Por que chegou o momento para inovação da mídia na África

porJennifer Dorroh
May 13, 2012 em Diversos

Na África, onde a notícia móvel e inovação digital estão florindo, mas o capital inicial é muitas vezes escasso, inovadores têm uma oportunidade única para ajudar a reinventar a mídia: o desafio de inovação da Africa Media Initiative.

O concurso lançado recentemente, segundo o modelo do Desafio Jornalístico Knight, vai dar um total de US$ 1 milhão (em contribuições de US$12.500 a US$100.000) para projetos que criam novas formas de contar histórias, distribuir notícias e ganhar dinheiro. Também prestará assessoria técnica, suporte para inicialização e orientação aos vencedores do concurso.

A African Media Initiative (AMI) lançou o concurso no dia 10 de maio com o apoio da Omidyar Network, Google, Fundação Bill & Melinda Gates e Fundação John S. e James L. Knight e outros.

A IJNet conversou com Justin Arenstein, um empreendedor de mídia que trabalha na IAM como parte de sua bolsa Knight de jornalismo internacional. Arenstein falou sobre o concurso, perturbações na mídia e por que o momento é propício para a inovação de mídia na África.

Quais são os maiores desafios enfrentados pela mídia africana atualmente?

Justin Arenstein: Os modelos de negócios que sustentam o jornalismo de qualidade estão sob ameaça. Isso porque o público e anunciantes na África estão começando a se afastar da mídia tradicional, como jornais e televisão. Nós ainda não vimos a espécie de apocalipse que minou os modelos de negócios e remodelou a paisagem da mídia na América do Norte, porque a penetração da Internet continua a ser tão baixa, mesmo nos mercados africanos mais conectados.

Mas a [notícia] móvel está emergindo rapidamente como uma grande potência transformadora. Já em lugares como a África do Sul, a mídia online tem mais publicidade do que todos os meios de comunicação tradicionais combinados. Em lugares como o Quênia, bancos online está ultrapassando todos os canais financeiros tradicionais. E em todos os lugares, da Nigéria ao Uganda, as pessoas estão se voltando para notícias ou entretenimento online antes da mídia tradicional. As pessoas estão com mais fome do que nunca por conteúdo de qualidade, por isso o jornalismo não está sob ameaça. Mas os velhos modelos de negócios que financiam nossas redações estão.

IJNet: Por que que um concurso como este é necessário na África especificamente?

JA: A mídia africana tem a chance de pular as rupturas que devastaram as redações no hemisfério norte. Há uma pequena janela de oportunidade para os meios diversificarem seus modelos de negócio e as formas como apuram e divulgam notícias. O concurso espera impulsionar a adaptação da mídia digital que se faz necessária, tirando um pouco do risco durante o início da experimentação. O apoio técnico e doações de dinheiro que estamos oferecendo vão ajudar pioneiros a produzir protótipos de trabalho, para que possam ampliar suas soluções com mais facilidade. Também esperamos que o concurso seja capaz de apoiar os primeiros projetos substantivos de jornalismo de dados na África e produzir soluções que vão além da onda envolta da reportagem de cidadão.

IJNet: Quais são alguns bons exemplos na África do tipo de inovação que o concurso espera incentivar?

JA: Há muita inovação de mídia excitante já acontecendo em toda a África que gostaríamos de reproduzir ou amplificar. Na Nigéria, vimos uma dupla de nerds em uma garagem transformar o Nollywood Love em uma empresa de filme e música de entretenimento que está reformulando a indústria do cinema lá. Na África do Sul, vimos o pioneiro africano de notícias na Internet, o Mail & Guardian, abraçam o crowdsource de mídia cidadã através da Public Insight Network. E no Quênia estamos trabalhando com o Banco Mundial para incorporar desenvolvedores de software e programadores nas redações, para que possam construir uma nova geração de aplicativos de notícias para celulares.

Mas talvez o exemplo mais simples de um modelo simples que todos podem seguir é o caminho que uma jornalista da NTV, Irene Choge, usou a Iniciativa de Dados abertos do Quênia (KODI, em inglês) para resolver o mistério de por trás da razão pela qual alunas rurais daquele país tendem a abandonar a escola entre as idades de 12 e 14 anos. Ela usou conjuntos de dados públicos a partir do Kodi para comparar registros dos ministérios de educação, obras públicas, saúde e saneamento, e descobriu que as escolas com as maiores taxas de abandono são aquelas em condados rurais que não têm instalações sanitárias. Depois de usar novas ferramentas como o Google Refine e as planilhas do Google para mergulhar nos dados e depois sair a campo para verificar sua análise, Choge descobriu que as meninas estavam saindo [da escola] depois da puberdade, porque não havia instalações sanitárias para quando começassem a menstruar.

A primeira parte do documentário foi transmitida e a redação dela está agora construindo um aplicativo simples, baseado em SMS (mensagens de texto) para ajudar os pais a descobrir a situação de escola de seus filhos. O aplicativo será lançado quando a segunda parte do documentário for ao ar, e vai ajudar os pais nas escolas sem instalações sanitárias a enviar mesnages de texto ou e-mail aos oficiais competentes, ou se unir com outros pais para assinar petições ou fazer pedidos ao governo.

Por que isso é um bom modelo? Porque Choge utilizou ferramentas digitais para dissecar grandes quantidades de dados e descobrir tendências ocultas que teriam sido impenetráveis. Ela então usou visualização de dados para contar a história de forma convincente, mas simples, que todos pudessem entender. Sua equipe, em seguida, concentrou-se na criação de ferramentas para que o público pudesse descobrir como a história lhe afetava pessoalmente, para que pudessem agir se necessário.

IJNet: Quem deve concorrer? Que habilidades os participantes precisam ter?

JA: O foco do concurso é inovação digital, mas você não tem que ser um programador ou desenvolvedor para se inscrever. Estamos ansiosos para ouvir de jornalistas e empresários da mídia que se uniram com técnicos para tentar resolver alguns dos desafios do mundo real enfrentados pela mídia africana. Esta ênfase em ouvir jornalistas e pessoas da mídia é importante, pois muitas vezes os tecnólogos têm dominado iniciativas semelhantes em outras partes do mundo.

Nós não queremos aparelhos brilhantes ou brinquedos de geeks só porque são legais. Queremos coisas que fazem ou transmitem conteúdo, especialmente conteúdo jornalístico, em maneiras novas e poderosas.

Foto: Cortesia da Africa Media Initiative.