Voz da América quer que seu aplicativo para celular transforme público em colaborador

porMaite Fernandez
Apr 2, 2014 em Diversos

Quando Will Sullivan entrou para o Broadcasting Board of Governors (BBG), o conselho americano de radiodifusão, com a missão de criar o primeiro aplicativo móvel de toda a organização, ele enfrentou uma tarefa assustadora.

O BBG, uma agência federal independente, supervisiona cinco organismos de radiodifusão internacionais, incluindo o Voz da América (VOA), que chega a 164 milhões de pessoas semanalmente em 45 idiomas.

Por alcançar tantas pessoas em tantos países, a rádio teria que ter um aplicativo móvel que servisse a públicos extremamente diversos que variam de cultura, linguagem e tecnologia.

Mas isso era apenas uma parte do desafio. Sullivan, que é diretor do BBG para tecnologia móvel, quer integrar ativamente o público no processo da notícia e aproveitar uma rede potencial de jornalistas cidadãos espalhados por todo o mundo. Para que isso funcione, o processo de apresentação de conteúdo de notícias tinha de ser extremamente fácil, e por isso uma das mais fortes capacidades do aplicativo é um Conteúdo Gerado pelo Usuário (UGC, em inglês) simplificado, que é fornecido diretamente no Sistema de Gerenciamento de Conteúdo (CMS, em inglês) da redação.

"Os produtores de um país podem obter áudio, vídeo, texto, fotos. Eles podem ter tudo isso e enviar diretamente para o nosso CMS em uma fila de aprovação para que possamos publicá-lo quase que instantaneamente", disse Sullivan à IJNet.

Quando os usuários enviam um artigo de conteúdo, o aplicativo avisa que sua apresentação está sendo enviada para um editor. O editor do outro lado recebe uma notificação por e-mail que um novo artigo do conteúdo está em uma fila no CMS. (O BBG usa Pangea, o seu próprio CMS customizado.) Depois de vetar ou editar o conteúdo se necessário, os editores publicam a contribuição, que pode, potencialmente, ser traduzida para outras línguas.

Enquanto algumas agências de notícias têm uma aplicativo móvel para reportar notícias e outro para contribuições dos usuários (por exemplo, o iReport da CNN), Sullivan sabia que conseguir alguém para instalar um aplicativo separado poderia ser uma barreira para a adoção, e ele queria o componente UCG no app principal de notícias. O recurso também foi adicionado a outros aplicativos institucionais do BBG, incluindo o Alhurra, Marti Noticias e Radio Free Europe.

O BBG está "ligando uma rede potencial de 200 milhões de colaboradores em todo o mundo (público estimado total do BBG), ao instalar este aplicativo", disse Sullivan.

O aplicativo está criando as bases para toda a organização adotar o UGC, e o BBG está desenvolvendo normas de melhores práticas e treinando a equipe para explorar o potencial do celular.

Tudo isso vem num momento em que os meios de comunicação ainda estão tentando descobrir como fazer tecnologia móvel e fazer direito (Circa é um dos poucos se saindo bem), enquanto que a revolução móvel continua marchando: a agência de telecomunicações da ONU anunciou recentemente que assinaturas de celulares subiram para 6,8 bilhões, e a adoção de celulares está crescendo exponencialmente nos países em desenvolvimento, onde muitos usuários estão ignorando a experiência do computador pessoal completamente.

"Muitos dos nossos mercados são móveis somente, então isso [o aplicativo] é um grande canal", disse Sullivan. "Tivemos sites há muito tempo, mas nunca foram realmente uma opção para muitos dos usuários de lá, já que eles teriam que pegar a câmera compacta, ligá-la a um computador de mesa, ou ir a um cibercafé e baixar as fotos e enviá-las", disse ele.

Usuários de celulares iOS e Android baixaram o app mais de 300.000 vezes. Quando foi lançado, em agosto, foi classificado em 10º lugar na categoria de aplicativo de notícias para a China, o número um no Camboja para todos os dispositivos e entre os top 50 para a África. O aplicativo também foi nomeado finalista nos Prêmios da GSMA Global Mobile 2014 na categoria para melhor produto ou serviço móvel de publicação.

Os desafios em obter conteúdo onde a Internet é censurada

Sullivan aprendeu cedo sobre como as questões de segurança são importantes para o público da VOA.

Antes de chegar a bordo, alguns serviços linguísticos já tinham seus próprios aplicativos básicos, como o aplicativo da rede de notícias persa, que puxam manchetes de feed RSS e sofrem quebras frequentes.

Apesar de ter um aplicativo que trava é geralmente apenas um aborrecimento, no Irã, isso pode significar muito mais. O governo iraniano pode perseguir pessoas que acessam determinados sites e abrir um aplicativo que de repente cai pode significar que o governo está observando você.

"Nós estávamos recebendo mensagens de usuários que pensavam que estavam sendo espionados", disse Sullivan. "Era uma espécie de um despertar brusco, mas também me fez muito apaixonado por este trabalho e o que estamos fazendo."

A VOA construiu recursos de segurança para o aplicativo desde o início. A versão Android oferece a opção de se conectar por meio de um servidor proxy para que as pessoas em países que censuram a Internet, como a China e a Síria, possam acessar o conteúdo, ele disse.

O aplicativo gratuito está disponível em mais línguas (43) do que qualquer outro aplicativo de notícias. Para isso foi necessário superar uma série de desafios técnicos, uma vez que as fontes (tipos de letras) de algumas das línguas não são sustentadas em alguns dispositivos portáteis e sistemas operacionais, disse Sullivan.

"O árabe não era sustentado em dispositivos Android até a versão 4.0, e nem é mesmo completamente sustentado", disse ele. "Nós construímos esses aplicativos que sustentam fontes que não são sustentadas nativamente pelo sistema operacional, o que é muito difícil de fazer e leva um monte de testes."

O aplicativo também permite ao usuário usar uma versão de banda larga baixa. Esta remove todas as imagens e parte do texto para que os usuários em regiões que não tem Internet rápida ou preços acessíveis possam verificar apenas as manchetes.

Maite Fernández é editora-chefe da IJNet. Ela é bilíngüe em inglês e espanhol e é mestre em jornalismo multimídia pela Universidade de Maryland.

Imagem cortesia da VOA