Coletivo de jornalistas brasileiros checa veracidade de notícias religiosas

porJeferson Batista
Jun 29, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Logo do coletivo Bereia

O Bereia, um coletivo brasileiro de fact-checking criado em 2019, afirma buscar “separar o joio e guardar o trigo” no campo da mídia religiosa. A iniciativa, formada por jornalistas, pesquisadores e estudantes de comunicação, voluntários ligados ao meio cristão, checa diariamente a veracidade de conteúdos publicados em mídias de inspiração religiosa e em perfis de redes sociais de personalidades cristãs, especialmente de políticos e influenciadores. 

“Queremos levantar a reflexão de que o fato de serem religiosos não os isentam nem da propagação, nem da aceitação de conteúdo enganoso ou desinformativo. Acreditamos na importância de falar sobre essa questão no universo cristão e criar uma consciência crítica dentro deste grupo”, disse a jornalista Magali Cunha, diretora geral do coletivo, completando que o serviço de checagem especializado nesta temática é inédito no mundo.

O nome do coletivo faz referência a cidade grega Bereia, citada no livro bíblico dos Atos dos Apóstolos, texto que narra o trabalho de evangelização dos primeiros seguidores de Cristo. Na Bíblia, os judeus nascidos em Bereia checavam as Escrituras Sagradas para verificar se as pregações do apóstolo Paulo eram corretas. 

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Os discursos de Paulo, um dos principais personagens do cristianismo, que viveu menos de 100 anos depois de Cristo, e de seus sucessores se espalharam por toda parte e ajudaram a tornar o Brasil o país mais cristão do mundo: 81% da população está ligada ao cristianismo, de acordo com pesquisa de 2019, do Instituto Datafolha. Os voluntários da iniciativa de checagem religiosa, portanto, atuam como uma espécie de bereanos contemporâneos, verificando as narrativas cristãs que hoje vão muito além dos sermões e ganham espaço nas mídias digitais, em formatos de áudio, texto e imagens. 

Presença da religião no debate público brasileiro

O Congresso Nacional brasileiro conta com, ao menos, 419 deputados e senadores ligados às frentes parlamentares evangélica ou católica. Já no Poder Executivo, são cinco ministros de Estado com forte identidade religiosa, sem contar com o Presidente da República Jair Bolsonaro que já chegou a se declarar publicamente como “terrivelmente cristão”. Considerando a presença desses atores na política nacional, o coletivo também dedica-se a checar informações e pronunciamentos de pessoas com mandatos ou ocupantes de cargos de confiança na gestão pública com filiação religiosa. 

A equipe do coletivo, composta por dez voluntários, realiza rondas diárias em sites, portais e perfis nas redes sociais de vinculação religiosa. Quando notícias suspeitas são encontradas, é realizado um processo de verificação que percorre diferentes fontes em busca de uma resposta e, em seguida, antes da publicação no site, os conteúdos são classificados como verdadeiros, imprecisos, enganosos, inconclusivos ou falsos. O projeto possui ainda um canal aberto com os leitores no WhatsApp para receber pedidos de checagem. 

As verificações são variadas. Uma delas mostra que é imprecisa a notícia de que a China demole igrejas para conter o avanço do cristianismo. Já outra prova que conteúdos ligando o ex-deputado Jean Wyllys ao atentado ao presidente do Bolsonaro são falsos.

Charge sobre notícias falsas: Verdade: penso, logo existo. Pós-verdade: acredito, logo estou certo.
Crédito da imagem: Coletivo Bereia.

COVID-19 nas mídias religiosas 

Uma checagem que mostra ser verdadeiro vídeo em que um proeminente pastor brasileiro oferece semente que cura a COVID-19 é apenas um exemplo de como a atual pandemia tem movimentado as mídias religiosas, se tornando um campo bastante explorado pelo Bereia neste momento. De acordo com Cunha, para quem a relação entre coronavírus, religião e notícias falsas é muito forte, alguns grupos cristãos e católicos são muito afeitos a conteúdos que seguem uma linha de relativização da doença, revelam curas ou apontam a eficiência de medicamentos populares. Até agora foram mais de 20 verificações com o tema COVID-19.

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Política, gênero e perseguição dominam conteúdos enganosos

Apesar de existir no Brasil portais de notícias religiosas confiáveis e que prestam importante serviço informativo para seus leitores, as notícias enganosas ou falsas circulam de modo muito fácil entre algumas redes religiosas, sendo o WhatsApp um dos aplicativos mais utilizados para compartilhar esse tipo de conteúdo. 

As rondas do Bereia identificaram três grandes temas utilizados na produção deste material. O primeiro é a política nacional e internacional, reunindo geralmente conteúdo desinformativo em apoio ao governos do Brasil, dos Estados Unidos e de Israel e contra os países classificados como socialistas. O segundo tema é a sexualidade e gênero, bloco formado por materiais falsos ou enganosos sobre a questão dos direitos humanos, direitos das mulheres e da população LGBTQI+. Por fim, o terceiro tema que mais aparece é a ideia de que os cristãos são perseguidos, com predominância de conteúdo exagerado, superdimensionado e distorcido. 

Pesquisadora do Laboratório de Antropologia da Religião, da Universidade Estadual de Campinas, Brenda Carranza é uma das dez conselheiras editoriais do Bereia, instância formada por jornalistas, teólogos e cientistas sociais.  “Acredito que pelo tipo de conteúdo, esse conselho interdisciplinar só acrescenta; um mesmo caso pode ser discutido em diferentes áreas por pessoas que trabalham com o mesmo tema, a religião”, afirma a pesquisadora. Especialista em estudos de religião e gênero, Carranza chama atenção à importância que as questões de sexualidade e gênero ganham no âmbito dos conteúdos falsos ou enganosos, que são utilizados para “destruir qualquer possibilidade para discutir o feminismo e os direitos das mulheres”.

O coletivo tem apoio da organização evangélica Paz e Esperança, que disponibilizou recursos para o lançamento do site e mantém uma editora executiva. Segundo Cunha, o objetivo é conseguir financiamento para que o Bereia possa crescer e até mesmo remunerar os checadores que hoje são voluntários.  


Jeferson Batista é um jornalista e antropólogo brasileiro. Baseado em Campinas, São Paulo, colabora como freelancer para diferentes veículos e conta histórias sobre ciência, religião, diversidade e direitos humanos. Siga-o no Twitter: @batistaje_.

Imagem principal captura de tela do logo do coletivo Bereia