Washington Post usou vídeo para desmascarar Project Veritas, mas ainda podemos confiar em vídeos?

porChristine Schmidt
Dec 2, 2017 em Fact-checking e verificação

Um confronto em um restaurante gregoDuelo de câmeras durante entrevista em um estacionamento.

Essas duas cenas ajudara o Washington Post a desmascarar as alegações de Jaime Phillips, uma mulher ligada ao Project Veritas que parece gravar imagens secretamente para tentar enganar repórteres do jornal americano para publicar uma matéria falsa sobre assédio sexual relacionado com Roy Moore, candidato ao Senado do Alabama. Mas o que fazemos quando chegamos ao ponto em que não conseguimos saber se esse tipo de vídeo é real?

A matéria sobre a reportagem que não aconteceu sacudiu o jornalismo nos Estados Unidos, com o Post compartilhando quase 10 minutos da filmagem da repórter Stephanie McCrummen mostrando a Jaime uma página impressa da campanha no GoFundMe para ajudá-la a combater a mídia tradicional e outras reportagens que ajudaram a desmentir suas alegações. O artigo com o vídeo observou que "quando Stephanie colocou sua bolsa perto da bolsa de Phillips para bloquear uma possível câmera, Jaime mudou a dela". Depois de James O’Keefe --o fundador do Project Veritas, que foi criticado por usar táticas enganosas e interações gravadas para ridicularizar seus alvos-- ter tuitado um vídeo editado de um encontro entre ele e o repórter do jornal, Aaron Davis, tentando perguntar-lhe sobre Jaime, o Post publicou um vídeo não-editado da mesma situação.

Filmar um confronto tem sido uma maneira fundamental de responsabilizar as pessoas da maneira mais direta possível: áudio, vídeo, tudo lá e às vezes até mesmo ao vivo. É provavelmente por isso que o Post certificou-se de incluir no terceiro parágrafo do artigo que o seu videógrafo filmou o encontro inteiro. E é também por isso que O'Keefe enviou o vídeo editado (cortando a pergunta do repórter do Post, destacando o questionamento de O'Keefe enquanto o repórter andava em direção a seu carro) e passou boa parte da segunda-feira compartilhando vídeos secretos de outros repórteres do Washington Post falando sobre o tráfego que matérias sobre Trump atrai para o seu site. Bem, é parcialmente pelo mesmo motivo por que policiais em todo o país agora têm câmeras corporais.

No entanto, pesquisadores já mostraram que vídeos manipulados mas altamente realistas divulgando conteúdo falso não são algo tão distante. No meio do ano, a Universidade de Washington anunciou que seus pesquisadores desenvolveram algoritmos capazes de transformar clipes de áudio em um vídeo com sincronização de lábios semelhante à vida real de alguém falando essas palavras --por exemplo, Barack Obama. (Dias antes, muitos foram enganados por uma foto do presidente Trump se inclinando para uma conversa com Vladimir Putin na cúpula do G-20, embora isso nunca tivesse acontecido.)

Em seu amplo relatório sobre a desordem da informação, Claire Wardle e Hossein Derakhshan do First Draft chamaram a atenção para o foco da indústria na desinformação baseada em texto, em vez da oportunidade de disseminá-la através de vídeos ou imagens:

Os visuais podem ser muito mais convincentes do que outras formas de comunicação, o que pode torná-los veículos muito mais poderosos para informações erradas e desinformação. Além disso, ao longo dos últimos meses, enfrentamos as implicações tecnológicas em que clipes de áudio ou vídeo relativamente limitados de alguém podem atuar como "dados de treinamento" muito poderosos, permitindo a criação de arquivos de áudio ou vídeo completamente fabricados, fazendo parecer que pessoas disseram algo que não disseram...

À medida que continuamos a realizar pesquisas e trabalhar de forma colaborativa para soluções, nosso maior desafio será a velocidade com que a tecnologia está refinando a criação de vídeo e áudio fabricados... Mark Zuckerberg na Conferência de Desenvolvedores do Facebook, F8, em abril de 2017, demonstrou a nova tecnologia de Realidade Aumentada que permite ao usuário "adicionar" recursos e filtros para suas imagens ou vídeos. Zuckerberg usou o exemplo de adicionar mais vapor à imagem do café da manhã. Embora este seja um exemplo inofensivo, versões mais nefastas da realidade aumentada são fáceis de imaginar.

Considerando que os efeitos visuais tendem a ser mais virais do que o texto, esta é uma área de preocupação cada vez maior. O jornalismo sólido é importante, mas também é descobrir outras maneiras de mostrar seu trabalho --e seus confrontos-- além do vídeo que pode ser manipulado num futuro não tão longe. David Fahrenthold, do Post, mostrou seu trabalho através de imagens tuitadas de sua pesquisa manuscrita em um bloco de anotações, e ele ganhou um Pulitzer. Como os jornalistas podem lutar contra fake news sem contar com a gravação de vídeo ou áudio para dizer a verdade?

Então, ver não é sempre acreditar.

Este artigo foi publicado originalmente no Nieman Lab e é reproduzido na IJNet com permissão.

Imagem sob licença CC no Flickr via Loowgren