Um fotojornalista conta como foi além do jornalismo paraquedas

porJennifer Dorroh
Oct 20, 2015 em Jornalismo multimídia

Para contar a história de pais cujos filhos desapareceram da faculdade numa área rural do México no ano anterior, o fotojornalista e professor americano Scott Brennan poderia simplesmente ter visitado a cidade, feito algumas fotos e corrido para sua próxima missão.

Em vez disso, Brennan passou a maior parte do verão conhecendo as famílias e documentando suas histórias. O resultado é uma série de retratos que refletem a tristeza dos pais -- e sua determinação para continuar a buscar respostas sobre o desaparecimento de seus filhos.

Os alunos desapareceram em setembro de 2014 de Iguala, uma cidade cerca de 125 km da Ayotzinapa Escola Normal (Colégio de Professores) no estado de Guerrero no sul do México. A BBC e Amnesty International publicaram uma seleção de fotos de Brennan para marcar o aniversário de um ano do desaparecimento dos alunos. Brennan recentemente falou com a IJNet sobre o projeto e sua abordagem para o fotojornalismo de imersão.

Apesar de suas fotos aparecerem em publicações como o New York Times e a revista Time, Brennan, 36 anos, trabalha com fotojornalismo nas horas vagas. Ele depende de sua renda ensinando em uma escola particular em Guadalajara para cobrir suas despesas, enquanto dedica seu tempo livre para reportagens de profundidade. (Ele tem mestrado em ambos os campos.)

Brennan se apaixonou por fotografia quando criança lendo as revistas National Geographic. Fotojornalismo é "uma forma de tentar entender alguma coisa que você gostaria de entender", disse ele. "Dá uma desculpa de estar em um lugar onde você não pertence."

Depois de fazer freelance na Nicarágua e El Salvador e terminar seu mestrado em fotojornalismo pela Universidade de Artes de Londres em 2006, ele trabalhou por pouco tempo em sua região natal, o estado de Nova York. Lá, ele economizou dinheiro com trabalhos locais de fotografia e como bartender para depois viajar para outros países e fazer reportagem de viagem. Agora com base em Guadalajara, "Eu posso seguir histórias fotográficas do país, em vez de poupar, poupar, poupar cada centavo maldito, a fim de planejar uma viagem que vai durar talvez três semanas e seria só chegar e ir embora," Brennan disse.

Brennan está publicando um livro sobre questões ambientais e de justiça social na aldeia de Cherán no estado central de Michoacán, no México. Ele fez várias viagens de reportagem lá ao longo de quatro anos, o que "se vê no trabalho", disse ele.

Esta abordagem também pode ser vista em seus retratos de Ayotzinapa. Em junho, com o primeiro aniversário do desaparecimento e o caso permanecendo sem solução, Brennan decidiu tentar tirar fotos dos pais durante a suas férias de verão de seu trabalho na escola.

Primeiro, ele teve que convencer as famílias. Ele viajou para Ayotzinapa, onde durante o ano passado os pais "foram dormir em colchões no chão da universidade", disse Brennan. Às vezes, "o marido fica por um mês e então trocam e a esposa é que entra."

Ele chegou durante uma reunião de uma semana dos pais, que criaram um movimento para pressionar o governo mexicano para conseguir a verdade sobre os desaparecimentos. (Uma equipe de especialistas internacionais contestou a afirmação do governo de que narcotraficantes mataram os estudantes e queimaram seus corpos em uma lixeira.)

Brennan, que é fluente em espanhol, fez amizade com um casal de pais. "O espanhol é fundamental. Eu não poderia ter feito isso sem o idioma", disse ele. "Eu tinha um grupo de pessoas com quem eu estava andando, o que ajuda a obter acesso em qualquer outro lugar". Esses novos amigos apoiaram sua ideia de projeto e ajudaram a refinar a proposta de pauta, que ele apresentou em espanhol ao grupo completo no final da semana.

"Ao redor do mundo, os pais dos 43 alunos [que desapareceram] são famosos, mas ninguém sabe quem eles são, individualmente, quem seus filhos são, como eles se parecem e o que pensam", Brennan disse a eles. "Vocês estão começando esse movimento que está realmente confrontando uma série de injustiças que estão acontecendo no México, na América Latina, e até mesmo em outros lugares. Estas fotos podem dar um rosto ao movimento."

Quando ele terminou de lançar sua ideiia, vários pais lhe disseram: "Vamos começar agora."

Embora ele geralmente use uma câmera digital, ele fez os retratos em filme de luz natural de médio formato, que ele diz ser mais caro, mas também mais sensível do que a fotografia digital. Ele usou o mesmo filme para uma série de retratos de migrantes mexicanos.

Como fotógrafo na faculdade, Brennan desenvolveu uma preferência por tirar retratos com uma câmera ao nível da cintura. "É legal porque você olha para baixo nele. Então você está olhando para [o sujeito do retrato] através da lente, mas eles acham que você está apenas fazendo ajustes para a câmera", diz ele. O resultado é uma foto mais sincera, menos representada.

Ele conseguiu fazer fotos do pai de cada um dos estudantes, exceto um, uma mãe que simplesmente não queria fazer parte do projeto. Ele também fotografou uma mãe cujo filho foi assassinado naquela mesma noite.

Após as primeiras três semanas com as famílias, Brennan voltou para casa em Guadalajara, com a intenção de processar seu filme e, em seguida, fazer uma viagem planejada para Cuba. Quando ele olhou para as imagens desenvolvidas, ele disse, "eu percebi que tinha 33 retratos impressionantes, mas tinha que voltar". Os dez restantes estavam borrados, tinham sido danificados pelo laboratório de foto ou não eram tão interessantes esteticamente, disse ele. Ele cancelou sua viagem a Cuba e embarcou em um ônibus antes do amanhecer de volta para Guerrero, onde passou vários dias fazendo novas imagens de pais em seus vilarejos. Ele usou as últimas semanas do verão para fazer fotos e entrevistas adicionais.

Parte das reportagens mais poderosas aconteceram durante sua viagem para as comunidades das famílias. Brennan entrevistou um pai em sua fazenda. "Meu filho vinha aqui e trabalhava comigo todos os dias até que foi para Ayotzinapa", disse ele. "E agora, quando eu estou aqui fora, e o vento está soprando e as folhas estão sussurrando por entre as árvores, tudo o que eu ouço e sinto é seu silêncio e ausência. E eu espero todos os dias que ele volte."

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Thomas Clavelrole

Retratos de pais de estudantes desaparecidos cortesia de Scott Brennan:

  1. Oliveria Parral Rosa, o único pai de Ayotzinapa com duas filhos desaparecidos, Jorge e Dorian Gonzales Parral
  2. Elucadio Ortega Carlos, pai de Mauricio Ortega Valerio
  3. Rafael Lopez, pai de Julio Cesar Lopez