Por que colaborar é fundamental para ajudar o jornalismo investigativo a prosperar

porDenise Malan
Aug 12, 2013 em Jornalismo investigativo

Colaboração é mais do que um chavão.

Pode ser um dos pilares que mantém de pé o jornalismo investigativo.

Veja alguns dos exemplos mais recentes de projetos de investigação que estão fazendo diferença: O Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, em inglês) trabalhou com 86 jornalistas investigativos de 46 países para examinar o submundo dos paraísos fiscais.

Uma deputada pediu uma investigação do Departamento de Justiça em 50 instituições de caridade, na onda do projeto America’s Worst Charities (Piores Caridades dos EUA) pelo Center for Investigative Reporting e o Tampa Bay Times.

A parceria Sky Big, Big Money entre a PBS, o Marketplace da American Public Media e ProPublica ganhou um prêmio do IRE por sua reportagem sobre o financiamento de campanha da Citizens United em Montana e levou à decisão de que um grupo violou as leis de financiamento de campanha.

Eu poderia continuar, mas tenho certeza que você entende o ponto: As paredes tradicionais que antes existiam entre as organizações de mídia estão desmoronando. Claro que ainda há a concorrência nos mercados locais e alguns furos bons demais para se compartilhar, mas em muitos casos não seguramos mais ideias, fontes e conhecimento institucional. Colaborar é a nova realidade.

Desafios

Isso não significa que trabalhar em conjunto é sempre fácil, na verdade, raramente é. Todos nós vimos o quão difícil pode ser conseguir ter duas pessoas na mesma sala de redação para colaborar. Agora, no novo cenário do jornalismo, as organizações estão trabalhando com outras pessoas espalhadas por todo o país para transformar projetos de investigação.

As pessoas dessas organizações podem ter diferentes conjuntos de habilidades, experiências, prioridades e horários, inclusive. Colaborar num projeto pode adicionar semanas ou meses ao cronograma, mas isso é melhor do que deixar um projeto incompleto, porque uma organização não dá conta do trabalho.

Projetos colaborativos também precisam ter uma clara cadeia de comando --é fácil demais deixar as tarefas a cair no esquecimento ou perder o foco do projeto, se não há um líder claro. Esse líder precisa ter certeza de que há uma forte visão, uma estrutura de trabalho eficaz e comunicação frequente entre o grupo.

Todos os membros do grupo também têm que acreditar no projeto. Para os jornalistas, isso significa que estes projetos têm que ser relevantes para a sua organização e seu público.

Por que colaborar?

Se pode ser difícil ou complicado trabalhar juntos, por que está se tornando tão comum?

A resposta é rápida, porque muitas vezes não existe uma escolha. Como as organizações de notícias cortam orçamentos e pessoal, essas investigações simplesmente não são realizadas de outra maneira.

Vamos olhar para a investigação do paraíso fiscal pelo ICIJ, por exemplo. Levou 86 pessoas em 46 países. Ninguém, exceto as maiores organizações de mídia, podem ter equipe ou orçamento para produzir um projeto como esse por conta própria. Mas trabalhando em conjunto, essas redações menores foram capazes de produzir uma importante história de dados e documentos.

Como fez para o ICIJ, a colaboração pode cortar despesas de viagem e ajudar a ampliar o alcance e o contexto de uma história. Também pode trazer novas habilidades e pensamentos mais diversificados para as redações.

Embora seja sim um desafio reunir pessoas com diferentes formações, competências e prioridades, essa diversidade é também um dos maiores argumentos para a colaboração. Redações sem um repórter treinado em dados podem obter ajuda de uma outra organização. Repórteres podem fazer parceria com mídias étnica para trabalhar em uma questão culturalmente delicada. E um repórter de saúde na costa leste pode juntar-se com um repórter ambiental no oeste para fazer um projeto sobre uma questão de saúde pública.

Uma colaboração única

É o centro de uma nova parceria entre a Investigative News Network e o Investigative Reporters and Editors (IRE) para ajudar a aumentar o jornalismo de dados e trabalho em equipe entre as redações sem fins lucrativos nos Estados Unidos. A INN é uma rede de mais de 80 redações sem fins lucrativos com uma ampla gama de tamanhos, recursos humanos e foco de reportagem. O IRE é grupo um sem fins lucrativos formado em 1975 para melhorar a qualidade do jornalismo investigativo.

As duas organizações se uniram para contratar um diretor de serviços de dados do INN/IRE, um cargo para o qual eu tive a sorte de ser escolhida.

Meu trabalho é ajudar os membros da INN a coletar e analisar dados e completar projetos que fazem um impacto. Eu também irei atuar como um elo de ligação para os membros da INN utilizarem os recursos do IRE para orientar as nossas análises e reportagens.

De fato, um dos principais objetivos desta posição é ampliar o uso do biblioteca de banco de dados do IRE, que abriga dezenas de bancos de dados federais que foram limpos e padronizados e estão prontos para serem utilizados em reportagens. Alguns desses bancos de dados são amplamente utilizados, tais como os dados de inspeção de ponte, que se tornou conhecido nas redações depois que uma ponte em Minnesota caiu em 2007. Outros conjuntos podem ser pouco utilizados, e é o meu trabalho ajudar os membros da INN a fazer uso de alguns deles.

Da mesma forma, membros da INN podem trabalhar juntos em um projeto regional ou nacional, para o qual reunimos um novo conjunto de dados na biblioteca. Depois do projeto INN, esse banco de dados ficará disponível na biblioteca para os membros do IRE.

A INN também vai estar em busca de financiamento para alguns projetos, proporcionando um outro recurso para os membros que estão trabalhando para encontrar um modelo sustentável para o jornalismo sem fins lucrativos.

Nossa esperança é que este poder coletivo se tornará o novo normal e que organizações de notícias trabalhando juntas realmente serão mais fortes do que uma só.

Este artigo foi publicado primeiramente na PBS MediaShift e traduzido para a IJNet com permissão.

Denise Malan se tornou diretora de serviços de dados do INN/IRE em junho. Ela fornecerá atualizações ocasionais sobre as colaborações de dados da INN e lições aprendidas na PBS MediaShift.

Imagem sob licença CC no Flickr via katska