Pandemia de medo: o impacto da COVID-19 em nossa saúde mental

نوشتهRodrigo de Assis
Sep 11, 2020 در Reportagem sobre COVID-19
Máscara cirúrgica com palavras "Don't Panic" acima

Em parceria com a nossa organização-matriz, o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), a IJNet está conectando jornalistas com especialistas em saúde e líderes de redação por meio de uma série de seminários online sobre COVID-19. A série faz parte do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde do ICFJ.

Este artigo é parte de nossa cobertura online sobre COVID-19. Para ver mais recursos, clique aqui.

“O último evento que alcançou todo o planeta foi o meteoro. Nem Guerra Mundial, conseguiu ser tão mundial quanto a COVID-19”, conta André Faro, doutor em psicologia e convidado do 13º webinar realizado pelo Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde no dia 10 de setembro.

Professor da Universidade Federal de Sergipe e pós-doutor pela Universidade Johns Hopkins, Faro falou sobre saúde mental, pandemia e estudos que vem desenvolvendo sobre o tema.

 


 

Veja a seguir as principais declarações de Faro:

Sobrecarga geral

  • A sobrecarga é um dos principais impactos da pandemia que tanta gente tem vivenciado em meio à reorganização radical das próprias vidas.

  • Dificilmente há notícias positivas, o que “debilita a capacidade de lidar com a situação e abre a porta para que a gente desenvolva questões em saúde mental”. “A incapacidade de fugir do assunto” mantém as pessoas em espécie de “ruminação coletiva” reverberando o mesmo “estressor comum”.

Medo e preocupação

  • O medo e a preocupação são motores do funcionamento humano e a regulação emocional dessas sensações é um indicativo de como está nossa saúde mental. Antes da pandemia faziam parte do dia-a-dia, mas nunca de modo tão intenso e concentrado.

  • “Ausência de medo expõe você fisicamente. Excesso de medo expõe você mentalmente."

  • Não ter medo, “ainda que possa trazer alguma sensação de tranquilidade, amplia seu risco” e o risco coletivo. O fato de se sentir tranquilo em excesso diante da pandemia não necessariamente é algo protetor, caso você não esteja aderindo aos métodos de prevenção.

Regra do 5 + 1

  • São fatores que favorecem o controle do medo. O passo zero é a regulação emocional. É recomendável que a caracterização do que se teme seja baseada em fatos, do contrário o indivíduo fica “possivelmente inflacionando o medo, ou reduzindo em excesso”. Não significa que deixa de ter medo, mas entender melhor aquilo que teme ajuda na busca de soluções mais viáveis.
  1. Cuide do corpo com atividades física, alimentação adequada, sono. Além de desviar o foco da pandemia, promove o bem-estar.
  2. Conecte-se, pois quem não conversa não retroalimenta o medo. Compartilhar traz um parâmetro de realidade.
  3. Procure ajuda quando o sofrimento ultrapassa a capacidade da pessoa. Se o prejuízo diário é muito grande ao ponto de paralisar as atividades, é importante buscar um profissional.
  4. Faça pausas. A vida em casa está mais desorganizada e corrida que antes, e uma queixa comum é a incapacidade de regular o próprio dia. “A criação de uma nova rotina demanda muito de você e fazer pausas ajuda a reorganizar seu dia.” 
  5. Altruísmo tem sido um fator atenuador do estresse e do sofrimento psicológico ao longo da pandemia. “Porque embora preocupado, você se sente parte, e ao se sentir parte, você tem mais domínio.” 

Pessoas que não estão em isolamento

  • Algumas pessoas sentem que o isolamento social deve ser equilibrado com um "excesso de liberdade", a fuga. “Na primeira possibilidade que há para ir à rua, dá a impressão que tem que ser aproveitada ao máximo. Você não vai à praia, vai passar o dia na praia."

  • As pessoas que precisavam de um motivo para sair de casa podem ser contagiadas pelo movimento de massa. A publicização exagerada dessa abertura pode trazer uma consequência danosa. 

Jornalistas que cobrem a pandemia

  • Em psicologia, na área de saúde e enfermagem, há especialização em comunicação de más notícias. A forma que você comunica pode piorar a más notícias, ou passar um retrato infiel e atenuando.

  • Na cobertura da COVID-19, parte significativa são más notícias. Há ainda exposição exagerada ao assunto e isso afeta quem comunica. O desenvolvimento da habilidade de conseguir comunicar e conseguir pensar de modo mais realista e racional é algo protetivo.

Consequências a longo prazo

  • O funcionamento cotidiano está acentuado, “como se o nosso ponto médio de regulação subisse”. É o “novo normal” em termos de ajustamento psicológico. A distância entre o que torna difícil de lidar, como a raiva exagerada e a raiva cotidiana, está mais próxima. Isso a gente vê mais na ansiedade e estresse, do que na depressão.

  • O que há em experiências anteriores é de alguns quadros de saúde bem comuns – frente à SARS, ou desastres de grande porte –  como o estresse pós-traumático. No caso, estamos observando as pessoas acometidas diretamente pela pandemia, como profissionais de saúde, quem teve COVID ou perdeu pessoas próximas.

  • Também existem traumas mais específicos, como o medo de espaços abertos (agorafobia), de espaços fechados (claustrofobia) e de contato (fobia social). Há hoje um panorama favorecedor de aparição por alguns meses ou anos. 

  • “A COVID não sairá da nossa vida tão cedo, ainda que tenhamos vacina”. A gente passará a conviver com ela e espera-se que esses quadros clínicos demandem uma atenção especial de profissionais da saúde mental.

Como se prevenir em termos de saúde mental?

  • Enquanto a gente vai entendendo quais são as pessoas mais vulneráveis, devem ser feitas medidas em termos de políticas públicas e acompanhamento individual para atenuar o impacto futuro.

  • A sociedade está entrando num estilo novo de funcionamento e o modo como as pessoas estão lidando vai determinar esse sofrimento mais a frente. No entanto, isso funciona em conjunto com a vulnerabilidade. Pessoas com níveis mais altos de estresse podem desencadear novos transtornos ou ter problemas que não tinham antes. 

  • No curto prazo, esse aumento de volume não diminui. A longo prazo teremos que aprender a lidar com isso até regular o que estará integrado na história. “Quem ajustar como memória será mais saudável.”


Rodrigo de Assis é jornalista, residente em São Paulo, com formação na Faculdade Cásper Líbero. Pesquisa a cultura viva e escreve poesia. Medium: @rqohen

Imagem sob licença CC no Unsplash por Tonik