Projeto Ghost Boat envolve leitor no processo investigativo

porBelén Arce Terceros
May 24, 2016 em Jornalismo investigativo

Cerca de um ano atrás, a atenção do mundo se virou para as milhares de pessoas que tentavam chegar à Europa por barco, fugindo de guerra, conflito e violência em seus países de origem. Quando o verão chegou, tornou-se claro que essas viagens não iam parar: mais de 1 milhão de pessoas foram para a Europa e um número estimado de 4.000 pessoas foram dadas como desaparecidas ou afogadas, segundo a Organização Internacional para Migração (OIM).

As experiências dolorosas deixadas por homens, mulheres e crianças à procura de segurança motivaram uma resposta de solidariedade internacional. Várias iniciativas foram criadas, como Techfugees, uma comunidade que organiza hackatonas para resolver os problemas que afetam os refugiados, ou 19 Million Project, que reuniu cerca de 100 jornalistas, programadores e designers em Roma no ano passado para repensar narrativas sobre a crise.

Outros projetos surgiram para resolver um problema menos visível: os migrantes e refugiados que desapareceram sem deixar rastros. Também partindo de uma abordagem colaborativa global para a pesquisa, eles assumiram a tarefa de buscar o que aconteceu com essas pessoas.

Para o projeto Ghost Boat, liderado pelo site Medium, crowdsourcing tornou-se não apenas uma ferramenta para resolver um mistério, mas uma maneira de contar a história. Em junho de 2014, um barco com 243 pessoas a bordo desapareceu durante uma viagem da Líbia para a Itália. Os passageiros das famílias, principalmente da Eritreia, não receberam nenhuma notícia do paradeiro de seus parentes, as autoridades não encontraram vestígios do barco e o caso não foi oficialmente investigado.

O Medium decidiu iniciar a pesquisa em outubro do ano passado, depois de receber uma mensagem do marido de uma das vítimas que compartilhou sua história como parte da busca de sua esposa e filha. O projeto Ghost Boat ousou fazer uma pergunta que não sabia se poderia responder e envolveu os leitores pelo caminho.

"Eu estava pensando sobre essa história na minha cabeça e me perguntando sobre a questão central que tive como editor: Como você conta uma história que não tem um fim? Então eu percebi: o objetivo da matéria é encontrar a resposta", disse o editor do Ghost Boat, Bobbie Johnson, por e-mail.

Na primeira história da série, depois de contextualizar o mistério do barco perdido e fornecer a informação que tinham, os leitores foram convidados a contribuir para a investigação, em busca de dados ou análise de possíveis teorias; eles até mesmo forneceram diretrizes para a investigação.

“O ponto essencial da matéria foi a sua complexidade", ele acrescentou. "É óbvio que queremos encontrar as pessoas desaparecidas, mas também queremos explorar as questões que resultaram no barco se perder em primeiro lugar. Trazendo os leitores mais perto da confusão, mais perto da tragédia, mais perto da bagunça, parecia uma maneira lógica para explorar essa avenida."

Desde o início, o público do Ghost Boat tem respondido bem, mas coordenar seus colaboradores -- cerca de milhares em alguns pontos --, manter a motivação e organizar a investigação têm sido um desafio.

"Se eu tivesse que fazer isso de novo, eu provavelmente iria encontrar uma maneira de envolver melhor a comunidade e me concentrar em um conjunto de pequenas tarefas regulares realizáveis," Johnson refletiu.

A investigação ainda está em curso e, depois de esgotar inúmeros caminhos e esbarrar em becos sem saída, mudou-se para analisar imagens de satélite para encontrar pistas de quando o barco foi visto pela última vez. "Nosso único prazo é: chegamos a uma conclusão?", disse Johnson.

ONGs também estão buscando a ajuda do público, enquanto trabalham para encontrar pessoas perdidas ao longo das rotas de migração. A OIM coordena Missing Migrants, uma iniciativa que utiliza uma variedade de fontes para rastrear mortes de migrantes. O público pode enviar relatórios de migrantes desaparecidos ou mortos em pontos da migração irregular como o Mediterrâneo e a fronteira EUA-México. A organização investiga a informação mais ainda, visando as melhores estimativas possíveis dadas as limitações inerentes à situação.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), por sua vez, criou um site para facilitar o reagrupamento familiar neste contexto de fluxos de migrações maciças. No Trace the Face, parentes dos migrantes podem postar fotos de quem que estão procurando e os migrantes podem postar suas próprias imagens para as suas famílias verem. A plataforma torna-se crucial uma vez que estas populações estão sempre em movimento, muitas vezes não têm uma residência estabelecida e não são registradas com as autoridades do país onde estão assentadas.

Quando o verão se aproxima, a OIM antecipa um grande afluxo de migrantes na Europa e, como resultado, crowdsourcing pode voltar a se tornar uma ferramenta para descobrir o que aconteceu com aqueles que desapareceram.

Belén Arce Terceros é uma jornalista especializada em assuntos internacionais e humanitários. 

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Ann Wuyts. Imagem secundária sob licença CC no Flickr via CAFOD Photo Library.