Como o ataque ao Charlie Hebdo mudou a liberdade de expressão na França e EUA

porSam Berkhead
Jan 11, 2016 em Segurança do jornalista

Em 7 de janeiro de 2015, dois extremistas mataram 12 pessoas no escritório da revista satírica Charlie Hebdo em Paris, pela publicação de caricaturas do profeta Maomé. Nos dias seguintes, o número de mortos em Paris subiria para 17.

Apesar -- ou por causa-- do ataque terrorista do ano passado, Charlie Hebdo continuou, recentemente imprimindo um milhão de cópias da edição especial que marca o aniversário de um ano do ataque.

"Eu não acho que nada mudou desde [esse dia], exceto o vazio que estamos sofrendo", Gerard Biard, editor-gerente do Charlie Hebdo, disse à BBC. "Nós perdemos pessoas, amigos, talentos, [mas] tentamos manter o mesmo espírito. Acho que conseguimos."

No entanto, no ano que passou, o nosso conceito de liberdade de expressão e liberdade de imprensa mudou significativamente. Charlie Hebdo, uma publicação conhecido pela seu tom provocativo e polêmico, é um de muitos veículos de notícias ao redor do mundo a sofrer críticas desde o ataque. E, após os ataques terrorristas em novembro em Paris, a capacidade da imprensa de publicar livremente está ainda mais em perigo.

"Nos assassinatos [do Charlie Hebdo], o conceito de liberdade de expressão em todo o mundo foi contestado", disse Gene Policinski, diretor de operações do Newseum Institute e seu First Amendment Center [centro com foco na emenda à constituição americana sobre o direito a liberdade de expressão, imprensa e religião].

Para marcar o aniversário do ataque, um grupo de profissionais da mídia, jornalistas e especialistas da liberdade de expressão se reuniu no Newseum Institute, em Washington, para analisar as mudanças na forma como vemos a liberdade de expressão e examinar suas implicações.

A publicação de charges retratando o profeta Maomé no Charlie Hebdo foi considerada uma blasfêmia para os atiradores. Após o ataque, muitos viram os desenhos -- e o Charlie Hebdo - como islamofóbico por natureza.

No entanto, Caroline Fourest, editora do ProChoix, e ex-colaboradora do Charlie Hebdo, acredita que todo jornalista tem o direito de publicar conteúdo blasfemo. Os desenhos do Charlie Hebdo são muitas vezes vistos fora de contexto, tendo sua mensagem distorcida para ajudar a propaganda dos assassinos, disse ela.

"Charlie Hebdo é conhecido na França como um dos jornais mais anti-racistas", explicou ela. "Não é só antiprofissional para o jornalista descrever o Charlie Hebdo como islamofóbico; não só errado e falso -- é realmente perigoso. Como o Charlie Hebdo existe hoje? Eles estão vivendo como prisioneiros porque estão todos sob a proteção da polícia."

No entanto, o direito de blasfemar tornou-se menos importante na França e em todo o mundo. Um ano após Charlie Hebdo, muitos jornalistas estão mais focados na sua segurança do que em assegurar que seus direitos não sejam comprometidos.

"Nossa maior prioridade, mesmo na França, hoje, é se manter vivo", disse ela. "Antes desse ano, eu achava que apenas era perigoso para os jornalistas viverem numa teocracia . Não é só viver num Estado teocrático que é perigoso para os jornalistas; viver em uma democracia é perigoso para os jornalistas e pensadores-livres também."

Robert Corn-Revere, um advogado especialista no direito à liberdade de expressão nos Estados Unidos, disse que um fenômeno semelhante ocorreu nos EUA desde o ataque ao Charlie Hebdo.

"Você protege o direito de ofender ou protege o direito de não ser ofendido?" ele disse. "A Primeira Emenda à Constituição dos EUA é baseada na noção de que não temos liberdade a menos que haja uma liberdade para ofender."

Apesar desses direitos, a maioria das organizações de notícias dos Estados Unidos se recusou a publicar a primeira página do Charlie Hebdo, após o ataque do ano passado, disse Corn-Revere. E isso leva a uma disparidade na forma como a Primeira Emenda é percebida e como é na verdade interpretada e colocada em ação por redações.

"Quão corajosos somos quando se trata destas expressões [de livre discurso]?" ele disse. "Uma coisa é usar um botão 'Je Suis Charlie'. Outra bem diferente é o seu conselho editorial decidir não publicar qualquer uma das imagens do Charlie Hebdo."

Sabendo de tudo isso, o que pode ser feito para proteger a liberdade de expressão -- tanto na França e nos EUA?

Policinski ressaltou que os governos e as organizações de notícias da mesma forma devem equilibrar a necessidade de segurança com a necessidade de liberdade de expressão. A liberdade de expressão e liberdade de imprensa são direitos que vêm com algumas condições para manter as pessoas seguras -- mas esses direitos não devem ser comprometidos por uma questão de manter as pessoas livres de serem ofendidas.

"À medida que aprendemos as lições do Charlie Hebdo, mesmo enfrentando esses assassinatos e atos trágicos por parte de terroristas, não podemos abdicar a ideia de segurança sobre a ideia de liberdade", disse ele. "Isso tem que ser nossa defesa final. Sabemos pela história que isso é o que triunfa no final."

Assista ao debate na íntegra abaixo (em inglês):

Imagem principal e secundária por Sam Berkhead

Da esquerda para a direita: Hadas Gold, Robert Corn-Revere, Delphine Halgand, Gene Policinski e Renaud Beauchard