ONG nigeriana luta contra desequilíbrio de gênero nas redações

porPatrick Egwu
Mar 9, 2019 em Diversidade
As bolsistas do 2018 com outras mulheres envolvidas no final do programa

Uma organização sem fins lucrativos de jornalismo investigativo na Nigéria, que busca expor a corrupção e os abusos dos direitos humanos, liderou um esforço para abordar o proeminente desequilíbrio entre os sexos nas redações do país.

Através da iniciativa Report Women! do Programa de Liderança de Repórteres Mulheres (FRLP, em inglês), o Centro de Jornalismo Investigativo Woy Soyinka (WSCIJ, em inglês), com o apoio da organização não-governamental holandesa Free Press Unlimited, está treinando mulheres jornalistas na Nigéria, equipando-as com as ferramentas necessárias para assumir posições de liderança em suas respectivas agências de notícias.

Desde sua fundação em 2017, o FRLP já treinou mais de 80 repórteres mulheres.

“Em 2016, projetamos o FRLP com uma bolsa-piloto em 2017 para abordar a fraca proporção de mulheres na liderança da mídia”, disse a coordenadora do WSCIJ, Motunrayo Alaka, à IJNet em uma entrevista.

“Resumindo, o FRLP visa apoiar repórteres mulheres com habilidades, estratégias, ajuda e ferramentas para tomarem medidas ousadas que ajudem a posicioná-los para papéis de liderança em seus veículos de mídia. O programa está fazendo com que sejam intencionais sobre serem líderes e realizem grandes reportagens em todos os setores que integram as questões de gênero.”

A "exigência do emprego, estereótipos, falta de competência e gênero" são algumas das forças que impedem as mulheres de liderar uma redação, observou Alaka.

“Também descobrimos que, embora os líderes da mídia dificilmente conspirem contra a liderança feminina, eles também não são intencionais quanto à necessidade de inclusão. Repórteres mulheres são diferentes de suas contrapartes masculinas. Espaços de trabalho e condições têm que ser propícios para as mulheres, como são para os homens ”, explicou ela.

Uma pesquisa de 2017 com 85 meios de comunicação na Nigéria mostrou que a proporção de membros do conselho editorial do sexo masculino para o feminino nas redações era de nove para um, disse Alaka.

"A pesquisa mostra que a diferença é menos óbvia quando repórteres mulheres e homens estão em meados de carreira, mas a simetria muda no nível de gestão, já que as mulheres literalmente desaparecem", explicou Alaka.

“Como uma organização focada na popularização da cultura de reportagem investigativa, encontramos a mesma coisa com a maioria dos nossos vencedores que são do sexo masculino. Também observamos uma distorção na forma como a mídia conta as histórias que fazem notícia em termos de diversificação de gênero das vozes de especialistas e a representação de mulheres como vítimas em vez de heróis e sobreviventes”, continuou ela. "Acreditamos também que, como a própria mídia é uma entidade moral que procura dizer à sociedade como deve se comportar, é importante que a mídia garanta também que sua liderança e seu conteúdo reflitam a diversidade que ela exige de outros na sociedade."

Fellows with program leader Motunrayo Alaka.
Bolsistas 2018 FRLP do WSCIJ.

 

Durante o programa, as bolsistas adquirem habilidades técnicas e pessoais, incluindo construção de confiança, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, liderança, falar em público, gerenciamento, reportagem, segurança,  direitos legais em relação ao gênero e mais. As bolsistas também receberam financiamento que usaram para realizar projetos de liderança e reportagens que as ajudarão a se destacar na redação.

“O programa me capacitou de muitas maneiras para ser mais assertiva, ser ousada e assumir funções de liderança em minha redação --e não apenas em minha redação, mas fora dela”, disse Azeezat Olaoluwa, uma das bolsistas. “Me deu a oportunidade de ser mais importante na redação. Você não pode simplesmente me empurrar para o lado. Estou assumindo posições de liderança e atualmente sou a âncora de notícias sênior em minha redação. Me deu a oportunidade de transmitir conhecimento para a vida das minhas colegas.”

Olaoluwa também notou os desafios específicos que as repórteres enfrentam na redação, incluindo ter filhos e tirar licença maternidade, o que geralmente significa um retrocesso na carreira.

"Eu acho este programa empoderador como uma das poucas editoras de negócios na mídia nigeriana", disse Ruth Olorunbi, outra bolsista.

“Com um programa como este, estamos vendo os estereótipos contra as mulheres se desfazerem e a confiança das mulheres em suas habilidades aumentarem”, continuou ela. “Estamos vendo a geração mais velha de mulheres em negócios envolvidas com uma nova safra de jornalistas nos negócios, e estamos vendo mais mulheres nas diretorias. Essa é a essência deste programa.”

Quatorze bolsistas completaram o programa durante sua primeira edição em 2017. Em 2018, o programa treinou 20 participantes de 17 meios de comunicação, selecionadas de um grupo de 199 candidatas em nove países, incluindo a Nigéria.


Todas as imagens são cortesia do Centro de Jornalismo Investigativo Wole Soyinka (WSCIJ)