OjoPúblico publica guia para jornalistas investigativos no mundo digital

porAna Prieto
May 5, 2016 em Jornalismo digital

En seus dois anos de vida, a publicação peruana OjoPúblico ganhou um merecido lugar de prestígio entre os meios digitais latino-americanos, por combinar jornalismo investigativo, inovação, boa narrativa e uma qualidade integral que não passou despercebida pela mídia e colegas internacionais. En 2015, OjoPúblico ganhou o prêmio de melhor investigação do ano na categoria Small Newsroom dos Data Journalism Awards, pelo desenvolvimento do aplicativo Cuentas Juradas, que permitiu aos usuários revisar a evolução das declarações de renda de dezenas de funcionários públicos antes das eleições municipais.

OjoPúblico também foi uma das organizações que trabalhou com o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação para expor o maior vazamento de dados até hoje: o "Panama Papers". O site dedica uma seção especial para explorações das conexões entre a firma Mossak Fonseca e o poder político e empresarial do Peru.

E agora, com o objetivo de contribuir para a difusão e promoção do uso dos datos e difundir sua visão do jornalismo como um serviço essencial para a democracia, OjoPúblico elaborou “La navaja suiza del reportero. Herramientas de investigación en la era de los datos masivos” (O canivete suíço do repórter. Ferramentas de investigação na era dos dados em massa), um recurso para jornalistas que querem começar a se familiarizar com o mundo dos dados e, sobretudo, a compreender seu sentido e relevância na investigação jornalística na América Latina e no mundo.

O livro, que contou com o apoio do Conselho de Imprensa Peruana, Fundação Hivos e IDEA Internacional, foi apresentado ao público no 5 de maio, e já pode ser acessado gratuitamente. O guia está dividido em três partes: o novo alfabeto do jornalista: como o hacker acelerou a reinvenção do jornalismo; como investigar crimes em um banco de dados: 20 investigações que mudaram a maneira de fazer jornalismo; e o caminho para uma cultura de inovação: os laboratórios digitais do jornalismo de investigação no Peru.

A IJNet conversou com seus autores: David Hidalgo, diretor jornalístico de OjoPúblico, e Fabiola Torres, editora de análise de dados.

Que espaço esperam que o guia vai preenchar e como esperam que repórteres vão usar o "Canivete Suíço"?

O livro é uma reflexão sobre o papel do jornalismo nesta época de dados em massa, um momento crucial da história em que a tecnologia permite desde o descobrimento de casos locais de corrupção até investigações globais a partir de vazamentos como o "Offshore Leaks" ou o "Luxembourg Leaks", antecedentes diretos do agora famoso "Panama Papers". A revolução digital demanda uma mudança de mentalidade que os repórteres devem entender, e novas competências que antes eram associadas a outras áreas do conhecimento. Por isso incluímos uma seleção das melhores ferramentas digitais para repórteres investigativos e um panorama dos melhores casos na história recente em todo o mundo.

En 2014, 19 países da região já contavam com normas ou leis de acesso à informação pública. Com as investigações que estas leis permitem, acham que a tendência será sempre mais acesso ou que será cada vez mais um território de disputa?

Podemos inferir a resposta a partir da experiência no Peru. Apesar das leis de transparência e da iniciativa oficial de Governo Aberto, as instituições públicas aplicam medidas restritivas ao acesso à informação, como o caso das declarações juradas dos funcionários. A sociedade civil e os jornalistas estão em um esforço permanente para fazer o Estado entender a necessidade dos dados abertos como um pilar da vida democrática. Porém, as estratégias de distintos governos, sobretudo em sociedades como as latino-americanas, tendem a restringir o acesso, às vezes com argumentos delirantes, como o das autoridades costa-riquenhas que entregaram uma informação com uma senha para que os jornalistas a recebessem, mas sem poderem utilizá-la. Seu argumento, na prática, foi que não tinham a obrigação de facilitar as coisas.

Quais acham que são as maiores resistências das escolas de jornalismo e dos meios tradicionais latino-americanos para incorporar o mundo dos dados?

Na verdade, o principal desafio é que não compreendem plenamente o significado do jornalismo de dados. Alguns o consideram como uma nova especialidade revolucionária e outros como uma simples variação sobre as ferramentas disponíveis. Não é um ou nem o outro. O que precisamos entender é que nós estamos em um momento único na história que o jornalismo pode aproximar-se da realidade em dimensões que, até recentemente, eram desconhecidas. Mais do que aprender a usar ferramentas digitais, o que precisamos é aprender a pensar de forma diferente sobre os mesmos problemas, a construir novas maneiras de perguntar, novas formas de hipóteses e métodos de trabalho. Não é uma questão de escala, mas um novo tipo de intuição para perseguir a verdade.

Há colegas a que palavras como "dados" ou "scraping" soam estranhas, difíceis e constituem práticas que acreditam estar fora de seu alcance. Como levar o jornalismo de datos e as ferramentas digitais a quem se formou há 10 ou 15 anos?

Da maneira que nós fizemos: pelo velho axioma da tentativa e erro. A única diferença é que os membros da nossa equipe têm uma enorme voracidade de experimentar tudo, para descobrir, criar, inovar. Nós somos como uma criança que ganhou um Play Station 10 anos antes de ter sido colocado à venda. Desde o início, senti que estávamos mudando a partir da mudança na nossa língua. Agora sabemos que a equipe de reportagem do século 21 é uma força-tarefa que inclui desenvolvedores e jornalistas em um ambiente tecnológico. A nossa recomendação é tomar a decisão de se engajar no caminho para uma cultura de inovação e, como indicam os fundamentos do jornalismo, perguntando sempre o tempo todo.

Imagem principal cortesia de OjoPúblico

Imagem secundária: Fabiola Torres e David Hidalgo. Foto de Audrey Cordova