Como enfrentar a desinformação sobre COVID-19 promovida por políticos?

porMariana Cianelli
Nov 9, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
bolsonaro

Mais de 22.000 declarações falsas ou enganosas foram feitas pela mesma pessoa em um período de quatro anos. O emissor foi o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o registro foi feito pela equipe de checagem de fatos do Washington Post, que coletou essas declarações desde sua posse até agosto deste ano.

No caso da crise de saúde, apesar de os Estados Unidos serem o país com mais mortes por COVID-19, Trump reiterou que os Estados Unidos têm "os menores índices de letalidade de qualquer país" e que estão superando a situação.

Ignorando as recomendações da ciência, o presidente descartou o uso de máscaras e o distanciamento físico como medidas preventivas eficazes. De fato, em setembro, em uma entrevista coletiva na Casa Branca, Trump pediu a um jornalista que removesse sua máscara. "Tem que tirar, por favor (...) a quantos metros você está?" O jornalista recusou.

Poucos dias antes da eleição, em 22 de outubro, a equipe de checadores do Washington Post anunciou que Trump começou a fazer em média mais de 50 declarações falsas ou enganosas por dia e que mesmo em 11 de agosto ele bateu um recorde: chegou no auge, com 189 declarações falsas em um dia. De acordo com a mídia, ao final da corrida eleitoral, Trump deve ter ultrapassado 25.000 declarações falsas.

Como lidar com as mentiras de políticos em meio a uma pandemia? Qual é o impacto na sociedade? Que estratégias a mídia e os jornalistas adotaram?

O pontapé da desinformação

Como aconteceu na campanha eleitoral que trouxe Jair Bolsonaro à presidência do Brasil, a desinformação se espalhou por todo o país com a chegada da COVID-19. Diante dessa situação, jornalistas e checadores  voltaram a ficar em alerta para pensar em formas estratégicas de combater o fenômeno.

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Tai Nalon, diretora executiva e cofundadora da agência Aos Fatos, diz que embora a checagem de fatos fosse fundamental em seu trabalho diário, às vezes sentia que só podiam ver a ponta do iceberg e não toda a interconexão que existe para que o conteúdo de desinformação se torne viral. Por isso o Aos Fatos lançou o Radar Aos Fatos, uma ferramenta baseada em um algoritmo que monitora campanhas de desinformação em tempo real, através de padrões de linguagem.

“O que vimos no Radar foi que os políticos são os principais porta-vozes das informações falsas em muitas redes sociais que monitoramos e até no WhatsApp, onde não vemos a origem da desinformação. Sabemos que [a desinformação] está ligada a uma determinada agenda, o que também é uma tendência no Twitter ou no Facebook porque os políticos apoiaram.”

Embora haja um interesse político conhecido por trás da desinformação, Nalon explicou que era muito difícil prová-la em grande escala. "Agora temos uma grande quantidade de dados que podem provar sua conexão", disse ele. Por exemplo, o Aos Fatos acompanhou a campanha de desinformação a favor da hidroxicloroquina e pode constatar que Bolsonaro, por meio de suas declarações nas redes sociais, ampliou a desinformação sobre o remédio.

Eles também puderam observar como deputados e senadores espalham informações erradas sobre o distanciamento social. "Conforme eles tuítam ou postam no YouTube ou Facebook, as informações enganosas se tornam virais e se tornam muito mais difíceis de desmascarar com eficácia", explicou.

Muitos políticos usam a desinformação como estratégia. "Eles não estão interessados ​​em ganhar uma discussão dizendo que é verdade, mas o que querem é criar um estado permanente de dúvida sobre a informação verdadeira". O objetivo, diz Nalon, é criar diferenças entre as pessoas, promovendo a ideia de que existem certos grupos nos quais não se pode confiar, porque têm más intenções.

Um exemplo disso foram as repetidas declarações de Bolsonaro contra os governadores e prefeitos das grandes cidades, que ele questionou por trabalharem contra a economia, quando fechavam lojas durante a pandemia. “Na verdade, eles estavam ajudando a encontrar uma solução no contexto da pandemia. Basicamente, o que ele fez foi criar uma certa hostilidade contra eles e algumas pessoas começaram a desconfiar dessas autoridades.

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André Shalders, correspondente da BBC Brasil, explicou que as autoridades têm, em tese, grande poder de disseminar a desinformação, já que seus depoimentos atingem toda a população. Como exemplo, ele se referiu à vacina CoronaVac, que foi desenvolvida na China e está sendo testada no Brasil, e a desconfiança da sociedade em decorrência de informações falsas que se tornaram virais. “A desinformação está afetando o comportamento das pessoas. Embora não possamos mensurar, é certo que a desinformação impactou na forma como a crise do coronavírus evoluiu no Brasil”, disse.

Há alternativas 

Diante da desinformação promovida por políticos e, em muitos casos, por seus apoiadores, os jornalistas procuram checar os dados, dar voz a especialistas e verificar as declarações das lideranças, além de contrastar o que dizem as autoridades com as informações públicas disponíveis, afirma. Shalders. Em alguns casos, a mídia optou por indicar nas manchetes que o que uma autoridade diz é mentira ou não está provado -- algo que não era tão comum na imprensa brasileira antes.

“É preciso restaurar a confiança nas notícias para serem 100% eficazes” no combate à desinformação, diz Nalon. Para a CEO do Aos Fatos, um primeiro passo é reconfigurar essa confiança com os leitores da mídia, seja em pequenos grupos ou em grandes comunidades.

Em segundo lugar, no contexto de uma pandemia, o argumento de que o jornalismo precisa ouvir os dois lados não é admissível. No Brasil, disse Nalon, sob essa premissa, quem negou dados científicos básicos foi veiculado em rede nacional de televisão. “Não dá para caminhar rumo a uma sociedade mais informada se der o mesmo valor ao que diz um cientista e ao que diz alguém que não tem conhecimento sobre o assunto”, afirmou.

Esforços colaborativos

Diante da desinformação sobre a pandemia, houve esforços conjuntos no Brasil. Diversos meios de comunicação, como Folha de S. Paulo, O Estado de S.Paulo, Globo, Extra, G1 e UOL formaram um consórcio para obter informações diretamente dos estados -- e não do governo -- sobre mortes por COVID-19 e o número de casos positivos. “Não foi apenas uma coisa boa, mas também simbólica. Os maiores concorrentes trabalham juntos para obter informações confiáveis ​​e disponibilizá-las ao público de maneira uniforme”, explica Nalon.

A colaboração internacional também foi importante para o jornalismo brasileiro. O Aos Fatos, por exemplo, fez parte de uma colaboração internacional relacionada com a desinformação ligada à COVID-19, no âmbito da International Fact Checking Network. A partir da colaboração com outros meios de comunicação, puderam constatar, por exemplo, que a mesma desinformação se repetia, em momentos diferentes, em diferentes países.


Imagem sob licença Creative Commons no Unsplash, via Jade Scarlato