Jornais de língua portuguesa compartilham experiências de remoção do paywall

Автор Daniel Dieb
Jun 1, 2020 в Empreendedorismo de mídia
Buraco no muro

Com a crise de saúde pública causada pelo novo coronavírus, jornais ao redor do mundo suspenderam o paywall em notícias relacionadas a COVID-19. Essa decisão foi tomada por periódicos de língua portuguesa, como a Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo, do Brasil, e o Público, de Portugal.

O objetivo é garantir que não assinantes possam acessar informações de interesse público. Espera-se, assim, que mais pessoas fiquem melhor informadas sobre assuntos que afetam diretamente a saúde delas e do próximo.

“Tirar as matérias do paywall é garantir que as informações básicas de sobrevivência e saúde pública sejam acessadas por todos”, diz Camila Marques, editora de Audiência e Digital da Folha de S. Paulo. 

Na mesma linha, Leonardo Cruz, editor-coordenador digital do Estado de S. Paulo, fala que “o jornal adotou a política de abrir conteúdos de serviço e interesse de saúde público por perceber que é de relevância e deve ser gratuito”. 

A fala dos editores brasileiros é consoante à de Amílcar Correia, diretor adjunto do Público e responsável pela versão digital do jornal. “Estávamos em um momento de interesse público único, era necessário prestar boa informação que pudesse contradizer, corrigir toda a má informação que está a circular.”

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Contudo, nem toda notícia relacionada ao vírus está sem paywall. A decisão de tirá-lo ou não varia de acordo com os critérios adotados pelas organizações. Em geral, nos três jornais, ficam com acesso aberto matérias com informações básicas sobre o coronavírus, dúvidas enviadas pelos leitores e seções de tempo real, onde há resumos de notícias sobre o tema.

As que trazem análises, bastidores políticos ou informações exclusivas costumam ficar com paywall, mas não se trata de uma regra pétrea. Na Folha de S.Paulo, a editoria da homepage e a secretaria de redação decidem quando vale ou não suspendê-lo. 

Marques fala que o jornal mantém o paywall em reportagens que ajudam a enxergar onde o país está pois elas não necessariamente são instrumentais para sobreviver. Ela lembra que o periódico tem um paywall poroso e dinâmico, o que permite a uma pessoa acessar vários links sem ser assinante. 

O Estado de S. Paulo tem um paywall parecido, que permite ao leitor não assinante acessar algumas matérias e outras mais se se cadastrar. Quando recebem reclamações de leitores no grupo de Facebook sobre coronavírus que criaram para assinantes e não assinantes, avaliam se a matéria em questão deve ser aberta.

Segundo Cruz, matérias que trazem bastidores políticos ficam atrás de paywall. “A gente deixa atrás de paywall é conteúdo e informação exclusiva, de apuração nossa, porque sabemos que o jornalismo profissional é caro e dá trabalho. A gente precisa dessa receita, ainda mais tempos de crise, como agora”, diz.

No Público, antes da Organização Mundial da Saúde declarar pandemia do novo coronavírus, em 11 de março, matérias com a tag coronavírus ficavam automaticamente sem paywall. Depois, o paywall foi desativado em boa parte do site, permanecendo em textos de opinião, de análise, as grandes entrevistas. 

Com a melhora da crise em Portugal, que começou a reabrir comércio e escolas, o jornal voltou a colocar paywall. O Público passou a fechar alguns textos, como entrevistas, mas manterá aberto os de utilidade pública, como os que trazem informações básicas sobre a doença. “Está sendo gradualmente aplicado porque achamos que o futuro do jornalismo passa pelas assinaturas.”

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Tanto suspender como reabilitar o paywall são decisões que revelam parte do funcionamento e do lado econômico da imprensa ao leitor. “Talvez não sejam decisões apenas editoriais, mas econômicas, e muito compreensíveis”, diz Mike Ananny, professor de comunicação e jornalismo na Universidade do Sul da Califórnia.

“Eu acho que é diferente do que está acontecendo agora e o que observamos no nosso trabalho é que as organizações jornalísticas no Estados Unidos, mas eu acho que ao redor do mundo, estão sendo devastadas por [uma] situação econômica muito desafiadora. Muitas delas talvez tenham menos conforto do que pode suportar em perda de receita”, diz Ananny.

Com Leila Bighash, professora assistente de comunicação na Universidade do Arizona, Ananny publicou um estudo em que analisam os momentos em que a imprensa dos Estados Unidos facilitou o acesso à notícias ao diminuir, suspender ou reconfigurar o sistema de paywall entre 1999 e 2015.

De lá para cá, a professora Bighash relata perceber mais argumentação tanto de leitores quanto de jornalistas em defesa da decisão tomada, seja a de abrir ou fechar o acesso. “Também tenho notado certas passagens por fora do paywall, como fotos da tela, inclusive feitas por quem assina o artigo”, completa.

A Folha de S.Paulo adotou o paywall em 2012, o Estado de S. Paulo em 2014 e o Público em abril de 2019. Com a pandemia, parece haver mais argumentos na mesa para o debate entre leitores (ou quem quer ler, mas não consegue) e os jornais sobre a cobrança pelo acesso. Para Ananny, talvez seja “sinal de que estamos prontos para ter uma conversa melhor sobre o valor das notícias se pudermos entender por que às vezes é necessário cobrar pela notícia”.


Daniel Dieb é jornalista freelancer com foco em ciência, saúde e tecnologia. Colabora com a Folha de S.Paulo e o UOL, pesquisou jornalismo e divulgação científica com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e é membro da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (RedeComCiência).

Imagem sob licença CC no Flickr por Erwin Brevis