3 jornalistas especializados dão dicas de como começar em suas áreas

作者Evandro Almeida Jr
Aug 24, 2020 发表在 Jornalismo básico
Bússola em uma mão

Em meio à pandemia de COVID-19 e com redações demitindo ou reduzindo salários e jornadas, fica difícil iniciar uma carreira no jornalismo. 

Uma alternativa possível é buscar veículos especializados para produzir jornalismo com qualidade. Por essa razão, conversei com três jornalistas referências em suas áreas e perguntei sobre como começaram na profissão, se tornaram especialistas e também empreenderam.

Jornalismo científico

Christina Queiroz, repórter de humanidades da Revista Pesquisa Fapesp, já se interessava por jornalismo científico durante seu mestrado na Espanha, onde também era correspondente internacional para o Brasil. Mas foi em 2012 durante doutorado em letras pela Universidade de São Paulo que o contato aumentou e Queiroz começou a estudar e produzir conteúdo científico.

“O trânsito entre o jornalismo e a academia me motivou a escrever para o jornalismo científico com foco em humanidades, pois é uma área em que consigo aproveitar dois aspectos da minha carreira”, disse ela.

Queiroz aponta para a preparação pré-pauta para entender bem aonde irá pisar. “Os maiores desafios envolvem escrever matérias sobre temas que desconhecemos”, explica. “Meu doutorado é em letras, meu mestrado em identidades culturais. Às vezes, escrevo reportagens em áreas que desconheço e isso exige um belo preparo. Você não pode chegar despreparado para conversar com o entrevistado. É preciso ter jogo de cintura para lidar com pesquisadores que, às vezes, se incomodam de você fazer perguntas que, para eles, são óbvias.”

Devido a pandemia, Queiroz, que é mãe, faz turnos extras de madrugadas para dar conta do trabalho.

[Leia mais: O malabarismo entre notícias, pandemia e o cuidado com os filhos]

 

Ela conta que o principal desafio envolve questões da maternidade. Mesmo escrever uma reportagem curta, de quatro páginas, requer um certo nível de preparo, de leituras, de entrevistas, de cuidado e tempo para redigir o texto. “Principalmente por conta da pandemia e do fechamento das escolas, eu preciso muitas vezes acordar no meio da madrugada para dar conta do trabalho”, diz. “É bom saber que nós mulheres, mães, podemos produzir coisas de qualidade mesmo sob condições adversas, mesmo que muitas vezes isso custe muito — horas de sono perdidas, olheiras, cansaço.”  

Queiroz dá três dicas para começar a cobrir temas científicos:

  1. Tenha familiaridade com o universo acadêmico: o que é um problema de pesquisa? O que é um argumento? O que é uma tese? É fundamental que o jornalista conheça esses conceitos. 

  2. Leia publicações de jornalismo científico para conhecer as referências desse universo, entender como uma tese acadêmica pode ser traduzida para a linguagem do jornalismo – que precisa ser didática e atrativa para o leitor leigo. 

  3. Faça um curso de jornalismo científico, como o oferecido pelo LabJor, da Unicamp.

Jornalismo socioambiental

Elaíze Farias é cofundadora da Amazônia Real, agência de jornalismo independente criada em outubro de 2013 com Kátia Brasil. Farias é jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e tem especialização em etnodesenvolvimento, pelo Departamento de Antropologia, também na UFAM.

Farias cobre socioambiental há 15 anos, quando retornou a Manaus após um breve período afastada. A pauta que a interessou com mais profundidade foi a dos povos indígenas. “Ficava incomodava com a maneira como os indígenas eram tratados nas reportagens: pejorativa, estigmatizada, preconceituosa e idealizada. Esta imersão na apuração jornalística também contribuiu para a busca do meu próprio pertencimento étnico”, diz ela sobre sua ascendência indígena.

Elaíze Farias
Elaíze Farias, cofundadora da Amazônia Real. Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real.

 

A jornalista recomenda buscar formação continuamente. Apesar de sua extensa experiência como repórter na Amazônia, ela diz que “é necessário largar quase tudo e aprender de novo. Isso implica buscar formação teórica, mas, sobretudo, construir um novo modo de observar e escrever”. 

[Leia mais: Contexto é essencial ao reportar sobre povos indígenas e COVID-19]

 

Com a Amazônia Real, Farias faz parte de um movimento de mulheres empreendedoras de mídia independente, que busca uma cobertura mais justa da sua região. Seu maior desafio é derrubar conceitos arraigados na sociedade brasileira e no jornalismo colonialista e etnocêntrico. Isso requer “falar sobre populações em uma região de dimensão continental, heterogênea, grandiosa e com muitas barreiras de comunicação e acesso geográfico”. 

Farias dá três dicas para melhorar a cobertura socioambiental:

  1. Livre-se dos estereótipos.  

  2. Vá além da reportagem dos fatos. Compreenda o que está sendo dito e tenha paciência e humildade. 

  3. Tenha compromisso ético com a pessoa que está lhe confiando uma história — especialmente se for alguém que pertence à grupos sociais marginalizados.

Jornalismo de tecnologia 

Gustavo Brigatto, fundador da Startups.com.br, site especializado em tecnologia e negócios, começou a cobrir essas duas áreas em 2005 — um ano após se formar em jornalismo pelo Mackenzie. Passou por redações como DCI, IT Mídia e Valor Econômico. 

Mas, foi no IT Mídia que Brigatto começou a trilhar o caminho da tecnologia. “A temporada lá me fez entender de vez, o jornalista eu queria ser. Meu objetivo passou a ser me consolidar como um dos principais nomes no jornalismo de tecnologia no Brasil”, diz ele. Quando surgiu uma vaga na editoria de tecnologia no Valor, uma amiga a indicou e ele conseguiu o posto no qual ficou por 11 anos. 

Gustavo Brigatto
Gustavo Brigatto é o fundador da Startups.com.br, um site especializado em tecnologia e negócios. Crédito da foto: Futurecom 2018.

 

“O assunto das startups sempre esteve entre os que eu trabalhava, mas só começou a ‘esquentar’ de verdade depois de 2010”, analisa Brigatto. 

“Acho que o maior desafio foi convencer as pessoas de que valia a pena acompanhar esse mercado. Que não se tratava apenas de coisas feitas por jovens, mas sim de companhias que poderiam mudar a forma como negócios são feitos. Isso está superado”, diz Brigatto. E foi por acreditar nesse setor que ele fez reportagens que o ajudaram com networking e relacionamentos com fundadores e fundos de investimento. 

A partir de 2018, Brigatto começou a produzir uma série em vídeo no site do Valor chamada “Fundadores”, em que conversava com fundadores de startups. “Isso me aproximou ainda mais do ecossistema e foi me criando uma vontade de talvez empreender eu mesmo”, conta.

Em julho de 2020, em meio à pandemia, Brigatto lançou a Startups.com.br. Para quem quer começar a cobrir tecnologia e o mercado de startups, Brigatto dá dicas: 

  1. Entenda se é disso que você gosta: você tem afinidade, facilidade com o tema? 

  2. Leia muito sobre o tema e torne-se um especialista. 

  3. Procure conhecer e criar relacionamento com pessoas do ecossistema, que poderão dar dicas e abrir novas portas ou a gerar ideias. “Essa rede de contatos vai te ajudar muito no futuro”, afirma. 


Evandro Almeida Jr é jornalista móvel. Ele é correspondente no Brasil e integrante da Red LATAM de Jóvenes Periodistas do Distintas Latitudes.

Imagem principal sob licença CC no Unsplash por Aron Visuals