Organização de defesa vem ao socorro de jornalistas em perigo

porبسام سبتي
Feb 6, 2010 em Jornalismo básico

Quando Lara Logan, correspondente internacional da rede CBS, conheceu Jehad Ali, cinegrafista do canal de TV estatal no Iraque (foto) em 2007, Ali tinha acabado de ser ferido por militantes do Al Qaeda. Logan quis ajudá-lo.

Ela, então, entrou em contato com a organização internacional Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ, em inglês) e em pouco tempo Ali viajou aos Estados Unidos para uma operação que reabilitaria sua perna. O CPJ, segundo Ali contou em um artigo, “não só ofereceu ajuda econômica, mas também apoio moral”.

“Trabalhamos com Lara para reunir alguns fundos e trazer Ali aos Estados Unidos”, disse Joel Simon, diretor executivo da CPJ. Com sua saúde agora “quase 100 por cento reestabelecida”, Ali partiu o mês passado a Beirute, Líbano, onde buscará trabalho de cinegrafista.

Por mais de 30 anos, desde quando um grupo de correspondentes estrangeiros dos Estados Unidos formou o CPJ, a organização ajudou centenas de jornalistas como Ali, especialmente aqueles que trabalham em zonas perigosas e lugares repressivos, Simon explicou. “Queremos garantir que os jornalistas em todo o mundo podem trabalhar livremente e sem medo”, disse em uma entrevista à IJNet. O site do CPJ contém informação atual de casos de jornalistas que enfrentam repressão e hostilidade.

A IJNet conversou com Simon sobre o trabalho do CPJ, sua posição em relação à segurança dos jornalistas e o clima emque se encontra o jornalismo no início de 2010.

IJNet: Que tipo de dificuldades enfrentam os jornalistas hoje em dia?
Simon: Acho que a situação para o jornalistas está cada vez mais difícil. Se o jornalista trabalha em um lugar onde talvez não existam problemas de segurança, possivelmente está enfrentando uma economia instável, o que torna a prática do jornalismo mais difícil. Mas a situação é mais precária em lugares onde os jornalistas correm perigo de morte ou encarceramento somente por reportar. Até o momento, 150 jornalistas e profissionais de mídia morreram cobrindo a guerra no Iraque. Por sorte, este número está diminuindo desde os dois últimos anos, mas a quantidade de mortes é imprecendente. E agora há muitos países que estão ficando extremamente perigosos para a imprensa. Em países como México e Rússia, jornalistas enfrentam perigos diários extremos e inclusive a morte.

IJNet: Como o CPJ faz para ajudar os jornalistas que estão em perigo?
S: O CPJ é composto de jornalistas. Pensamos como jornalistas, agimos como jornalistas. Quando ficamos sabendo de algum ataque a jornalistas, respondemos como tais. Queremos saber os fatos.  Queremos documentar. Queremos saber os detalhes. Não queremos pular para conclusões, por isso temos contatos em todo o mundo. Temos fontes, como qualquer bom jornalista. Também temos gente trabalhando em alguns casos onde ocorrem os fatos e informamos sobre estes casos. Se vamos falar do problema temos que ter certeza que conhecemos os fatos. Esse é o primeiro passo. Uma vez que contamos com essa informação, há várias coisas que fazemos para chamar a atenção. Primeiro, publicamos comunicados de imprensa, contatamos os jornalistas, tentamos atrair a atenção da mídia, mas também tentamos contatar diretamente os governos para que conheçam nossas preocupações. Também elaboramos informes especiais, informes detalhados que documentam certos padrões de abuso. Viajamos aos países em questão.  Entrevistamos funcionários do governo. E oferecemos assistência a jornalistas que tiveram que fugir de seus países devido a perseguições e se estabelecer em outros lugares.

IJNet: Como os jornalistas podem entrar em contato com o CPJ?
S: Os jornalistas podem entrar em contato conosco diretamente. Pode ir ao site da organização (www.cpj.org), onde encontrarão a informação necessária. Alguém da nossa equipe provavelmente fala o seu idioma.

Algumas vezes ficamos sabendo de casos, porque o jornalista entra em contato com organizações locais em seu país e estas nos avisam sobre as ameaças contra seus colegas e buscam nossa ajuda. Também monitoramos a imprensa e os sites, e investigamos e documentamos os ataques contra jornalistas em todo o mundo. Os jornalistas que recebem ameaças devem se comunicar conosco, mas também pode ser que nós entremos em contato com eles.

IJNet: Qual é a situação que os jornalistas estão enfrentando agora no Haiti?
S: Temos uma relação de anos com os jornalistas haitianos. Nos últimos dias conseguimos entrar em contato com alguns. Cada um tem uma história pessoal de horror. Suas casas foram destruídas, alguns perderam familiares, outros não perderam ninguém mas estão abalados da mesma forma. O terrível também é que não podem trabalhar por causa da instabilidade de suas circunstâncias pessoais e o dano da infraestrutura da mídia, emissoras e transmissoras de rádio. A informação pode salvar vidas em um ambiente onde as pessoas não sabem como conseguir comida, ajuda médica, mas há muitos rumores. Neste momento é quando o povo do Haiti mais precisa de informação, mas a imprensa não está funcionando.

IJNet: Qual é o seu conselho para jornalistas que cobrem desastres?
S: São muitos os desafios para cobertura de situações como a do terremoto no Haiti. Os jornalistas têm a responsabilidade de contar com o equipamento e a logística necessários para cobrir este tipo de situações. Você não quer ser mais um peso. Você estará usando todo os recursos lá. A gasolina ou a água ou a comida são escassas, e se você está lá para trabalhar deve se assegurar de que dispõe dos recursos necessários; é uma grande responsabilidade trabalhar em zonas de desastre. Obviamente é muito importante que os jornalistas estejam lá.

Outro conselho é que se o jornalista  está em uma situação similar, e particularmente como a do Haiti, onde a presença do governo é sumamente limitada, a segurança pública não existe. O povo está desesperado. Quando juntam as duas coisas, um ambiente que parece seguro pode ficar muito perigoso em um minuto. Não temos visto incidentes relacionados com jornalistas, que eu saiba, mas é possível que vejamos. Os jornalistas que cobrem este tipo de cenário tendem a se preocupar somente se terão comida, água suficientes ou abrigo. Também devem ser cautelosos sobre sua própria segurança. É o tipo de coisa que devemos prestar atenção neste ambiente.

IJNet: Qual é a importância de ter a presença da mídia internacional no Haiti?
S: Realmente espero que a mídia haitiana se reestabeleça e funcione prontamente, porque não estão oferecendo informação ou têm divulgado muito pouca informação. Mas a presença da mídia internacional também é vital. É ela que está suprindo as deficiências. Está captando o interesse internacional. Está gerando mais recursos e a atenção necessária. Tenho visto reportagens excelentes. Algumas são emocionais, mas isso é inevitável neste tipo de situação. Quem não ficaria abalado com o que está vendo lá?

IJNet: Qual é a situação que os jornalistas enfrentam este ano?
S: Cada ano, o CPJ publica um censo mundial dos jornalistas presos e este ano, a metade dos 136 jornalistas que estão na prisão trabalham para a mídia online. Duplicou o número de jornalistas independentes na prisão. As categorias de jornalistas digitais e independentes estão aumentando e esta tendência deve continuar. Uma razão é que cada vez mais o jornalismo é feito online. Essa é a natureza do jornalismo nestes tempos. A outra razão é que é mais difícil controlar os jornalistas online, que em geral trabalham independentemente. Então os governos que talvez poderiam usar publicidade, exercem pressão sobre a imprensa, o rádio e a televisão e outras estratégias com o fim de intimidar os meios institucionais. Estes meios [online] estão ficando cada vez mais influentes e tendo maior impacto na população e nas pessoas que vão se organizando politicamente. Esta é a dinâmica que vemos no Irã, onde se vê que prendem mais e mais jornalistas que trabalham online.

Nossa visão, não importando o tipo de jornalismo, seja impresso, rádio, televisão ou online, já que tudo está sendo coberto online, é manter a liberdade da Internet como um meio para o jornalismo crítico. O CPJ também cumpre o papel de defender a mídia, defender o jornalista que é perseguido por seu trabalho online, mas também defender o meio como tal e garantir que a Internet se mantenha viável, aberta e livre para a difusão de notícias e informação.

Para saber mais sobre o CPJ, visite (em inglês) www.cpj.org.

Foto: Cortesia do Al-Iraqiya