Como o assédio contra jornalistas afeta as notícias

porCristiana Bedei
Jun 06 em Segurança do jornalista
Mulher na janela

A repórter italiana Annalisa Camilli sabia que os jornalistas podem sofrer assédio ou abuso, mas ela não achava que isso aconteceria com ela enquanto trabalhava cobrindo imigrantes.

“Você sempre pensa em jornalistas cobrindo [crime organizado], guerras ou terrorismo, mas não um jornalista cobrindo imigração”, diz ela. No entanto, à medida que a tragédia dos migrantes do Mediterrâneo se tornou cada vez mais politizada, alimentando a propaganda anti-refugiados em todo o país, ela se tornou alvo de trolls de extrema direita, recebendo comentários misóginos e acusações ofensivas, bem como ameaças sexuais e físicas online.

No verão passado, o assédio aumentou depois, a bordo de um navio Open Arms, quando Camilli reportou sobre o resgate de uma mulher migrante, provavelmente deixada para trás pela guarda costeira da Líbia. "Os ataques não pararam nas redes sociais, mas comecei a receber telefonemas e e-mails", diz ela, lembrando as tentativas de assustá-la para ficar em silêncio. "Estavam dizendo que eu tinha inventado a história, ou que não era verdade, atacando minha credibilidade, a coisa mais importante para um jornalista."

Os telefonemas --a qualquer hora do dia e da noite-- eram particularmente angustiantes, e Camilli ainda não sabe como os assediadores conseguiram seu número de telefone. "Eu não ia mais para casa sozinha, estava constantemente olhando em volta", diz ela.

Alguém denunciou seu caso ao Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), uma organização independente sem fins lucrativos que defende jornalistas atacados em todo o mundo. Foi quando ela percebeu que sua situação era infelizmente comum, especialmente entre suas colegas mulheres.

Em 2018, um relatório da Anistia Internacional descobriu que jornalistas do sexo feminino (e representantes políticas) eram submetidas a alguma forma de abuso no Twitter a cada 30 segundos. No mesmo ano, uma pesquisa global conduzida em conjunto pela International Women’s Media Foundation e TrollBusters, descobriu que quase um terço das mulheres jornalistas consideram deixar a profissão devido a ataques e ameaças online.

Profundamente perturbada e preocupada com sua segurança pessoal, a primeira reação de Camilli foi se afastar temporariamente das mídias sociais e das matérias de imigração. Mas depois de algumas semanas, ela voltou a trabalhar no assunto e desde então publicou um livro sobre o tema.

"Minha abordagem ao trabalho não mudou, sou só muito mais consciente", diz ela. "Estou exposta a esse tipo de ataque e quando vejo uma onda de [ódio] contra mim ou meus colegas, sei que não devo minimizar."

Maria Salazar Ferro, diretora de emergências do CPJ, aponta que o assédio tem um impacto sobre os afetados, mas também é um ataque direto à liberdade de imprensa e à independência:  uma tentativa de silenciar vozes e histórias específicas.

Abaixo estão algumas das consequências negativas mais comuns e diretas, que o assédio de jornalistas, de todas as formas, tem sobre as notícias que consumimos regularmente em todo o mundo.

Histórias importantes podem nunca ser contadas

Ser um alvo de assédio pode ser desgastante, o que leva um custo psicológico terrível ao repórter, à redação e a outros colegas do mesmo tempo, diz Salazar Ferro.

“Uma consequência muito tangível é a censura: as pessoas não relatam uma certa história porque têm medo dos ataques”, explica ela. “Eu realmente falei com pessoas que disseram que não reportaram algo ou que evitaram uma história por medo das consequências.”

Os poderosos não são responsabilizados

Jornalistas são vigilantes trabalhando para promover transparência e responsabilidade. Como tais, podem ser vítimas de estratégias de silenciamento quando ameaçam interesses poderosos ou expõem governos ou figuras importantes em nome do interesse público.

É o que está acontecendo nas Filipinas, por exemplo, onde o Rappler,a organização jornalística premiada da jornalista Maria RessaRappler, foi alvo de uma série de processos judiciais por parte do regime autoritário de Duterte.

Nem todas as técnicas de silenciamento são evidentes, mas mesmo tentativas mais sutis, como ameaçar iniciar uma ação judicial (talvez contra um jornalista cidadão ou um freelancer sem uma grande organização de notícias apoiando por trás) ou interferir na vida pessoal de um repórter podem afetar o trabalho de prestação de contas por jornalistas em todos os níveis.

A pluralidade da mídia está em risco

O assédio pode contribuir para que as mulheres recuem de campos tradicionalmente dominados por homens, resultando em ainda menos vozes femininas. “Nós sabemos que mulheres jornalistas são desproporcionalmente vítimas do assédio online”, diz Salazar Ferro. “[E] é definitivamente mais comum quando mulheres jornalistas trabalham cobrindo editorias como esportes. Então, sim, eu acho que [assédio] leva a uma disparidade [maior de gênero] na redação.”

É provável que um mecanismo similar afete outras minorias que trabalham em redações, como jornalistas LGBTQ, por exemplo, e jornalistas de minorias raciais. Como o CPJ destacou, cobrir as questões LGBTQ traz um risco maior de ameaças e retaliações. E o relatório da Anistia Internacional de 2018 também descobriu que as mulheres de minorias raciais são alvos desproporcionais em ondas de assédio online, sendo 34% mais propensas a serem mencionadas em tuites abusivos ou problemáticos do que mulheres brancas -- e para mulheres negras, especificamente, a porcentagem sobe para 84%,

Essas crescentes ameaças para os jornalistas minoritários desencorajarão seu envolvimento e poderão impactar a diversidade nas redações e na mídia, o que levará a maiores desafios e limitações para toda a indústria.


Imagem principal sob licença CC no Unsplash via Arif Riyanto