Rastreamento de informações falsas no novo recurso de canais do WhatsApp

Dec 7, 2023 em Combate à desinformação
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A Meta anunciou em setembro que iria disponibilizar seu novo recurso de canais do WhatsApp em 150 países. Os canais possibilitam uma transmissão de mão única por meio da qual os administradores podem compartilhar informações com seus seguidores.

"Os canais do WhatsApp foram criados como uma forma simples, confiável e privada de receber atualizações importantes de pessoas e organizações diretamente no WhatsApp", disse a meta em seu anúncio.

O WhatsApp é o aplicativo de mensagem mais popular na maioria dos países africanos. Infelizmente, a desinformação está crescendo na plataforma. Com o lançamento dos canais, jornalistas africanos estão preocupados que o novo recurso aumente ainda mais a disseminação de notícias falsas no continente e no mundo.

"O fato de que qualquer pessoa pode criar um canal e alcançar muitas pessoas de imediato impõe um risco alto de os usuários cometerem abusos", diz Lois Ugbede, pesquisadora na Dubawa, organização de verificação de fatos do Oeste da África.

Impacto dos influenciadores

A preocupação de alguns jornalistas africanos é que os canais comandados por influenciadores conhecidos sejam as maiores fontes de desinformação, já que muitos na maioria das vezes não verificam o conteúdo que compartilham. 

"Influenciadores têm uma grande base de seguidores e suas postagens podem se espalhar rapidamente", diz Semilore Adelola, verificadora de fatos no Africa Check. "Alguns deles ganharam status de semideuses com seus seguidores e qualquer informação que compartilham é considerada de credibilidade, seja verdadeira ou falsa. Quanto maior a base de fãs, mais viral a informação falsa que eles compartilham e ninguém sabe quem pode estar recebendo este perigo", diz.

Durante a pandemia de COVID-19, por exemplo, nigerianos resistiram a se vacinar devido a informações falsas compartilhadas por contas populares nas redes sociais. Em 2021, Dino Melaye, que era senador à época, alegou no Twitter que a vacina da AstraZeneca que o governo nigeriano tinha obtido era "a menos reconhecida das vacinas disponíveis" e tinha "baixa potência". Pouco tempo depois, um influenciador verificado no Instagram, Tunde Ednut, compartilhou a informação.

Ugbede verificou a informação e disse que as alegações sobre os efeitos colaterais negativos da AstraZeneca eram falsos. Quando ela descobriu que Ednut tinha criado um canal no WhatsApp e ganhado mais de 238.000 seguidores em duas semanas, ela temeu que esta pudesse ser uma nova forma do influenciador espalhar desinformação.

"Verificar informações compartilhadas por influenciadores nas redes sociais não é difícil, dependendo do tipo de informação", diz Ugbede. "O que é difícil é fazer o público aceitar o desmascaramento como um fato e aja em conformidade."

Desafios para verificação nos canais

Pode ser desafiador verificar informações compartilhadas por influenciadores, diz Adelola. "Alguns influenciadores priorizam sua reputação e verificam o conteúdo para garantir precisão, enquanto outros colocam o engajamento acima da precisão, em vez de priorizar a informação que pode manter as visualizações em suas plataformas."

Influenciadores que não se comprometem com a precisão podem sobrecarregar os verificadores de fatos. "A dificuldade de verificar o conteúdo deles é determinada pelo comprometimento do influenciador com a precisão", diz Adelola.

Usar os canais para forçar ataques contra outras pessoas é um receio adicional. Adelola lembra o incidente envolvendo um canal de WhatsApp administrado pela influenciadora Mariam Oyakhilome, que compartilhou informações de contato de uma pessoa, alegando que ela teria criticado a roupa da influenciadora em uma postagem no Facebook. Oyakhilome instruiu seus mais de 1,1 milhão de seguidores a assediar a pessoa com ligações e mensagens.

Falta de regulamentação

Caleb Ijioma, diretor executivo da RoundCheck, organização de verificação de fatos nigeriana comandada por jovens, teme que a falta de regulamentação dos canais vá aumentar a disseminação de desinformação na plataforma.

"Alguns desses influenciadores criam canais no WhatsApp para compartilhar sua opinião, alimentar pautas e influenciar o debate público. Há uma possibilidade alta de narrativas falsas se espalharem mais no WhatsApp porque os usuários agora podem ver informação diretamente desses influenciadores", diz. 

Apesar de organizações de verificação de fatos africanas como Dubawa, Africa Check, The Cable e o Centro Internacional de Jornalismo Investigativo terem canais de WhatsApp para fornecer informações verificadas aos seus seguidores, eles podem se afogar no volume de canais que promovem desinformação.

"A desinformação no WhatsApp é a mais difícil de rastrear porque acontece em espaços muito próximos e há uma chance grande de chegar a pessoas com níveis baixos ou médios de letramento midiático", diz Olatunji Olaigbe, especialista em desinformação e cibersegurança na CybAfriqué. "É muito mais do que expor as pessoas à desinformação. O ecossistema de desinformação fica muito mais aberto à desinformação do que costumava estar."

Recomendações

Os canais e seus usos em potencial não são de todo negativos. Diferentemente dos grupos de WhatsApp, que só podem ser acessados por membros do grupo e nos quais a criptografia de ponta a ponta pode impedir especialistas de identificar as fontes de desinformação que se espalham dentro deles, em um canal é possível ver a informação e quem a compartilha, seja a pessoa um membro ou não. Isso pode ajudar os especialistas a encontrar, monitorar e estudar a desinformação no WhatsApp mais do que antes, diz Olaigbe.

Ele sugere que uma medida positiva para reduzir a desinformação nos canais seria um sistema de análise e classificação similar ao que tem sido oferecido pelo Facebook para permitir que os verificadores de fatos enfatizem se uma alegação é enganosa ou falsa. 

Os usuários do WhatsApp devem estar cientes de que informações falsas podem se espalhar facilmente e relatar os canais que estão ativamente espalhando desinformação", encoraja Ijioma. Ele acrescenta que jornalistas podem ajudar a conscientizar sobre o potencial da desinformação de se espalhar nos canais.

"Não são muitas as organizações que estão informando sobre o lado negativo dos canais de WhatsApp", diz Ijioma. "Elas deveriam olhar para esse lado negativo e se pronunciar a respeito."

Recentemente, a Dubawa criou um grupo no WhatsApp para ajudar a identificar canais de desinformação, explica Temilade Onilede, chefe de programas da organização. 

"Qualquer pessoa que veja notícias falsas no WhatsApp pode compartilhar conosco por meio do grupo e nossos verificadores de fatos vão analisá-las", diz. "Isso significa que nós não somos mais os únicos defensores da verificação de informação, porque nossa audiência também é esclarecida o bastante para identificar uma alegação falsa e promover nossas verificações em suas redes."


Foto por Deeksha Pahariya via Unsplash.


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Repórter freelancer

Phillip Anjorin

Phillip Anjorin é jornalista e verificador de fatos nigeriano. Ele se interessa por cobrir a forma como os africanos resolvem seus problemas.