Como enfrentar a falta de informação sobre a pandemia em regimes autoritários

porAndrés Colmán Gutiérrez
Apr 3, 2021 em Reportagem sobre COVID-19
Grafite de rua com Bolsonaro dizendo "E, daí?

Em parceria com a nossa organização-matriz, o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), a IJNet está conectando jornalistas com especialistas em saúde e líderes de redação por meio de uma série de seminários online sobre COVID-19. A série faz parte do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde do ICFJ.

Este artigo é parte de nossa cobertura online sobre COVID-19. Para ver mais recursos, clique aqui.


Informar sobre a vacinação contra a COVID-19 em regimes autoritários que ocultam informações ou buscam controlar o conteúdo jornalístico sob interesses políticos constitui um grande desafio para os jornalistas e, em alguns casos, significa enfrentar situações de risco.

Comunicadores de Cuba, Nicarágua, Venezuela e Brasil compartilharam suas experiências em um webinar do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde em espanhol, do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês) e da IJNet, e forneceram recomendações para enfrentar a desafios.

Jornalistas sem reconhecimento legal

Em Cuba, os meios de comunicação jornalísticos independentes não são reconhecidos pelo governo e, portanto, não existem legalmente, explicou Elaine Díaz, fundadora e diretora do Periodismo de Barrio. “Os profissionais desses meios de comunicação não são reconhecidos como trabalhadores, o que significa um risco enorme, já que são perseguidos, assediados, interrogados, detidos”, afirmou.

Um dos principais problemas é que jornalistas não reconhecidos pelo regime cubano não têm acesso a fontes oficiais, nem mesmo técnicas ou científicas, porque quase todos estão vinculados a instituições do Estado.

“O que fazemos é buscar informações e conselhos de cientistas de outros países, ou de cientistas cubanos que estão estudando ou trabalhando no exterior. Para informar sobre o processo de vacinação, vamos diretamente ao Registro Público Cubano de Ensayos Clínicos (RPCEC), um site onde podemos encontrar dados importantes sobre o que está sendo feito, sem a propaganda informativa”, disse Díaz.

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Prisão para jornalistas que vazam dados

“Na Nicarágua, o regime do presidente Daniel Ortega e sua esposa, a vice-presidente Rosario Murillo, mantiveram uma atitude negadora em relação à pandemia de COVID-19 desde o início, ocultaram informações e buscaram punir os jornalistas que denunciam a posição oficial”, disse Wilfredo Miranda Aburto, cofundador do Divergentes e correspondente do jornal espanhol El País.

“Quando as pessoas começaram a morrer, as causas da morte foram registradas como outras doenças e não como consequência da COVID-19. Os enterros foram realizados secretamente, expressamente, entre meia-noite e madrugada. Até que os sistemas de saúde entraram em colapso e não foi possível esconder o que estava acontecendo; o governo teve que admitir que havia uma crise ”, disse.

Uma investigação jornalística da qual Miranda participou permitiu filtrar dados oficiais que mostravam que o governo alterou os dados das declarações de óbito, buscando reduzir o número de pessoas mortas por COVID-19. “Em retaliação, o governo colocou guardas em hospitais para expulsar violentamente jornalistas; em suas coletivas apenas convoca jornalistas ligados ao regime; e o mais grave é que aprovaram uma lei que pune com oito anos de prisão os jornalistas que publicam vazamentos de documentos oficiais”, disse Miranda. 

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Falta de informação, a maior dificuldade

Na Venezuela, a principal dificuldade é não conseguir acessar informações oficiais confiáveis ​​sobre a evolução da pandemia do coronavírus e o processo de vacinação, disse Luisa Salomón Ochoa, jornalista do Prodavinci.

Segundo ela, o regime comandado por Nicolás Maduro esconde dados. “Não há plano de vacinação pública, não há diretrizes técnicas, a capacidade logística e da rede que existe na Venezuela é desconhecida. Não existe um documento escrito e público sobre o quanto foi aplicado, a quem ou onde", disse Salomón.

Assim como em Cuba ou Nicarágua, na Venezuela o governo apenas convoca jornalistas ligados ao modelo político para entrevistas coletivas ou divulgação de informações. “Existem informações oficiais, que geralmente atendem aos interesses do governo, mas perguntas não são permitidas”, descreveu.

Incitando seguidores a atacar jornalistas

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro dá suas coletivas de imprensa no pátio do Palácio do Planalto, com a presença de muitos seguidores, e quando não gosta das perguntas dos jornalistas, chama seus seguidores para atacá-los, disse Mauri König, repórter brasileiro especializado em jornalismo investigativo em temas relacionados ao crime organizado e direitos humanos.

“Desde o início da pandemia, o presidente Bolsonaro se opôs ao enfrentamento da COVID-19 e com sua atitude de negação fez do Brasil um perigo para o mundo. Já temos mais de 300.000 mortes por esta doença. É uma figura impressionante”, enfatizou.

Diante dos questionamentos, Bolsonaro passou a atacar a mídia crítica por meio de suas redes sociais e até mesmo a convocar seus seguidores para atacar jornalistas em coletivas de imprensa. “Isso fez com que muitos meios de comunicação não enviassem mais jornalistas para cobrir eventos oficiais e uma aliança foi formada entre os meios de comunicação para compartilhar a informação”, explicou.

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Recomendações para reportar em regimes autoritários

  • Os participantes do painel compartilharam uma série de dicas para informar sobre a pandemia, apesar dos obstáculos dos regimes autoritários.

  • Forme uma aliança entre as mídias. Quando a mídia se junta, as fraquezas diminuem. Aumentam o impacto e o alcance da cobertura.

  • Use recursos de forma criativa. Informações de interesse público podem ser limitadas por regimes, mas informações científicas estão disponíveis. Boas histórias e boas perguntas podem vir daí.

  • Incentive a colaboração jornalística entre colegas e redações independentes. Eles são pequenos, mas quando trabalham juntos têm muito mais força.

  • Cuide do rigor nas publicações, não permita que encontrem falhas. Proteja as informações com boas fontes e documentos, para evitar que sejam atacadas ou desacreditadas.

  • Conte com especialistas, principalmente nas áreas médicas e científicas. Dê solidez a suas reportagens.

  • Quando jornalistas enfrentam restrições para acessar ou publicar informações, eles devem relatá-las sem medo. A sociedade deve saber quando um governo se recusa a fornecer informações de interesse público. 

Assista ao webinar completo (em espanhol) aqui:


Imagem sob licença Creative Commons no Unsplash via Jade Scarlato