Por que publicar mais dados abertos não é suficiente para empoderar os cidadãos

por Adi Eyal
Jan 11, 2017 em Jornalismo de dados

Quando assisti à Conferência Internacional de Dados Abertos em outubro passado em Madri, houve muita discussão sobre se os dados abertos falharam em cumprir sua promessa. Os dados abertos aumentaram realmente a transparência, melhoraram a eficiência do governo, deram origem à paz mundial, acabaram com a fome no mundo? O que realmente estamos dizendo quando falamos sobre o "impacto" dos dados abertos? Qualquer impacto que possa haver é restrito a uns poucos estudos de caso interessantes, mas ainda não há um conjunto maior de pesquisas descrevendo como os dados abertos trouxeram uma mudança sistêmica e de longo prazo para sociedades ao redor do mundo.

Na conferência, ouvi os mesmos argumentos ​​sobre a necessidade de que os dados fossem "abertos por padrão". Ouvi inúmeros exemplos de hackers subversivos liberando dados presos em PDFs para "descobrir corrupção". O ato de tornar público certos conjuntos de dados raramente resultou em mudanças de política tangíveis. Parecia para mim que o mantra dos puristas de dados abertos é que não podemos prever como os dados serão usados, então a liberação de dados é importante por si mesma, sem preocupação com seu valor para a sociedade.

Mas simplesmente "liberar" dados não é suficiente. Até mesmo a conferência de alto nível da ONU sobre a revolução dos dados na África, realizada no ano passado, reconheceu que é improvável que os cidadãos usem dados abertos e, portanto, os intermediários - ou "infomediários" - devem desempenhar um papel importante. Esses grupos (exploradores de dados, acadêmicos, organizações da sociedade civil competentes em dados, etc.) transformam dados em informações acionáveis, que podem então ser usadas ​​para pressionar por mudanças tangíveis.

Aumentar o impacto do movimento de dados abertos não é apenas uma questão de enfatizar o papel desses "infomediários" -- significa deslocar o foco da oferta para a demanda. Como muitos argumentaram, aumentar a oferta de conjuntos de dados sem se concentrar nos dados que são realmente necessários para resolver problemas específicos é pouco capaz de gerar impactos satisfatórios.

Eu não vou retomar os mesmos pontos feitos por outros que explicaram a importância de liberar mais conjuntos de dados em demanda. Estou interessado no que eu acho que é a próxima fronteira no movimento aberto de dados: a literacia de dados.

Claro, isso não é nada de novo. A Escola de Dados tem sido líder nesta área, com o objetivo de ensinar jornalistas e outros as habilidades que eles precisam para usar dados de forma eficaz. Há muitas outras iniciativas de jornalismo de dados em todo o mundo fazendo o mesmo. O que falta é uma melhor definição do que significa realmente a "literacia de dados". Um cidadão "analista de dados" não é alguém que sabe como lidar com uma planilha -- é alguém que entende inerentemente o valor dos dados na tomada de decisões.

Como defensores dos dados abertos, não podemos ignorar a importância disso. Assumir que mais cidadãos não estão advogando para um melhor governo devido à falta de dados é ingênuo. Embora Louis Brandeis tenha parecido inteligente quando escreveu, "Dizem que a luz solar é o melhor dos desinfetantes", isso não reflete a realidade. Informação é poder... mas só às vezes. Se os cidadãos não estão capacitados para agir com base em informações, liberar um conjunto de dados após o outro pode rapidamente se tornar desmoralizante. Precisamos trabalhar mais nesta área. Em última análise, acho que Aaron Schwartz estava mais certo quando disse: "A luz solar não é de fato o melhor desinfetante; o desinfetante de verdade é. A luz do sol só torna mais fácil para as pessoas verem o pus."

Então, como aumentar a literacia de dados e ajudar o movimento de dados abertos a produzir impactos mais tangíveis? Eu não recomendaria hackatonas, onde o foco tende a ser nos tecnólogos à exclusão de outros. A literacia de dados deve se estender aos cidadãos comuns, mesmo aos que não entendem de números.

Um caminho a seguir é o exemplo estabelecido pela Black Sash, uma organização sul-africana de justiça social que ajuda as comunidades a coletar dados de seus vizinhos sobre os serviços do governo local. A Black Sash ajuda a reunir esses dados e produzir infográficos simples, que podem ser usados ​​para iniciar uma conversa entre comunidades e prestadores de serviços. Uma pessoa se queixando sobre a espera de um dia na fila para receber sua pensão pode facilmente ser ignorada. Mas 400 pensionistas reclamando por esperar seis horas em média é um argumento muito mais forte. Em seu trabalho, os dados não substituem o diálogo, mas simplesmente o facilitam. Enquanto muitas dessas comunidades podem ser inúmeras, gráficos simples são um mecanismo poderoso para apoiar as discussões.

A literacia de dados significa mais do que simplesmente entender gráficos. É uma apreciação de como os dados podem ser usados ​​para reforçar a advocacia. Quando a Code for South Africa desenvolveu um mapa dos assentamentos informais na Cidade do Cabo com a organização ativista Ndifuna Ukwazi, o objetivo era iniciar uma conversa com o governo da cidade sobre por que tantos bairros careciam de sistemas de saneamento.

Este é apenas um exemplo de como os "infomediários" utilizaram os dados para abordar um problema específico e solucionável que as comunidades locais disseram ser importante para elas. Se o movimento de dados aberto for avançar, seria bom adotar o mantra: "mais literacia de dados e não mais conjuntos de dados abertos".

Imagem principal sob licença CC no Flickr via CyberHades