Robô Fátima dissemina informações verificadas no Brasil

porMarie von Hafften
Oct 7, 2018 em Fact-checking e verificação

Em meio à eleição presidencial no Brasil, os verificadores de fatos do país estão trabalhando contra o relógio para investigar declarações questionáveis e desmentir informações incorretas. Mas, assim que os jornalistas descobrem a verdade sobre uma notícia falsa, eles enfrentam o próximo desafio: garantir que os leitores que divulgam a história realmente descubram que se trata de uma notícia falsa.

Para isso foi criada a robô Fátima.

A robô do Twitter, cujo nome é uma abreviação de "Fact Machine", procura por tuites que veiculam histórias desacreditadas online. Quando a Fátima encontra uma, automaticamente responde com uma mensagem curta e um link para informações verificadas. A maioria das pessoas que foram alertadas pela Fátima desta forma clica no link, e algumas também corrigem suas postagens. E há outras que até agradecem à robô.

Muito obrigado, vou verificar!

— Ricardo di Paula (@Ricdipaula) July 28, 2018

O período de eleições é o momento mais crítico para corrigir notícias falsas, afirma Tai Nalon, um dos cérebros por trás da robô. Nalon é fundadora e editora-chefe da agência Aos Fatos, uma startup de mídia brasileira dedicada à checagem de fatos. "Temos que alcançar mais pessoas para que a checagem de fatos seja mais eficiente e eficaz", diz ela.

A Fátima é alimentada por um banco de dados —continuamente atualizado pelos verificadores do Aos Fatos— de links a informações falsas e links correspondentes que desmentem as declarações falsas. A robô, que analisa o Twitter de hora em hora, ajuda os jornalistas do Aos Fatos a transcender as bolhas de filtro e atingir as pessoas exatamente no momento que mais precisam: quando estão compartilhando informações erradas que já foram desmentidas.

Mais de 9.500 usuários do Twitter, incluindo figuras públicas na mídia e política, seguem a robô Fátima. Deltan Dallagnol, promotor da Operação Lava Jato, a investigação sobre a corrupção na Petrobras, recomendou a robô para seus seguidores.

Até o momento, a robô corrigiu os remetentes de mais de 1.800 tuites, priorizando usuários do Twitter com altos números de seguidores e tuites originais.

Nalon e Pedro Burgos, bolsista Knight do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), cuja equipe de tecnologia é apoiada pela Iniciativa Google News, trabalharam juntos para construir a robô no Aos Fatos. Na semana anterior à eleição, eles também lançaram uma versão da Fátima para o Facebook Messenger que dá dicas sobre como avaliar a precisão das notícias, imagens e vídeos encontrados na internet.

@goesjorge1 Olá! Não é verdade que Boulos liderou as buscas feitas no Google durante o debate da Band. Ajude a espalhar a informação correta: https://t.co/8toZvc09qO

— Fátima (@fatimabot) August 15, 2018

Burgos teve a ideia de construir uma robô de fact-checking em 2016 enquanto trabalhava como editor de engajamento no Marshall Project, uma agência de notícias sem fins lucrativos. Durante a cobertura dos debates presidenciais nos Estados Unidos, Burgos antecipou que o então candidato Donald Trump poderia fornecer informações incorretas sobre estatísticas de crimes, então ele preparou tuites de checagem de fatos com antecedência.

"O fato de eu ter tuitado esses gráficos apenas segundos depois de Trump falar sobre o assunto fez uma enorme diferença em termos de engajamento, pois as pessoas estavam mais interessadas no assunto", diz Burgos. "Essa é a lógica por trás de todos os algoritmos de recomendação bem-sucedidos, desde o feed de notícias do Facebook ao Netflix: sugerem algo relevante para você no momento em que você está interessado em buscá-lo."

Oi! Esse link sobre LGBTs e pedófilos que você compartilhou é de uma notícia falsa. Ajude a espalhar a informação correta aqui: https://t.co/MSQ2hYP3s7

— Fátima (@fatimabot) August 1, 2018

O Aos Fatos planeja adicionar mais recursos à Fátima para que a robô automatizada possa checar os fatos em tempo real ou quase. O projeto ganhou recentemente um subsídio da International Fact-Checking Network. Atualmente, a robô responde a links para compartilhar informações erradas, mas também pode avaliar a validade de textos, imagens e vídeos no Twitter e em outras plataformas.

É um projeto ambicioso, mas Nalon diz que uma filosofia orientada a tecnologia é fundamental para o jornalismo do Aos Fatos.

"Meu conselho para outras redações que querem automatizar seus processos é ir em frente, mas colaborar", diz Nalon. "Inovar é caro e não há dinheiro suficiente para todo mundo, especialmente no Brasil, onde estamos nos recuperando de uma crise financeira muito profunda."

Embora a disseminação de informações falsas seja um problema crônico, ela disse: "Podemos fazer mais e podemos fazer isso juntos."

Para ver a robô em ação, siga a Fátima no Twitter: @fatimabot.

Imagem principal cortesia da página da Fátima no Twitter