações como a Fox News. Quando os membros apontaram que a Fox News prejudica ativamente pessoas não brancas e LGBTQ+ por meio de sua cobertura, as administradoras desativaram os comentários em vez de reconhecê-los. As administradoras então declararam que não se identificavam com os fundamentos políticos nos quais o grupo se baseava originalmente e, portanto, decidiram deixar homens cis entrarem, antes de finalmente arquivar o grupo.

Para superar a toxicidade e negatividade após o incidente, algumas jornalistas criaram um novo grupo para compensar pela falta do espaço seguro. A jornalista e editora freelance chicana, residente em Sacramento, Liv Monahan é uma delas. “Foi um lembrete gritante de que uma pessoa na posição de poder sobre todo um coletivo nunca é o caminho a percorrer: tanto no Facebook quanto na vida. Agora temos duas administradoras junto com uma equipe de moderadoras intersetoriais, cada uma desempenhando uma função diferente, trabalhando em conjunto para garantir que o grupo seja o espaço seguro que o Binder original fingia ser.”

Alexander também dirige um grupo semelhante para jornalistas novos e futuros, com mais de 4.000 membros. Ela e a cofundadora garantem segurança e sensibilidade para com os membros marginalizados de várias maneiras, o que inclui adotar uma linha dura em relação à linguagem racista e banir as pessoas que não respeitam suas colegas.

Para tornar o grupo mais inclusivo, elas também proíbem brigas por causa de taxas baixas que os membros cobram. “Você começa com um centavo por palavra, bom para você — você começou. Como podemos ajudá-la a subir a partir daí? Você aumenta até cinco centavos por palavra e recomenda alguém que cobre um centavo”, disse Alexander. “É uma escada. Continuamos ajudando as pessoas atrás de nós. Abordamos as pessoas que são privilegiadas quando esquecem que outras podem não ter tido as mesmas oportunidades e as lembramos.”

Renee Midrack, redatora e especialista em marketing de conteúdo na Carolina do Sul, é administradora de um grupo de redatores sobre saúde mental. O assunto já delicado significa que Midrack e as co-administradoras do grupo precisam ir mais longe para garantir que seu grupo seja um espaço seguro. “Tivemos pessoas que dependiam abertamente de outros membros do grupo para obter suporte de saúde mental a um nível comprometedor. Abordamos essas questões diretamente com o indivíduo."

[Leia mais: O que fazer quando propor pautas gera esgotamento]

 

Em espaços que abrigam pessoas de uma ampla variedade de origens e interseções, as diferenças tendem a surgir. No entanto, a chave para evitar que caiam como uma bola de neve em um desastre é aceitar suas falhas.

“Este ano, comecei a ser mais crítica comigo e com o mau comportamento em nosso próprio grupo. E de repente, o ambiente de nosso grupo mudou. Tínhamos membros de cor e membros que lutavam pela sobrevivência de repente passarem de leitoras passivas a comentadoras, de todo o mundo. Finalmente se sentiram seguras para falar,” disse Alexander.

Administrar uma comunidade online vem com uma leva de conversas difíceis, mas é imperativo não evitá-las.

“Nossa equipe é composta por mulheres e membros não binários de todos os fusos horários, origens e identificações para garantir que, mesmo dentro do grupo de moderadoras e administradoras, estejamos nos mantendo responsáveis ​​em todos os momentos... Binders são para encontrar trabalho, mas também devem ser para encontrar uma comunidade e apoiá-la se você quiser que funcione com sucesso”, disse Monahan. “O mundo freelance pode ser um lugar difícil para se sobreviver, e muitas vezes somos colocados em posições de competição, em vez de nos conectarmos uns com os outros. Nossa missão com este Binder é ser humano primeiro e, depois, jornalista.”


Snigdha Bansal é um jornalista independente da Índia, atualmente baseada em Amsterdã. Ela escreve sobre cultura, identidade e saúde mental.

Foto por Nick Morrison no Unsplash