O preço alto do jornalismo de dados e como sua redação pode bancar essa

por Sam Berkhead
Oct 1, 2015 em Jornalismo de dados

Descobrir casos de fraude no sistema Medicare não saiu barato.

Os jornalistas investigativos do Center for Public Integrity (CPI) aprenderam isso da maneira mais difícil durante uma investigação que revelou o superfaturamento desenfreado dos prestadores de saúde para os serviços do Medicare Advantage.

Para obter os conjuntos de dados necessários para a investigação, os Centros de Serviços Medicare e Medicaid (CMS) inicialmente cobraram do CPI um impressionante US$90.000, disse David Donald, editor de dados do CPI, no momento da solicitação. Foi somente após a ameaça de uma ação judicial que o CMS concordou em reduzir a taxa para US$12.000.

No mundo do jornalismo de dados, isto está longe de ser incomum.

"Entre as minhas melhores tentativas foram de conseguir taxas de US$22.000 da Universidade da Califórnia e US$10.000 do Condado de Monterey", disse o jornalista de dados Daniel J. Willis. "Jornalistas de dados adoram comparar para ver quem consegue as melhores taxas em encontros depois de conferências depois de alguns drinks."

Além desses custos, um jornalista pode conduzir uma investigação longa, apenas para descobrir que não há nada interessante para a reportagem.

Apesar disso, as perspectivas para os jornalistas de dados podem não ser tão sombrias quanto parece, disse Willis, que trabalha no Oakland Tribune e Contra Costa Times.

"A boa notícia é que há uma abundância de dados para ser conseguida facilmente de graça", disse Willis. "O campo ainda é jovem o suficiente para que, apesar de todos naturalmente querendo fazer algo muito grande, ainda há coisas mais acessíveis de obter."

Além disso, há uma abundância de notícia importante para ser encontrada em meio a dados livres, facilmente disponíveis -- desde que você saiba onde olhar.

"Enquanto organizações sem fins lucrativos como Maplight fazem um grande trabalho agregando dados financeiros nacionais e estaduais americanos, registros municipais estão na melhor das hipóteses em PDFs nos websites da prefeitura -- e na pior das hipóteses em papel em caixas reais coletando poeira real, não-metafórica", disse Willis. "Já que muitos congressistas corruptos de hoje tiveram seu início como vereadores corruptos, agências de notícias sem dinheiro podem ir ao primeiro degrau do escândalo da próxima década, our mesmo impedi-lo completamente de acontecer, capturado-os mais cedo."

Donald, atualmente jornalista de dados em residência na Universidade Americana, permanece categórico que organizações sem fins lucrativos, como o CPI, o International Consortium of Investigative Journalists, a ProPublica e organizações similares são o futuro para o jornalismo investigativo. Isto é certamente verdadeiro para conjuntos de dados mais caros, que poucos veículos de comunicação tradicionais podem bancar.

"A maior parte do financiamento dessas organizações sem fins lucrativos vem de fundações -- pessoas que dão dinheiro, porque querem ver o trabalho feito, porque acreditam no trabalho", explicou Donald. "O seu único objectivo é fazer reportagens investigativas e servir o interesse público. O trabalho não é um produto que é vendido, então não há nenhuma pressão para criar algo que vai vender. Essa é a nova paisagem. Para manter vivo o jornalismo investigativo, organizações sem fins lucrativos são fundamentais."

Em última análise, no entanto, seria errado se redações de hoje deixassem de lado o jornalismo de dados por causa de seus custos.

"Ignorar o jornalismo de dados neste momento praticamente condena uma agência de notícias a escrever comunicados de imprensa e esperar que alguém deixe um furo no seu colo", disse Willis. "[O jornalismo de dados é] o novo jornalismo investigativo. Cada indivíduo e cada órgão, público e privado, geram mais dados por ano do que o mundo inteiro gerou apenas algumas décadas atrás. E é só o começo ainda."

Imagem sob licença CC no Flickr via Grant