A abordagem na cobertura do Grupo Wagner na África

Aug 31, 2023 em Reportagem de crise
Bullet holes on a building

A morte do líder do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, em uma queda de avião entre Moscou e São Petersburgo, no último dia 23, é a última reviravolta na história recente do grupo mercenário, que virou manchete no noticiário global no início do ano durante uma rebelião armada na Rússia.

O Grupo Wagner, uma empresa privada militar russa, está intensamente envolvido na Ucrânia desde a invasão da Rússia ao país em 2014. Ele também se envolveu em conflitos na África e no Oriente Médio, onde foi acusado de cometer violações contra os direitos humanos no Mali e participar de negociações ilícitas de ouro no Mali, na República Centro-Africana e em outros países. No início do ano, o grupo mercenário foi a força propulsora por trás do cerco brutal à cidade ucraniana de Bakhmut.

 

 

Com a morte de Prigozhin, o futuro do Grupo Wagner permanece incerto. O presidente russo Vladimir Putin ordenou que os soldados do Wagner assinassem um juramento de lealdade ao estado russo, o que segundo observadores sinaliza para uma tentativa de colocar o grupo sob um controle maior do Kremlin. Porém, mesmo que o grupo seja formalmente desmembrado ou incorporado às forças armadas russas, especialistas dizem que suas atividades na África provavelmente vão continuar.

O jornalista nigeriano Philip Obaji Jr., bolsista do Programa de Reportagem Jim Hoge do ICFJ, fez uma cobertura vasta da atividade do Grupo Wagner na África nos últimos dois anos. Em um webinar recente do Fórum de Reportagem de Crise do ICFJ, Obaji Jr. compartilhou insights da sua cobertura, sugeriu ângulos de reportagem que os jornalistas podem adotar e discutiu os riscos envolvidos na cobertura do grupo mercenário.

A seguir está o que ele destacou:

O Grupo Wagner na África

O Grupo Wagner está ativo na África desde pelo menos 2017. Em 2018, o grupo começou a se envolver no Sudão, período em que o presidente Omar al-Bashir estava perdendo poder. "O Wagner chegou para ajudar al-Bashir a recuperar o controle ao mesmo tempo em que explorava o ouro do Sudão", disse Obaji Jr.

Em abril de 2023, o grupo se envolveu novamente com o Sudão, fornecendo armas às forças paramilitares em combate com o governo. "Estamos cientes da colaboração estreita entre o Grupo Wagner e Mohamed Hamdan Dagalo, comandante das Forças Rápidas de Suporte, que está disputando o poder no Sudão", explicou.

A influência do Grupo Wagner também está se espalhando. Obaji Jr. aconselhou os jornalistas a monitorarem a expansão dos mercenários na África e a investigar suas implicações globais. "Nós não sabemos muito sobre o crescimento do grupo, particularmente nos últimos meses. Estamos certos de que o Grupo Wagner estava ativo em Moçambique, no Mali, na Líbia, no Sudão e na República Centro-Africana", disse.

Jornalistas podem ajudar a identificar onde o grupo está operando e em que medida ele se movimentou para outros países. "Nós não sabemos o quanto o Grupo Wagner está envolvido em Burkina Faso. Não sabemos se eles tentaram interferir no governo do Níger ou, caso sim, o quanto. Nós não sabemos quantas violações de direitos humanos o Grupo Wagner cometeu na África Ocidental", disse Obaji Jr.

"Nós sabemos muito sobre a República Centro-Africana; nós sabemos que o Grupo Wagner está lá desde 2018. Nós também sabemos que muitos mercenários, muitos combatentes que estão ativos na Ucrânia, foram retirados da República Centro-Africana", acrescentou. "Mas não sabemos muito sobre as operações do Grupo Wagner além da República Centro-Africana, e isso deve ser investigado por jornalistas."

Desinformação e segurança

Jornalistas devem estar cientes das campanhas contínuas de desinformação pro-Wagner em muitos países africanos, disse Obaji Jr. "Há muitas campanhas de desinformação que estão em curso no momento na África em uma escala muito grande, e expandindo-se muito mais rápido do que muitas pessoas podem imaginar. Não sabemos qual o tamanho da expansão, não sabemos quem está envolvido." 

Ele ainda aconselhou que repórteres devem priorizar a segurança ao investigar o Grupo Wagner. Manter a segurança digital é fundamental, já que trolls online podem tentar manchar o nome de jornalistas que cobrem a atividade do grupo. 

"Os ataques mais frequentes que eu sofri relacionados ao Grupo Wagner vieram das redes sociais e de vários trolls. Vejo muitos posts nas redes sociais dizendo que sou um agente do mundo ocidental que está sendo usado para pintar a Rússia e Yevgeny Prigozhin [fundador do grupo] com uma imagem muito negativa. Essas afirmações não são apenas falsas, mas também intencionais", disse.

Obaji Jr. compartilhou como os mercenários o informaram de que ele era um alvo na República Centro-Africana. Integrantes do grupo disseram que se ele fosse encontrado lá, seria detido ou morto.

"No momento, ir para a República Centro-Africana é um risco grande porque sou um alvo lá. Eu não viajaria para o país sabendo que estou sendo vigiado pelo Grupo Wagner", disse.

Colaboração

Por meio de iniciativas como o Programa de Reportagem Jim Hoge, Obaji Jr. conheceu organizações e pesquisadores que estudam o Grupo Wagner.

"A colaboração é essencial no jornalismo, particularmente quando se pesquisa um assunto como esse. Você precisa de pessoas que estão familiarizadas com as origens do Grupo Wagner e pessoas com uma bagagem de conhecimento de como a Rússia opera em empresas privadas", explicou.

Para Obaji Jr., cobrir o Grupo Wagner é importante não só para analisar os impactos geopolíticos da organização, mas para analisar como suas atividades afetam as pessoas na África. "O motivo pelo qual decidi investigar o Grupo Wagner não é ganhar dinheiro", disse. "Eu ouvi muitas coisas sendo ditas sobre esse grupo e ouvi muitas histórias das próprias vítimas. Isso me faz seguir insistindo porque quero ir até o fundo da questão."


Foto por Pavel Neznanov via Unsplash.