O jornalismo científico e seu lugar necessário na mídia latino-americana

porMariana Cianelli
Jul 14, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
frascos de testes em laboratório

A pandemia trouxe muitas questões, mas também deixou algumas certezas. Uma delas é que o jornalismo científico deve ter um lugar na mídia latino-americana. "O objetivo do jornalismo científico é mostrar ao leitor como a informação científica é importante para suas vidas", diz André Biernath, jornalista da Veja Saúde e presidente da RedeComCiência do Brasil.

No cenário de uma pandemia, o jornalismo científico se torna ainda mais necessário. O conhecimento científico e esse tipo de jornalismo podem fazer a diferença entre vida e morte, diz Biernath. "Sem ciência, não temos conhecimento e sem jornalismo para levar essa informação ao público, o conhecimento permanece nas instituições", explica. Como o trabalho do jornalista especializado mudou? Qual é o lugar nas redações?

Para Myriam Vidal Valero, jornalista freelance especializada no assunto no México, a ciência começou a ter mais destaque durante a pandemia, mas o mesmo não aconteceu com os jornalistas científicos. “Acho que as redações ainda não entendem que precisam de um jornalista especializado, alguém que realmente entenda a ciência e faça as perguntas certas... que entenda a ciência ajuda as pessoas a tomar decisões no seu dia a dia.”

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Aleida Rueda, jornalista científica e presidente da Rede Mexicana de Jornalistas de Ciência, concorda com a ideia de que a ciência ganhou visibilidade, mas é cética sobre qual será a mudança no futuro. De qualquer forma, ela considera que "devemos tirar proveito da situação e que há mais ciência no ecossistema, que o assunto está nas entrevistas coletivas e nas agendas da mídia".

As dificuldades que persistem

Embora os jornalistas de ciência reconheçam que seu trabalho ganhou mais destaque, eles também falam sobre as dificuldades estruturais que persistem. Biernath diz que no Brasil o jornalismo científico não aparece nos currículos das faculdades de jornalismo. "Isso é um problema, porque não temos treinamento para entender como ler um artigo científico ou como levar isso ao público de forma responsável. Você aprende muito no dia a dia", acrescenta.

Outra das dificuldades é a ausência de jornalistas especializados nas redações. A situação do jornalismo na América Latina é problemática: as equipes estão ficando cada vez menores, há menos pessoas fazendo mais coisas. “Quando falamos de jornais locais para cidades pequenas, muitas vezes há apenas um jornalista que precisa escrever sobre tudo; um dia ele escreve sobre a corrupção da cidade, outro dia sobre os novos estudos de uma vacina que eles estão fazendo para a COVID-19 ”, exemplifica.

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Para Rueda, talvez o maior problema seja a falta de legitimidade por parte do público e da mídia. A ciência costuma ter um lugar subordinado ao entretenimento, afirma ela, “quando, na realidade, muitos dos nossos problemas latino-americanos estão relacionados à falta de conhecimento científico. Se não existe legitimidade social da ciência, ela não é vista como um elemento essencial para a cidadania.”

Bruno Massare, editor da Agência TSS, da Universidade Nacional de San Martín e vice-presidente da Rede Argentina de Jornalismo Científico, entende que o jornalismo científico é frequentemente subestimado porque não dá muitos cliques. Por esse motivo, ele considera que deve haver veículos como a Agência TSS, que não dependem da lógica do tráfego, mas entende que isso por si só não é suficiente. "Temos que pensar em formas laterais de subsistir dentro da lógica da mídia", diz ele.

Jornalismo científico vs. notícias falsas

De estudos retratados como “científicos” a remédios caseiros milagrosos, notícias falsas se espalham em segundos nas mídias sociais. Nessa situação, Biernath acha que o jornalismo científico tem um papel a desempenhar. "Por exemplo, tive que escrever um artigo explicando por que o boldo, uma planta muito comum no Brasil, não cura a COVID-19. Nunca estamos na frente da notícias falsas, estamos sempre atrás. Por mais que tenhamos essa função de transmitir notas com base, o dano já foi causado.”

Vidal Valero diz que no México existem muitos "esforços individuais" de jornalistas para lutar contra notícias falsas. Ela, por exemplo, faz parte de uma equipe de verificação, formada pela Rede Mexicana de Jornalistas de Ciências e a agência Verificado, com o objetivo de combater as notícias falsas que circulam sobre a pandemia. "Tentamos ver o que está acontecendo, por que as pessoas estão matando morcegos ou querendo dar festas de contágio", explica ela.

Conteúdos de qualidade como resposta

Para Massare, "houve uma perda de espaço na mídia científica e acho que tínhamos a expectativa de que isso mudasse um pouco". No entanto, ele ainda espera que o jornalismo científico seja favorecido após a pandemia e encontre seu lugar. "Eu acho que está começando a ser apreciado que uma pessoa qualquer não comunica tão bem essas questões quanto um jornalista científico."

De acordo com Biernath, assim como as pessoas valorizam um conteúdo de boa qualidade para entretenimento e pagam pelo Netflix, Amazon Prime ou HBO Go, isso deve acontecer com o jornalismo. "Acho que as pessoas, por causa da circulação de notícias falsas, vão recorrer ao jornalismo bem feito. Minha esperança é que as pessoas comecem a pagar por isso. Isso me parece ser um caminho para o jornalismo do futuro.”

Rueda projeta um futuro semelhante: o público é responsável por exigir conteúdo de qualidade. "E a mídia vai fazer o que o público exige." O cenário menos positivo, ela sustenta, é que, após a pandemia, a necessidade de as pessoas aprenderem sobre ciência acabe e o jornalismo científico terá pouca representação novamente. No entanto, ela também observa um caminho alternativo: a existência de mídias emergentes. “Acho que pode haver uma mudança, mas não necessariamente será da mídia tradicional. A mídia alternativa pode alcançar públicos desapontados. E o saldo pode mudar."


Imagem sob licença Creative Commons no Unsplash via Chromatograph