Como prevenir o trauma secundário ao trabalhar com fontes abertas

porHannah Ellis
Feb 27, 2019 em Jornalismo investigativo
Computador com vídeos

Sejam sobre vítimas de um ataque químico ou de um bombardeio, os investigadores de código aberto são obrigados a assistir e interagir com imagens brutas do campo. Como consequência do aumento do número de imagens de testemunhas oculares, pesquisadores e jornalistas entram em contato com uma grande quantidade de imagens fortes. Embora seja uma evidência potencial para fins de investigação e responsabilização, devemos estar atentos aos efeitos que imagens violentas podem ter sobre aqueles que entram em contato com elas regularmente. A consequência da exposição repetida a essas imagens é um trauma secundário ou vicário, que gera um sofrimento mental como um resultado de interagir com cenas violentas.

Este guia se destina a servir como uma ferramenta educacional para aqueles que trabalham no campo investigativo de código aberto. Inclui pesquisa de Sam Dubberley, gerente do Digital Verification Corps da Anistia Internacional e colaborador do Centro de Mídia EyeWitness, bem como a experiência da autora no Laboratório de Investigações de Código Aberto no Centro de Direitos Humanos da Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia-Berkeley. O guia se concentra em temas do trabalho investigativo relacionados ao Oriente Médio, mas pode ser adaptado a outras áreas geográficas.

Prevenindo trauma secundário

O conteúdo das investigações de código aberto no Oriente Médio é geralmente de natureza muito forte. Saber prevenir o trauma secundário é o primeiro passo para diminuir o desgaste causado pelo trauma vicário no campo dos direitos humanos.

Uma das principais características da prevenção do trauma secundário é conhecer a si mesmo e, assim, saber quais imagens afetam mais você. Para algumas pessoas, o som de crianças chorando é particularmente traumático. Para outros, são lesões físicas explícitas. Entender suas próprias sensibilidades é fundamental para prevenir o trauma, pois permite a preparação mental. Uma pessoa é particularmente vulnerável a traumas secundários quando não está preparada ou se surpreende com o que encontra. Como resultado, é imperativo que você se prepare mentalmente para o que está prestes a ver, bem como avise os colegas sobre a imagem traumática que pretende mostrar a eles.

Outro fator importante na prevenção de traumas secundários é entender seu histórico e ambiente. Ter uma conexão pessoal com o trabalho que você está investigando pode intensificar o trauma secundário. As condições que são valiosas ao realizar investigação de código aberto no Oriente Médio, como a capacidade de falar árabe ou ter conexões pessoais com a região, podem muitas vezes fazer com que o impacto da imagem seja maior. Seu ambiente também pode afetar sua suscetibilidade ao trauma secundário. Mantenha o trabalho de investigação contido em um escritório. Se você trabalha em casa, mantenha o trabalho fora do seu quarto. É importante manter um espaço seguro para voltar para casa. Manter uma rotina com limites de tempo também é necessário. Defina blocos de horários para o seu trabalho e faça um esforço para limitar o trabalho de noite. 

Prevenção no trabalho em plataformas de código aberto

Ao trabalhar com imagens no Twitter, YouTube e Facebook, existem várias ferramentas para reduzir o risco de trauma secundário.

  1. Quando você está trabalhando com um vídeo no YouTube, tire seu volume. Pesquisas mostram que sons de trauma são muitas vezes mais prejudiciais do que imagens.
  2. Enquanto o vídeo está pausado, use o cursor para passar o mouse sobre a barra de progresso para visualizar o vídeo em miniatura (isso só funciona para vídeos no YouTube e Facebook e não para o Twitter), permitindo que você veja se/quando há algum conteúdo que possa ser traumático e se preparar. Se um vídeo incluir algo particularmente explícito ou se você estiver assistindo ao vídeo várias vezes para uma verificação, considere usar um papel ou sua mão para cobrir as imagens fortes.
  3. Sempre desative a reprodução automática. Isso evita que você seja surpreendido por outro vídeo que possa ser violento. No Facebook e no Twitter, isso tem que ser feito manualmente nas configurações.
  4. Por último, se você não fala árabe, traduza o título e a descrição do vídeo em que você está trabalhando. Comece a reconhecer palavras que possam indicar conteúdo explícito. Abaixo estão algumas palavras para manter em mente.
  • criança  طفل/طفلة
  • ataque químico  الهجوم الكيميائي
  • mártir  شهيد
  • bomba  قنبلة
  • tortura  تعذيب
  • família  أسرة/عائلة
  • hospital  مستشفى
  • ferimento  الإصابة

Identificando trauma secundário

Com o tempo, mesmo estando preparado, a exposição frequente ao conteúdo gráfico pode começar a afetar o investigador mais resoluto. Aqui estão alguns sinais de alerta para ter em mente.

Fique de olho nas mudanças no seu sono, dieta e relacionamentos:

  • Você está dormindo mais do que o normal, não consegue dormir ou tem pesadelos?
  • Você começou a comer mais porcaria ou seu apetite diminuiu?
  • Você gasta mais tempo sozinho, possivelmente se isolando das pessoas próximas a você?
  • Sua relação com drogas e ou álcool mudou?

Alterar seus hábitos normais pode ser um sinal de que seu trabalho investigativo de código aberto pode estar afetando negativamente você. Depois de reconhecer esses sinais, é hora de fazer uma pausa e avaliar sua saúde mental.

Lidando com o trauma secundário

Se você começar a sentir que está sofrendo sintomas de trauma secundário, pare e reflita sobre os efeitos sobre você. Dê um passo para trás. Como investigadores de código aberto, muitas vezes queremos continuar apesar desses sentimentos, ignorando-os para seguir com o nosso trabalho. Há um sentimento de desamparo que vem de ficar ocioso no campo investigativo. No entanto, para ser um investigador produtivo no Oriente Médio, você deve abordar o trauma que está vivenciando.

Conecte-se com amigos e familiares. Muitas vezes, conectando-se com aqueles que não estão no campo investigativo oferece uma pausa bem-vinda. Abrir-se com colegas é igualmente útil, se não mais. Seus colegas sabem exatamente o que você está passando e o que você é exposto diariamente. Ter tempo para refletir e apoiar um ao outro é essencial para enfrentar e superar o trauma.

Encontrar atividades de relaxamento mental para realizar é importante também. Exercício e meditação aliviam os sintomas do trauma vicário. A introdução de exercícios pode ajudar a reduzir a ansiedade e a depressão e fornece um aspecto de sua vida sob seu controle. A meditação pode ser uma atividade útil para relaxar a mente. Existem muitos aplicativos, como o The Mindfulness AppInsight Timer e Headspace, que orientam nas rotinas de mediação. Descomprimir com TV ou vídeos leves também pode fornecer uma pausa mental necessária.

Conclusão

O Oriente Médio é rico culturalmente. No entanto, como pesquisadores, muitas vezes estamos interagindo apenas com os aspectos mais hediondos da região. No Centro de Direitos Humanos, nós dedicamos deliberamente o tempo para música, arte e poesia do Oriente Médio a cada semana para nos lembrar da beleza e da humanidade da região. Isso ajudou a ampliar a visão restrita e diminuir o desânimo que poderia se desenvolver com o tempo.

Ao realizar investigações de código aberto no Oriente Médio e Norte da África, esteja atento à sua própria saúde. Faça pausas, interaja com o conteúdo com sabedoria e mantenha sua comunidade. Diminuir o estigma e o estresse mental deste trabalho são igualmente importantes.


Este artigo foi publicado originalmente no bellingcat e é reproduzido na IJNet com permissão. 

Imagem principal sob licença CC no Unsplash via Leon Bublitz

Hannah Ellis é atualmente assistente de pesquisa no Centro Berkman Klein de Internet e Sociedade da Universidade de Harvard e ex-líder de investigação da Síria no Laboratório de Investigações de Código Aberto do Centro de Direitos Humanos da Boalt Law School.