Cinco dicas para qualquer tipo de reportagem por George Packer

por Steve Myers
Dec 4, 2010 em Jornalismo básico

O jornalista da revista New Yorker, George Packer, escreveu sobre eleitores insatisfeitos de Ohio e proprietários de imóveis na Flórida, a cidade gigantesca de Lagos, Nigéria, e o fechado e opressor estado de Burma. Ele descreveu a situação perigosa dos iraqueanos que trabalham como tradutores para o exército americano e as práticas veladas de senadores que fazem tudo menos deliberar sobre as questões importantes do dia.

Como que ele aprende sobre temas tão variados o suficiente para escrever para o New Yorker? Packer, que fez uma apresentação no Poynter Institute sobre o declínio dos Estados Unidos conversou comigo por telefone sobre como consegue entrar em territórios desconhecidos para cobrir assuntos complexos. Embora a maioria dos jornalistas não passem meses trabalhando em matérias de revista como ele faz, suas técnicas pode ser aplicadas em todo o tipo de reportagem.

Não vá despreparado

Embora Packer se baseie na reportagem tradicional para suas matérias, antes de ir a qualquer lugar, ele passa muito tempo lendo a fundo, de artigos de notícias a livros de história.

"Ignorância e improvisar para dar conta da matéria não são ferramentas úteis da profissão", disse ele. "Isso significa que tenho que fazer muita preparação intensiva, muitas buscas na Web e conversar com muitas pessoas mesmo antes de poder viajar."

Antes de viajar para Tampa no final de 2008 para cobrir a crise imobiliária, ele passou cerca de uma semana lendo notícias e material de fundo, buscando contatos e conversando com acadêmicos. Ele ficou entre duas e três semanas na Flórida.

"Acho que talvez a coisa mais importante é saber algo sobre a história de um lugar - o que os moradores muitas vezes não conhecem", disse Packer. "A história é o destino; todos os lugares são um produto de seu próprio passado."

Encontre um guia para lhe mostrar o local

Porque muitas vezes ele se encontra cobrindo lugares sobre os quais não é especialista, Packer disse: "Eu preciso de alguém que possa me fornecer uma introdução ao local e me explicar o ambiente."

Para sua matéria recente sobre o senado americano, Packer contou com a experiência de jornalistas especializados que conheciam os meandros da instituição, desde os funcionários até as regras obscuras.

Quando decidiu ir à Flórida para investigar as origens da crise financeira, ele escolheu Tampa em parte porque um amigo poderia passear com ele na região. Os dois varreram a área de Tampa Bay, dirigindo por suas subdivisões e conversando com pessoas aleatoriamente. O que ele aprendeu nessas entrevistas se tornou a base de seu artigo.

Ele continua a procurar a orientação quando está entrevistando pessoas. "Quando eu chego lá, fico constantemente perguntando: 'Com quem mais eu deveria falar?' Você conhece alguém nesta situação?'", disse Packer. "E as pessoas tendem a ser bastante generosas com essa informação, e a maioria das pessoas quer contar sua história."

Parta de uma pergunta guia

Packer prefere não abordar uma matéria com uma tese em mente, mas sim com uma questão que oriente a sua pesquisa.

Sua pergunta guia para a matéria do senado foi: "Qual é a cultura deste lugar?". Ele ficou inicialmente impressionado porque o moderno, fraturado senado parecia tão diferente da atmosfera colegial dos anos cinquenta representada (não de maneira totalmente precisa) no filme "Advise & Consent".

"Eu queria me sentir - na verdade, eu provavelmente exagerei isso um pouco na minha cabeça - como um estrangeiro, um antropólogo de campo visitando uma pequena cultura tribal e tentando aprender seus jeitos, sua linguagem e suas normas e regras", disse.

Para o artigo sobre as execuções de hipoteca na Flórida, disse, a questão-chave era: "Por que a crise econômica começa aqui? ... Isso tinha a sensação de ser uma grande matéria para mim, algo que parte de um lugar pequeno e se espalha pelo mundo se tornando um grande acontecimento histórico. "

Uma boa questão guia, disse Packer, leva-o por um caminho. É uma linha ou uma pista "que eu sei que vai me levar a coisas interessantes - e aí eu me jogo e vou seguindo."

Saiba fazer proveito de seu status de forasteiro

Embora seja difícil entender um lugar enquanto se está apurando uma matéria, Packer disse que ser um dos não-iniciados ajuda a "ver coisas que as pessoas envolvidas com a questão não conseguem ver."

Para sua matéria sobre o senado, um funcionário da administração do Obama o aconselhou a "cobrir Washington como se fosse uma capital estrangeira".

Ele começou passando dias na tribuna de imprensa - geralmente sozinho - observando os procedimentos. Além de um poucos funcionários e o presidente, os senadores, também discursavam sozinhos. Packer disse que parecia que eles estavam falando para si mesmos.

"Eu vi como é louco que ninguém escuta enquanto os senadores fazem discursos", Packer disse, "E embora issa seja uma norma, para mim é uma norma muito estranha. Significa que não estão debatendo, não estão deliberando."

Jornalistas que cobrem o Capitólio já sabe disso, segundo o Packer, mas o telespectador médio do C-SPAN não. "Isso me obrigava a ser um novato que nunca viu isso antes, para ficar impressionado com isso", disse ele.

Alex Blumberg me disse que sua ignorância foi uma vantagem quando ele procurou entender os negócios obscuros das hipotecárias para o premiado artigo “The Giant Pool of Money". Repórteres financeiros estavam envolvidos demais para ver o problema como um todo: "Se você soubesse mais do que eu", disse Blumberg, "poderiam ter lhe oferecido explicações esfarrapadas com mais facilidade."

Segure seus pensamentos fugazes

Packer foi a primeira pessoa a escrever no blog do New Yorker, publicando duas a três vezes por semana. Mas ele está escrevendo com menos frequência agora.

Por um lado, o blog lhe permite falar diretamente e de forma mais natural aos leitores. E isso ajuda a revista escrever, "porque me permite trabalhar com ideias quando elas vêm a mim, de uma forma que eu não posso fazer durante uma incubação de três meses para um artigo grande de revista."

No entanto, ele disse que a interação que acontece depois dessas mensagens podem desviar a atenção ao seu trabalho - especialmente quando ele ainda está trabalhando seus pensamentos. Às vezes, disse, "eu não quero ser responsável pelo que penso ainda; não sei o que realmente penso sobre o assunto e não sei para o quê ele serve."

Então, quando ele está trabalhando em um livro, como faz agora, ele usa um notebook antiquado para guardar seus pensamentos. Seja qual for o método, é essencial compilar suas ideias em um só lugar. "Nossos pensamentos não ficam com a gente, se não anotá-los", disse. "Eles começam a se desmaterializar e se dissolvem; de repente eles não estão mais lá."

Este artigo foi publicado originalmente no Poynter Online. Foi traduzido e publicado na IJNet com permissão. A Poynter Online é o site do Poynter Institute, uma academia que apoia o jornalismo e a democracia há mais de 35 anos. O Poynter oferece notícias e treinamento com orientação individual, seminários, cursos onlines, webinars e mais que se adaptam a qualquer agenda.