O que a venda do Washington Post ao fundador da Amazon significa para o jornalismo?

porMargaret Looney
Aug 08 em Temas especializados

A notícia de que o fundador da Amazon, Jeff Bezos, decidiu comprar o Washington Post, um dos jornais mais importantes dos Estados Unidos, por US$ 250 milhões, dominou as novidades da indústria de notícias essa semana. Para muitos, a venda é mais um sinal da mudança do jornalismo tradicional para a mídia digital.

Empreendedor de tecnologia, Bezos, que tem desempenhado um papel fundamental no crescimento do comércio online, vai comprar o jornal da família rica que elevou a qualidade do jornal. Katharine Graham, cujo pai comprou o jornal em um leilão em 1930, foi editora durante o escândalo de Watergate nos anos setenta. Os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein contribuíram para a decisão do presidente Richard Nixon de renunciar ao cargo e fez o nome do jornal ser sinônimo de jornalismo investigativo.

O que a venda significa para o jornalismo e a indústria de notícias?

"Um repórter me perguntou se a compra foi 'um ato de filantropia'. Provavelmente sim, mas eu espero que seja muito mais do que isso", escreveu Jeff Jarvis, professor de jornalismo da pós-graduação em jornalismo da City University of New York e comentarista renomado. "Estou contente que Bezos está usando sua riqueza para salvar uma grande e necessária instituição americana. Mas espero e rezo que o valor real que ele traz é o seu empreendedorismo, sua inovação, sua experiência e sua nova perspectiva, permitindo reimaginar o jornalismo como um empreendimento."

A falta de transparência por parte de Bezos na Amazon, "mostra que ele não é defensor de uma abertura. É difícil encontrar uma empresa tecnológica mais sigilosa", Jarvis escreveu no Twitter.

Depois que a empresa do New York Times vendeu o jornal Boston Globe por meros US$70 milhões para o proprietário do time Red Fox, John W. Henry, especialistas em mídia se perguntaram se estamos retornando a um modelo de propriedade mais antigo, quando os jornais pertenciam a "ricos empresários individuais", disse Mathew Ingram do GigaOm em um post. Ingram também resumiu uma variedade de "melhores insights" sobre a venda aqui.

"Eu odiaria pensar que a única maneira de organizações de notícias sobreviverem é por meio de padrinhos", Jarvis disse ao Guardian.

"Os jornais estão agora voltando à antiga condição de brinquedos dos ricos, em vez de pontos de lucro impulsionados pelo mercado", Emily Sino escreveu para um artigo no Guardian sobre o "casamento das mídias antigas com o dinheiro novo."

James Fallows da revista Atlantic vê um um lado bom para a venda. "Por isso, vamos esperar que isso é o que a venda significa: o início de uma fase em que os principais beneficiários desta idade dourada re-investem na infraestrutura de nossa inteligência pública", disse ele.

Don Graham, presidente e CEO do Washington Post, espera que Bezos não só vá manter o jornal em pé, mas ajudá-lo a inovar e prosperar.

"O Post poderia ter sobrevivido sob a propriedade atual e ser rentável num futuro próximo. Mas queríamos mais do que sobreviver," Graham disse ao Post.

Dan Mitchell da CNN escreveu que, para "quem se preocupa com a função do jornalismo de serviço público, um otimismo cauteloso deve ser a primeira reação à surpreendente notícia , disse ele. "No ano passado, Bezos disse à revista Fortune: "As três grandes ideias na Amazon são pensar a longo prazo, a obsessão com o cliente e a vontade de inventar. Substitua "cliente" com "leitor" e essas são simplesmente as ideias que a indústria jornalística precisa aderir enquanto se desenrola o futuro muito incerto."

Dan Sinker, diretor do Knight-Mozilla OpenNews, espera que Bezos vá trazer para o Post a mentalidade inovadora que usou em liderar a criação de servidor em Cloud na Amazon, que Sinker chama de uma das "tecnologias mais transformadoras e pouco destacadas da última década. "

"Esses desdobramentos, essas ideias 'tresloucadas', estes pedaços de código que começam na redação e acabam por transformar a própria Internet, são o que os tecnólogos em jornalismo fazem melhor quando têm apoio e liderança por trás deles. Essa liderança ainda é muito rara na indústria do jornalismo. Isso pode ter mudado em grande forma nessa segunda-feira," Sinker escreveu.

Margaret Looney, assistente editorial da IJNet, escreve sobre as últimas tendências de mídia, ferramentas de reportagem e recursos de jornalismo.

Imagem cortesia de Maite Fernandez