Resumão do Domingo de Dados da Abraji

porKalinka Iaquinto
Oct 5, 2020 em Jornalismo investigativo
Domingo de dados

O último dia do 15° Congresso de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) seguiu a fórmula estreada na edição de 2019 e trouxe uma programação inteiramente dedicada aos dados, o Domingo de Dados.

Na abertura do evento o jornalista Daniel Bramatti, do Estadão Dados, destacou que o tema continua chamando cada vez mais a atenção dos profissionais. Ele também alertou que ao abraçar o jornalismo de dados como carreira é fundamental tratar as bases de informações com rigor e cuidado, da mesma maneira que se faz com o jornalismo tradicional.

Tratando-se de bases de dados, Bramatti salientou a importância de se ter fontes confiáveis e de se fazer as perguntas corretas a fim de extrair as informações mais relevantes da entrevista. Atuando desde 2012 nessa área, frisou que é essencial ter coragem para descartar os dados quando não existe segurança sobre o que eles mostram. 

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“Dado que não é confiável não deve ser usado para fazer jornalismo. Uma conclusão equivocada é pior que não ter conclusão nenhuma”, pontuou.

Começando sem medo

Se o que o impede você de entrar no mundo do jornalismo de dados é o temor que as planilhas e as sequências de números representam, é hora de repensar essa postura. Esse foi um dos conselhos das jornalistas Amanda Rossi, freelancer, e Natália Mazotte, diretora-executiva da Open Knowledge Brasil e cofundadora da Escola de Dados durante a  oficina “Jornalismo de Dados, dê seus primeiros passos”.

Para Rossi, ter disposição para aprender já é um passo importante. “Tem que ter curiosidade, vontade de entrar nisso”, disse, afirmando que hoje, ao contrário de há uma década, é muito fácil encontrar tutoriais online que auxiliam no aprendizado.

Como Bramatti, Rossi aconselhou ter cuidado com os dados e fontes: “Quando torturados, os números podem dizer qualquer coisa”, disse. Ela também lembrou que apenas os dados não fazem uma boa reportagem. É necessário ir além. “Se você enche a reportagem de números, as pessoas não vão ler. Saber construir uma narrativa com dados é fundamental para que o conteúdo tenha relevância”, afirmou.

Na oficina “Estatística para jornalistas”, junto com a cientista de dados Maria Marinho, da SulAmérica, Renata Hirota, jornalista de dados da Associação Brasileira de Jurimetria, deu dicas de como fazer com que os números dialoguem com o jornalismo.

Hirota concordou que não é preciso ter amplo conhecimento, contudo defendeu que saber um pouco ajuda a sanar as próprias dúvidas. 

“Precisamos ter as ferramentas necessárias para questionar os direcionamentos das nossas pautas”, avaliou. Ela disse que os dados podem gerar excelentes reportagens, mas também podem derrubar outras tantas.

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Outra sugestão, que é quase um consenso entre visualizadores de dados, diz respeito à escolha do melhor gráfico para ilustrar as reportagens: “Gráfico de pizza, não!”

Na palestra “Como melhorar a sua visualização de dados”, infografistas destacaram que transformar dados em (boas) imagens é fundamental para que os temas sejam assimilados por quem consome o conteúdo, para gerar empatia no leitor.

Ricardo Cunha Lima, professor na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explicou que acrescentar emoções ao infográfico pode garantir que os temas ganhem visibilidade. E nesse contexto pontuou que ainda é muito raro se ver abordagens humorísticas no jornalismo. Os participantes da palestra listaram algumas ferramentas úteis no processo de apresentar dados atrativos ao leitor.

Métodos de investigação e análise de dados

Em tempos de nuvem, redes sociais e tantas outras novas tecnologias, o Twitter se sobressai no quesito facilidade de extração de informações. O cientista de dados Janderson Toth, durante a oficina “Como extrair e analisar dados das redes sociais”, defendeu a rede social como a mais amigável do ponto de vista da análise de dados.

Presente na mesma oficina, Géssika Costa, da Agência Tatu, demonstrou como analisar os dados oriundos das redes sociais. Para ela, é muito importante saber o que se pretende extrair das redes (tempo, local etc.) antes de dar início à busca pelos dados.

E se para construir uma narrativa é preciso conhecimento, método e técnica, ao se olhar para os dados a história não é diferente. Para acessar mais facilmente essas bases é fundamental que se tenha métodos de rastreamento, captação e organização das bases informacionais. O cientista de dados João Carabetta, na oficina sobre “Raspagem de Dados” enfatizou a importância dessas etapas em processos investigativos. Carabetta apresentou a extensão Web Scraper e explicou como ela pode ser utilizada para raspar dados e sistematizar as informações.


A transmissão do 15° Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji está disponível até 12 de outubro. Confira a programação aqui, assista aos painéis na íntegra e acompanhe a cobertura oficial do Projeto Repórter do Futuro.

Kalinka Iaquinto é repórter e coordenadora de comunicação da agência independente de reportagens Eder Content. Twitter: @kikaiaquinto